Globo, PT, perdão e desdobramentos (parte 2)

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O artigo do jornal O Globo, cujo título é "O futuro do PT será determinado pela prevalência de um grupo", de Ascânio Seleme, parece confirmar (mais uma vez de maneira oblíqua) minha hipótese formulada a partir do artigo "É preciso perdoar o PT",  do mesmo autor e jornal, do qual é uma continuação. Para entendermos essa confirmação, porém, devemos considerar duas estratégias, calcadas em duas lógicas diversas, a saber, por um lado, a estratégia da Globo baseada na lógica da contradição; e, por outro, a estratégia do PT alicerçada na lógica do paradoxo. 

A história da filosofia nos ensina que, a partir de Platão e principalmente de Aristóteles, a lógica da contradição foi sistematizada em três princípios: o princípio da Identidade (A=A); o princípio da não-contradição (A#B); e, ainda, o princípio do 3° excluído (A ou B). Depois, a partir dos estóicos (pós-platônicos), a lógica do paradoxo, que contesta e subverte a lógica da contradição. Como nos ensina o filósofo francês Gilles Deleuze, essa contestação e subversão se dão porque a lógica da contradição opera de modo binário e maniqueísta, ao utilizar a conjunção coordenativa "ou" no sentido da exclusão, assim como os adjetivos, os substantivos e os verbos (principalmente o verbo ser no presente: sou, é) na acepção da Identidade, donde por que alguns exemplos, tais como fulano é branco ou negro, a temperatura de beltrano é quente ou fria etc., ao passo que a lógica do paradoxo serve-se da conjunção coordenativa "e" no sentido da adição, bem como dos adjetivos, substantivos e verbos (sobretudo os diferentes verbos no infinitivo: falar, verdejar, crescer etc.) na acepção da Diferença, daí por que alguns exemplos, tais como, ao verdejar, a árvore torna-se mais verde do que era, mas também menos verde do que será ao mesmo tempo; ao crescer, Alice torna-se maior do que era, mas igualmente menor do que será em simultaneidade etc. Aqui, não se trata de um mero jogo de palavras. Trata-se, sim, do modo pelo qual se constitui a própria vida, o que, por óbvio, também se aplica à política.

Nesse sentido, é interessante observar como tais lógicas orientam o éthos (modos de ser e existir) de indivíduos no âmbito microfísico ou molecular, mas também de organizações sociais, econômicas, políticas e, ainda, empresariais e partidárias no plano macrofísico ou molar, a exemplo das Organizações Globo e do próprio Partido dos Trabalhadores, ao estruturar seus discursos e suas práticas, suas formas de saber e suas estratégias de poder (nem sempre totalmente conscientes) - para lembrarmos de Michel Foucault.

Pois justamente os dois artigos sobre o PT, de Ascânio Selene, parecem testemunhar a lógica da contradição pela qual se orienta a Globo: 1- por meio de determinados verbos, adjetivos e substantivos, identificação binária e mesmo maniqueísta de dois grupos dentro PT ou mesmo de dois “PTs”, a saber, um que aceita (Haddad) e outro que recusa (Lula) o perdão (que a Globo pede ao PT por sinais trocados em seu primeiro artigo); 2- a partir desta identificação, conjuração, denegação e exclusão de um dos dois PTs (que a Globo sentencia em seu segundo artigo), qual seja, preterir o PT de Lula (que “é” intolerante e radical) em favor do PT de Haddad (que “é” tolerante e moderado).

Ao mesmo tempo, parece-nos que o PT orienta-se de acordo com a lógica do paradoxo, o que se verifica na própria estratégia elaborada por Lula: 1- apresenta-se como um Partido múltiplo, visto que se pinta com todas as cores e matizes político-ideológicos da esquerda; 2- esta multiplicidade de cores e matizes político-ideológicos da esquerda opera não por exclusão (“ou”), mas por adição ou conjunção (“e”), tendo em vista a convivência das suas diversas correntes e tendências; 3- a partir desta conjunção entre múltiplas cores e matizes político-ideológicos da esquerda, o PT tanto a ceita quanto recusa o pedido de perdão oblíquo da Globo (aceitar “e” não aceitar em simultaneidade), sem, no entanto, provocar uma divisão ou fratura interna, que destrua o Partido.

Mas, para além da contradição e do paradoxo, outra questão deve ser considerada, uma questão igualmente filosófica, que, no entanto, embaralha ainda mais as cartas do jogo político entre o PT e a Globo: o simulacro. Ao longo da história da filosofia, o fenômeno do simulacro recebeu dois tratamentos distintos. Por exemplo, em Platão e Baudrillard, o simulacro recebe um tratamento negativo, visto que se confunde com uma espécie de ilusão, enquanto em Crisipo, Carroll e no próprio Deleuze, o tratamento dispensado ao simulacro é positivo, já que se imiscui na própria existência em sentido ontológico. Os dois significados atribuídos ao fenômeno do simulacro são igualmente legítimos, co-existindo e interpenetrando-se continuamente. O simulacro produzido pelo PT é aquele no qual Lula e “seu grupo” (vide a último comentário de Gleisi Hoffmann na TV 247) recusam o pedido de perdão da Globo, embora Haddad e “seu grupo” sinalizem para o aceite de acordo com a estratégia traçada pelo próprio Lula - ao que parece, ele entende que não é possível voltar ao poder central sem algum tipo de repactuação entre as diversas classe e seus respectivos interesses. Já o simulacro criado pela Globo não é outro senão aquele onde seu jornalismo distingue o “bom PT” do “mau PT”, não obstante saiba perfeitamente que, por um lado, tal distinção inexiste, e, por outro, é o próprio Lula quem, até certo ponto, cria e sustenta a referida distinção (embora opere a troca de sinais, de tal modo que, em sua chave de enunciação e compreensão voltada para os filiados, militantes e simpatizantes do Partido, o que a Globo define como o "mau" é o "bom PT" e vice-versa) em conformidade com sua estratégia de reconquista do poder central: um cavalo de Tróia que, ao contrário da Ilíada, não engana o Império inimigo e, no limite, até pode salvá-lo (já o fez em 2003), embora o último tema o elevado custo de sua possível salvação.

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