Incrementalismo x bala de prata

Assim como Meirelles mais se assemelha a segunda passagem do Felipão na Seleção Brasileira, Armínio Fraga não necessariamente repetirá o dirigente que deixou juros, proporção dívida-PIB e inflação (para padrões pós-Real) nas alturas

Arminio Fraga e Aécio Neves com João Doria Jr.
Arminio Fraga e Aécio Neves com João Doria Jr. (Foto: Leopoldo Vieira)

O PSDB apresentou boas soluções para a situação econômica, cuja projeção de melhora fora descartada em anúncio recente da equipe econômica.

Reduzir juros para ampliar a sustentabilidade da dívida das famílias e aumentar a margem de consumo, terminar o pacote de isenções à setores da indústria que, desde 2012, não dá em investimento, mas em recomposição de margem de lucro e aplicações em fundos de investimentos; estruturar um fundo para incentivar incorporadoras a investir em habitações populares, combinando expansão da infraestrutura social com geração de empregos, e aumentar impostos para recompor o orçamento.

O país precisa mesmo de propostas e não de declarações como "vai ter mais desemprego", com certeza uma infelicidade do secretário Moreira Franco.

Isso apavora quem é capaz de dar suporte popular a governos que buscam retomar estabilidade política ou pacificar o país: a classe C, farol da D e da E.

Contudo, as medidas sugeridas pelo PSDB são boas, mas incrementais. Tal como esperar os efeitos da PEC 241-55, seja sobre o controle do gasto público, sobre mais espaço para investir pela redução da proporção dívida-PIB, ou sobre a pressão inflacionária.

Só uma bala de prata pode reorganizar o ambiente político e ela se chama emprego.

Dilma não tinha mais apoio político, do mercado e nem social, mas poderia ter escolhido um último tiro que a reconectasse com o setor que definiu a eleição contra Aécio Neves porque ouviu promessas de proteção ao emprego e ao salário.

Optou por mediações aqui e ali com o ministro da fazenda - depois da queda de Levy - para liberação de empreendimentos e recursos ali e acolá que demorariam um ano, ano e meio e restabeleceria o ambiente econômico. Dançou.

Temer tem muito apoio político, tem uma aposta do mercado e lhe falta o social. Pode prestar atenção no que não fora percebido por sua antecessora, antes que a classe média, novamente, imagine-se mais relevante que a classe C ou, pior, esta acredite nisso e se engaje em conjunto contra o governo.

Do que o PSDB apresentou, dá para se fazer uma boa limonada: montar um fundo via novo imposto voltado para um plano de combate imediato ao desemprego, uma CPMF anticíclica, fora do teto de gastos e, ao mesmo tempo, gatilho para ligar o pólo contracionista ao pólo expansionista da PEC.

Isso é como uma ilusão incremental vira uma bala de prata.

Assim como Meirelles mais se assemelha a segunda passagem do Felipão na Seleção Brasileira, Armínio Fraga não necessariamente repetirá o dirigente que deixou juros, proporção dívida-PIB e inflação (para padrões pós-Real) nas alturas.

Num ambiente em que ninguém colabora com ninguém, é preciso mesmo tentar e conversar. E tem alguém que tem know how para ajudar muito nisso, que tem insistido que só falar de ajuste e tirar os trabalhadores das decisões políticas e do orçamento é errado.

Ele mesmo, o que recuperou o país em 2003 e evitou a quebra dele em 2008, autor de 20 milhões de empregos. O que pode dizer, com credibilidade: quero voltar para gerar emprego para meu povo. Mensagem que será muito mais escutada do que panelas nos jardins.

E essa conversa ampla, geral e irrestrita tem que ser séria, antes que algum aventureiro lance mão ou todos se tornem aventureiros, pois parece se aproximar um ponto onde o sistema político perde completamente o controle, porém quem riscou o fósforo também não tenha um desfecho para a fogueira que criou.

E essa fogueira será alimentada com violência policial desmedida, depredações de patrimônio público e carros incendiados; insurreição contra os poderes do Congresso Nacional por agentes públicos, conversão de presidente de um poder em réu simplesmente para a "melhora da qualidade probatória" - que todos sabem que é retaliação a pontos de vista - ou, manifestações proto-fascistas que pedem intervenção militar e laureiam juízes de primeira instância de uma certa região agrícola do Brasil.

Este diálogo é a pistola do valioso projétil e, como se sabe, todo poder emana do cano de uma arma, principalmente se a política for mesmo a guerra por outros meios.

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