Gleisi consolida sua liderança ao conduzir o PT a acordo com Baleia Rossi

“Nas eleições municipais, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, sofreu um desgaste”, afirma a jornalista Denise Assis. Com Lula em Cuba, sem realizar a discussão interna, Gleisi liderou a formação do acordo com Baleia Rossi, “consolidando a sua liderança”

(Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado | Luis Macedo/Agência Câmara)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Não se come o doce na fervura do tacho. Enquanto o processo de escolha do candidato das esquerdas estava em ebulição era difícil vislumbrar o cenário que se desenharia, embora já estivesse patente a tendência do apoio ao deputado Baleia Rossi (MDB-SP), a fim de tirar de Bolsonaro o controle da Câmara dos Deputados. Mais que falar do resultado, nesse momento é interessante observar como se chegou até aí, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, figura de proa do Partido dos Trabalhadores, fora do país.

Nas eleições municipais, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, sofreu um desgaste por ter respeitado a decisão do diretório de São Paulo, que optou pelo nome de Jilmar Tatto, para a disputa, descartando a aliança com o Psol, de Guilherme Boulos. Ainda em clima de fogo amigo, o partido logo precisou encarar as discussões em torno da candidatura à presidência da Câmara, ao mesmo tempo em que as trapaças da sorte levavam o ex-presidente Lula para as filmagens de um documentário, em Cuba, sob a batuta do cineasta Oliver Stone.

E o que um evento tem a ver com o outro? Tudo. Embora esse script não fosse combinado, a ausência de Lula neste momento permitiu a Gleisi levar com habilidade e firmeza o PT até a definição, consolidando a sua liderança. E isto não foi pouco.  

Para os que estranharam Lula fora de discussão de tamanha importância, é bom deixar claro que antes de viajar, numa reunião do partido, ele e Gleisi montaram e remontaram vários cenários e possibilidades. Lula saiu daqui inteiramente convencido de que o “racha” da direita conservadora apontava o caminho para o fortalecimento do partido e a união da oposição. Melhor não deixar escapar a oportunidade. Ficou, portanto, acertado, que Gleisi tinha o seu aval para integrar o bloco que ora se formou, de 11 partidos de centro-esquerda, com 273 deputados. Condição confortável, levando-se em conta que o deputado Arthur Lira (PP-AL), o escolhido de Bolsonaro, tem consigo 195 parlamentares – noves fora as traições habituais, pois a eleição é secreta.

O apoio só foi possível “a partir de compromissos firmados pelo candidato com os partidos de oposição (PT, PSB, PDT, PCdoB e Rede), em defesa da democracia, da independência do Poder Legislativo e de uma agenda legislativa que contemple direitos essenciais da população”, como divulgado em nota do partido.

Na plateia, a militância se contorceu, esbravejou e defendeu as cores do PT, sob o argumento de que não se podia dar apoio a quem votou pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Difícil mesmo digerir um golpe. No entanto, nunca é demais lembrar que Carlos Lacerda comemorou com tiros de metralhadora, para o alto, na varanda do palácio Guanabara, a queda de João Goulart, em 1964, e em setembro de 1967 era recebido por Jango, em sua casa, no Uruguai, para estabelecer uma frente que barrasse os absurdos da ditadura.

As discussões se estenderam por todo o ano de 1968, e a frente ampla de Jango só não vingou por força do Ato institucional nº 5, baixado em dezembro daquele ano, o que inviabilizou qualquer reação política. A partir dali, valia a força bruta. E, é bom que se destaque, frente integrada também pelo visceral Leonel Brizola, que quando tomava birra, era difícil fazê-lo voltar atrás.

Nos bastidores da opção por Rossi a disputa foi surda e repleta de condicionantes. A seu lado, Gleisi tinha o líder do partido na Câmara, Enio Verri, o colega José Guimarães e o também deputado do PT, Carlos Zarattini, contando, ainda, com a ajuda de Jilmar Tatto, nas articulações. O diálogo nem sempre fluía, dadas as divergências de pautas entre os partidos. Uma primeira carta compromisso veio a público, elaborada pelo deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), mas vários dos seus pontos foram rejeitados pelos componentes do bloco.

O grande desafio de Gleisi, a partir dali, era pressionar Baleia e Rodrigo Maia para aceitarem as propostas do PT, fora da pauta específica dos temas da casa. Dois foram cruciais: o que defendia o impeachment e o que barrava as privatizações. Esses, correram o risco até mesmo de ficar de fora do documento. Por fim, com “atenuantes”, entraram. Zaps e telefonemas posicionavam Lula, que apenas acompanhava todo o desenrolar. Na reta final, se não desemperrasse a discussão com os demais integrantes do bloco, o partido corria o risco de ver o apoio a Baleia ser anunciado, sem o PT estar incluído. Neste ponto foi decisiva a atuação de Gleisi, que conseguiu segurar o anúncio até ontem (04/01), enquanto negociava as pautas de interesse da sociedade.

Surpreendente foi ver, estampada num jornalão, uma análise que não esconde o viés machista, outorgando a Fernando Haddad os “últimos movimentos para impor condições ao apoio do deputado Baleia Rossi”. O comentário evidencia duas questões frequentes na imprensa tradicional: uma, a de puxar Haddad para o centro, apresentando-o como “o moderado”. Não precisa. Ele é a personificação da moderação e só foi apontado como “radical” quando lhes pareceu conveniente e lhes deram esse figurino na disputa com Bolsonaro, candidato da ultra direita. Haddad dificilmente vai cair no jogo de virar o queridinho dos conservadores cheirosos. A outra, a de diminuir o trabalho de Gleisi, que já recebeu as felicitações de Lula, lá das praias de Havana.

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