Ideologias à parte

"Eu falo dessa esquerda que protege o ambiente, o desenvolvimento humano e o crescimento social. Também dessa turma que saiu às ruas ontem no mundo, dia 20 de setembro para defender o planeta. Poderia até ter gente de direita, de centro-direita, liberais iluminados que querem preservar o mundo onde vivemos. Mas, essa turma da direita extremada, radical que admira o Trump e vota no Bolsonaro jamais será a favor da preservação do meio ambiente. Temos visto isso aqui no Brasil", observa Miguel Paiva

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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia  -

Na virada do século passado para este dizia-se que as ideologias tinham acabado. Com a queda do muro de Berlim criou-se a ilusão de que os problemas políticos do mundo terminavam com o chamado fim da guerra fria. O capitalismo vencia e foi muito difícil descobrir que nada disso era verdade. Os atores mudaram de figurino, o texto sofreu uma revisão modernizadora mas a ideia do espetáculo era a mesma, disfarçar a luta de classes para que o bem vencesse o mal e o mundo fosse cada vez mais inóspito para a maioria da população. Era isso que acontecia. Ao mesmo tempo surgiam dois novos temas que viravam o século prontos para se tornarem as novas questões ideológicas: o meio ambiente e as questões de gênero.   

Para mim esses temas, claramente, carregavam na discussão as mesmas questões políticas de quando existiam de verdade, antes do recesso armado, a direita e a esquerda. Essas novas questões eram a chamada versão moderna ou mesmo a ampliação da discussão sobre a velha luta de classes. Discutir questões de gênero, assimilar todas as transformações recentes nas relações, nas identidades, nas posturas diante da vida e da sociedade nos colocam numa posição que fica fácil perceber onde a direita se manifesta e onde a esquerda resiste. Questões de gênero são a kriptonita da direita atualmente no poder, significam colocar por água abaixo todas as teorias, a ideologia e os propósitos que a direita radical proclama. O mundo que eles querem não permite tais liberalidades. A esquerda tolera porque é mais moderna, porque teve que se livrar de certos padrões mais conservadores para manter acesa a atração em relação ao pessoal mais jovem e esse pessoal mais jovem carrega  a semente da transformação. A esquerda teve que assimilar na prática o que ela sempre pregou na teoria. A transformação da sociedade.   

Como se vê então, fatos políticos fortíssimos que mesmo a modernidade do tema não consegue disfarçar. E as noções de direita e esquerda saiam do recesso imposto sobretudo pela mídia para voltar a marcar os espaços sociais. Dificilmente uma pessoa de direita vai fechar com as questões irreversíveis que as discussões de gênero trazem. Daí, mesmo que nem toda a esquerda concorde com elas, é mais a cara de uma posição política transformadora do que de uma conservadora. Que sociedade é essa que vem ai? Melhor que seja a esquerda, ou até mesmo a centro-esquerda social democrata que a receba, a entenda, a assimile rapidamente. Os tempos mudaram.  

Do mesmo modo a discussão sobre o meio ambiente carrega essa divisão. A esquerda, por não se posicionar a favor do capital, do crescimento a qualquer custo, do desenvolvimentismo exacerbado, da meritocracia e do lucro acaba se posicionando mais a favor da preservação do que da destruição. Quando falo de esquerda, neste caso evidentemente, não incluo nem a China, nem a Rússia nem os países de regime comunista autoritário. Falo da esquerda ocidental. A China é uma discussão à parte com uma história muito particular de um capitalismo de estado com posições muito mais parecidas com o pessoal do Guedes do que com as do PT, por exemplo. Eles também creem no desenvolvimento a qualquer custo. Mas o que fazer quando você tem que lidar com aquela população toda e ainda fazer cara feia para os Estados Unidos? O povo unido, mesmo que à força, é capaz de construir o mundo.  

Eu falo dessa esquerda que protege o ambiente, o desenvolvimento humano e o crescimento social. Também dessa turma que saiu às ruas ontem no mundo, dia 20 de setembro para defender o planeta. Poderia até ter gente de direita, de centro-direita, liberais iluminados que querem preservar o mundo onde vivemos. Mas, essa turma da direita extremada, radical que admira o Trump e vota no Bolsonaro jamais será a favor da preservação do meio ambiente. Temos visto isso aqui no Brasil. Eles preferem passar por cima dos índios, das florestas, dos quilombolas. 

É isso, duas novas discussões fundamentais para o futuro desta nossa humanidade que carregam no bojo as mesmas questões de sempre, a luta de classes. A questão que virou moda no final do século 19 e que até hoje, respeitadas as devidas transformações, ainda é o grande enigma da sociedade. O outro enigma talvez seja acreditar em deus, mas aí é outra conversa.

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