Geopolítica da nota de 3 dólares

Como as guerras, tragédias aéreas são um conhecido pretexto para o sacrifício da verdade

Brasil, julho de 2007. O avião da TAM ainda pegava fogo ao lado da pista do aeroporto de Congonhas, após uma aterrissagem malsucedida, e os meios de comunicação nacionais já anunciavam seu veredito expedito e definitivo: a culpa era do governo Lula, que havia inaugurado uma nova pista sem ranhuras. Tratava-se de assassinato coletivo, chegaram a escrever alguns.

Ucrânia, julho de 2014. Mal o destruído avião da Malaysia Airlines tocou o solo e a mídia ocidental, convenientemente alimentada por informações de Washington, concluiu, com quase absoluta certeza, que a aeronave havia sido derrubada por separatistas russos do leste da Ucrânia, sob influência, ou mesmo ordens, do governo Putin.

Como provas irrefutáveis, foram oferecidas “informações” dos serviços de inteligência norte-americanos, nunca reveladas para escrutínio independente, e gravações de supostas conversas entre separatistas. No Brasil, a nossa mídia, de um modo geral, também assumiu como verdade axiomática a versão divulgada sistematicamente por Washington. Uma conhecida revista semanal chegou até a estampar a foto do presidente Putin em sua capa, associando-o direta e pessoalmente ao incidente com o avião da Malaysia Airlines.

Bom, chega a ser constrangedora a ausência de questionamentos sobre as supostas verdades emanadas do Departamento de Estado dos EUA.  Parece até que estamos diante de bulas papais, tal a reverência quase religiosa de boa parte mídia.

Afinal, a história recente demonstra que se deveria ter um mínimo de cautela ante informações vindas de Washington e reproduzidas acriticamente pela mídia ocidental. A invasão do Iraque, por exemplo, foi justificada com “informações fidedignas” dos serviços de inteligência dos EUA, que davam como líquido e certo que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e pretendia usá-las contra seus vizinhos.

Colin Powell, Secretário de Estado à época, foi ao Conselho de Segurança da ONU munido de “fotos inquestionáveis” e “gravações reveladoras” das “armas de destruição de Saddam”, inclusive das “nucleares que estavam sendo construídas”, e um vidrinho ameaçador que poderia conter antraz. A ópera bufa no mais importante órgão multilateral do mundo foi encenada como se tratasse de um estudo científico digno de prêmio Nobel. Hoje, sabe-se muito bem que não havia armas de destruição em massa e, obviamente, nenhuma evidência de sua existência. Sabe-se, ao contrário, que Colin Powell simplesmente manipulou informações dúbias e mentiu.

No grande jogo geopolítico mundial, a informação fidedigna, a verdade, é sempre a primeira vítima.

Obviamente, não foi a primeira vez e nem a última que Washington manipulou informações, conforme seus interesses geopolíticos. Para quem tinha ainda dúvidas sobre essa extraordinária capacidade de controlar, produzir e disseminar informações manipuladas, as revelações de Julian Assange e Edward Snowden deveriam tê-las sepultado. Deveriam.

No caso do avião da Malaysia, há indícios intrigantes de possível manipulação. A gravação de uma suposta conversa entre um “general russo” e um separatista, na qual se mencionaria a derrubada do avião, foi, ao que tudo indica, realizada um dia antes do incidente. A NSA tem também poderes premonitórios? Mais recentemente, foi divulgada uma suposta conversa entre separatistas russos, na qual estariam combinando o “sumiço” das caixas pretas e seu envio para Moscou. No entanto, no dia seguinte as caixas pretas apareceram intactas, sendo entregues às autoridades internacionais encarregadas da investigação. Mudaram de ideia em poucas horas? 

Há também informações que não fazem muito sentido. As forças federalistas ou separatistas do leste da Ucrânia são atacadas por helicópteros e aviões do governo da Ucrânia que voam em baixa altitude. Para se defender desses ataques, mísseis de curto alcance, baratos, de fácil transporte e operação são os mais adequados. Esses mísseis não têm capacidade de atingir aviões em grande altitude. Já o sistema BUK, em tese o responsável pela queda do avião Malaysia, é muito mais caro e sofisticado, e necessita de treinamento específico para ser operado com segurança. Ele tem um radar com 137 quilômetros de alcance, capaz de distinguir aviões “amistosos” ou “civis” de “aviões militares inimigos”. Dependendo do míssil usado, ele pode atingir alvos até 50 km de distância e a uma altitude de 25 mil metros.

Por que as forças separatistas precisariam de um sistema tão poderoso e difícil de operar?  Não há notícias de que essas forças estivessem sendo atacadas por aviões em grande altitude. Não há também, até agora, evidências de que os separatistas tenham tal sistema. Se Washington e Kiev as têm, por que não as divulgam? Porém, por outro lado, sabe-se que as forças do governo da Ucrânia têm o sistema antiaéreo BUK. Assim, por que descartar, a priori, a hipótese de que o míssil tenha sido disparado por forças ucranianas? De onde provem a certeza de que o míssil foi disparado de uma “zona sob domínio dos separatistas”? Afinal, trata-se de uma zona de conflito, na qual qualquer domínio é muito frágil, precário e mutável.

Mesmo supondo que os separatistas possuam o BUK, por que o teriam usado contra o avião da Malaysia? O radar do sistema é perfeitamente capaz de distinguir um jato de transporte civil de um caça militar de ataque. A hipótese de que eles o tenham usado contra o jato da Malaysia porque pensaram tratar-se de um avião espião não faz muito sentido. Esse avião estava saindo da Ucrânia em direção ao território russo. O que um avião espião do governo da Ucrânia ou de alguma força ocidental ia fazer em território russo, sujeito a ser derrubado assim que o adentrasse?

Portanto, há muitas perguntas e questionamentos técnicos a serem respondidos, antes de se acusar peremptoriamente os separatistas e Moscou pelo incidente.

Além disso, há também o óbvio questionamento político. Moscou e os separatistas são os grandes prejudicados pelo incidente. A guerra civil na Ucrânia não vinha despertando grande interesse na população norte-americana. Ademais, a Europa estava procurando evitar um envolvimento mais direto no assunto e se recusava a secundar os esforços do EUA de impor mais sanções ao governo de Moscou. Agora, o cenário mudou e vem sendo criado um ambiente político bem mais favorável às pretensões dos EUA e aos interesses do governo de Kiev, principalmente de seus setores mais radicais, para não dizer francamente neonazistas.

Esses setores, embora minoritários, querem um enfrentamento mais decidido com o governo de Moscou e um envolvimento decisivo das potências ocidentais no conflito. Esses setores sabiam perfeitamente que, caso um incidente desse tipo acontecesse, a insuperável máquina de propaganda de Washington, secundada por uma mídia constrangedoramente acrítica, se encarregaria de assestar suas poderosas baterias de informação contra os separatistas e Moscou. Tal questionamento político suscita outra pergunta ainda não respondida: porque o governo de Kiev não instruiu jatos civis a não sobrevoarem a zona de conflito?

É perfeitamente possível, por conseguinte, que o míssil não tenha vindo das forças separatistas. É perfeitamente possível também, e provável, que tudo não tenha passado de um erro. Alguém, de um lado ou do outro, sem o devido treinamento, tomou a decisão errada ou apertou o botão errado.  

Saliente-se que não seria a primeira vez que forças militares ucranianas derrubam um avião civil. Em outubro de 2001, um avião da Siberia Airlines, que ia de Tel-Aviv para Novosibirsk, na Rússia, foi derrubado por militares ucranianos sobre o Mar Negro, matando 78 pessoas. Ao final da investigação, o governo ucraniano admitiu o erro, causado por um “míssil sem controle”, e pagou uma indenização de US$ 15 milhões aos familiares das vítimas.

Curiosamente, tal precedente não é usualmente mencionado. Menciona-se profusamente, é claro, a derrubada do avião da Korean Air Lines, que, em 1983, sobrevoava, sem permissão, 300 km fora de sua rota, espaço aéreo soviético restrito próximo à Ilha de Sakalina.

Como no caso do avião da Siberia Airlines, o mais prudente seria esperar pelo final da investigação internacional, apoiada pela Rússia, para saber ao certo o que aconteceu. Até lá, nenhuma hipótese pode ser descartada, como determina, aliás, a metodologia das investigações aeronáuticas. Tudo tem de ser considerado possível. No caso do avião da TAM, a hipótese inicial, divulgada à exaustão por uma mídia partidarizada, acabou se revelando uma grosseira falsidade.

O que não é possível é considerar, de forma acrítica, apenas uma única hipótese como factível. Justamente a hipótese que convém aos interesses geopolíticos de Washington e aliados, que divulgam profusamente “informações” e “gravações”, sem revelar a sua origem e natureza, e sem submetê-las a um escrutínio técnico imparcial.

Esse filme já foi visto antes. Trata-se de uma geopolítica da informação que não se acanha em manipular e falsear dados para justificar seus interesses. É a mesma geopolítica da informação que nos quer fazer acreditar que os bombardeios genocidas de Israel em áreas residenciais na Faixa de Gaza se justificam pela necessidade de “fechar os túneis do Hamas”.

É a geopolítica da “nota de 2 dólares”, expressão usada antigamente nos EUA para denotar falsidades absurdas. Com a colaboração acrítica da mídia, até que funciona. Mas moralmente vale bem menos que isso.

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