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O nosso Nordeste só voltou a dar as caras na eleição de LULA e na oposição ao atual Presidente da República. Outra vez, o Nordeste voltou a cena política

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Os mais antigos prognósticos dos ensaístas e pensadores nordestinos sobre o país era o que se conhece como uma ontologia política negativa. O que mereceu de Jessé de Souza o reparo de que era uma espécie de "sociologia da inautenticidade". O Brasil não era isso, não era aqui, aquilo outro etc. Ora que o Brasil não era a Inglaterra, a França ou os Estados Unidos, nós já sabíamos. A questão era saber o que o país era. Ou seja, qual seria a identidade do povo brasileiro e a originalidade de suas instituições políticas, jurídicas e sociais. Um prato cheio, aliás, para os antropólogos nacionais; especialistas em definir a especificidade das culturas, povos e nações. Daí para as invenções do Brasil foi um pulo: país da  semifeudal, para uns, patrimonialista, para outros. Povo novo, como disse Darcy Ribeiro, país do jeitinho brasileiro, como quer Roberto da Mata. Ou país da democracia  racial, da mestiçagem e do sincretismo cultural, como afirma o nosso mais famoso ensaísta  nordestino: Gilberto de Mello Freire. 

A ensaística nordestina é pródiga em  sugerir imagens e construtos culturais sobre a nossa região e o país, de forma positiva: o homem telúrico (Raquel de Queiroz), o herói picaresco (Ariano Suassuna), o homem-caranguejo (Josué de Castro) ou o mulato embranquecido (Gilberto Freire). Escapa dessa galeria, os autores de orientação comunista, como Cristiano Cordeiro - um dos fundadores do Partido Comunista - que procurou enquadrar a região e o país numa moldura programática que pudesse ajudar na mudança social do nosso povo e da nossa região. A propósito, chama muita atenção o fato de a Fundação Joaquim Nabuco ter organizado um simpósio sobre o centenário desse velho militante comunista e a fundação do PC em Pernambuco. Decerto, Cristiano não se enquadra  bem na galeria de nossos "descobridores" do nordeste e do Brasil.

De longe, a obra mais importante para construção dessa mitologia nordestina é a chamada "Brasilidade nordestina, analisada por Eduardo Jardim e Carla Nogueira, a construção de um espaço e de uma cultura nordestina na década de vinte, através da pintura, da poesia, da literatura e do ensaio. Livro instigante que nos faz refletir sobre a "invenção do nordeste". A obra relativiza  uma prática discursiva, oriunda do movimento regionalista da década de vinte, sobre o que é ser "nordestino" e o "nordeste", centrada na romantização dos velhos engenhos banguês, dos messianismo, das secas e o cangaço, tanto quanto os fatos e feitos da civilização sucroalcooleira que vai dar na "Casa Grande e na Senzala", a partir de um olhar saudosista, de quem acha que a modernização trazida pelas Usinas veio acabar.

Essa glorificação de uma passado idílico entre senhores e escravos, entre a mucama e o senhorzinho, o senhorzinho e o moleque de pancadas. Sugestão saída de Oliveira Lima, que Gilberto Freire aproveitou e fez uma obra épica sobre a escravidão africana no Brasil. O próprio mito fundador de uma civilização luso-tropical, cordial, gentil e amorosa entre seus membros tornou-se uma vantagem civilizatória comparativa exibida aos quatro cantos do mundo, como a marca da gente brasileira: aqui não existe preconceito racial! E um formidável mecanismo de mobilidade social conhecido como processo de "embranquecimento" social. Mito que atrasou em muitas décadas a luta dos afro-brasileiros pelos  seus direitos civis e sociais.

A essa ideologia orgânica da classe senhorial brasileira somaram-se outras como a apologia de uma cultura picaresca, como contrapartida à dominação social. Restava aos nossos heróis populares enganar, através da "lábia" os poderosos, "passar a perna" neles, como faz João Grilo, no auto da compadecida. 

Para esses autores, como Ariano Suassuna, as nossas utopias civilizatórias não são republicanas - coisa do diabo e do capitalismo - são monárquicas, armoriais e messiânicos. Viva a Pedra do Reino e o reinado de D. Pedro Quaderna- gênio da raça. Ou a onça castanha e a rainha do meio dia.. A carnavalização da cultura sertaneja em trajes armoriais ou religiosos pede passagem. A apologia ao picaresco é o outro lado da medalha da desconfiança ou menoscabo dos movimentos políticos republicanos, socialistas, liberais ou autoritários. Tudo "farinha do mesmo saco", produto da importação das elites litorâneas, sempre de costas para o Brasil profundo, sertanejo, místico e monarquista.

Daí vem o encanto de uma toada nordestina e sertaneja na voz de Raquel de Queiroz, fazendeira de Quixadá. A contraposição entre um mundo superficial da cidade, da ciência, dos negócios e o mundo sobrenatural e fatalista, governado pela providência divina, à qual os homens têm de se subordinar. O famoso romance de Queiroz "O Quinze" que fala da seca de 1915 no sertão do cariri cearense ajudou a popularizar a figura do  nosso homem "telúrico", rústico, leal, piedoso e crente, avesso a relações secundárias (políticas ou sindicais) mas profundamente religioso, cordato, apegado a sua terra e castigado pelo flagelo das secas. Aqui, a natureza é a causa dos problemas sociais e humanos. E só resta aos flagelados se conformarem com a sua triste sina, à espera da caridade alheia. esse romance menciona, pela primeira vez, os campos de concentração para a população pobre, tangida pela estiagem para as grandes cidades.

Aí, se apresenta o ensaio de geografia humana de Josué de Castro, "o homem e o caranguejo", um ensaio etnológico, profundamente crítico da pobreza, a exclusão social e a fome dos nossos pescadores urbanos de mariscos, nas pontes do Recife. A triste simbiose entre humanos e crustáceos, a conviveram tão intimamente, nas calçadas de uma grande cidade, chamou a atenção da opinião pública para a miséria urbana das metrópoles brasileiras e a formação de um tipo humano assemelhado aos animais que asseguravam o seu sustento diário: gabirus, caranguejos). O ensaio de Castro tornou-se inspiração para vários trabalhos e pesquisas (O viaduto e o Caranguejo) e para uma poética musical que ganhou o mundo (Manguebeat). Exilado, depois do golpe de 1964, Josué de castro tornou-se um "cidadão do mundo", indo trabalhar para a FAO, no combate à pobreza e a fome no mundo.

Todas estas ideias ajudaram a  formar esta ideia de "Nordeste" e "Nordestinos", a ponto de uma intérprete  musical paraibana cantar sobre uma nação nordestina independente. A pá de cal veio com o processo de "desregionalização" da economia brasileira e o fim da SUDENE, substituído por enclaves regionais, altamente especializados e atrelados ao mercado mundial, "Os Clusters", política seguida por Fernando Henrique Cardozo, como meio de integrar competitivamente o país na globalização.  O nosso Nordeste só voltou a dar as caras na eleição de LULA e na oposição ao atual Presidente da República. Outra vez, o Nordeste voltou a cena política.

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