Jair e Eduardo: meu filho, meu tesouro

"Em menos de 48 horas o tesouro em questão manipulou e adulterou uma foto da jovem ativista sueca Greta Thunberg e divulgou a própria imagem fazendo o sinal paterno de quem tem armas na mão diante do monumento pela paz que fica na entrada da ONU, em Nova York", escreve o jornalista Eric Nepomuceno

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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Em 1946, o pediatra norte-americano Benjamin Spock publicou um livro de título extenso: The common sense book of baby and child care. No Brasil, foi rebatizado de maneira mais sucinta: ‘Meu filho, meu tesouro’.

Lido hoje em dia, parece um amontoado de obviedades. Traz orientações que vão de como lavar as fraldas de um bebê (além do próprio) até o preparo da mamadeira. Mas, na época, foi um fenômeno revelador: até hoje é um dos livros mais vendidos da história. Nos Estados Unidos, por exemplo, ao longo do século XX só foi em superado em vendas pela Bíblia.

Tudo indica que anos atrás Jair Messias Bolsonaro tenha sido presenteado com um volume de ‘Meu filho, meu tesouro’.  

Inimigo irrecuperável dos livros, não deve ter lido, é claro. Mas certamente guardou o título na memória, e não só se convenceu de que era correto como resolveu zelar com carinho ilimitado pelos seus tesouros.

Tanto assim que decidiu agraciar um deles, Eduardo, com a embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

Desde que o anúncio foi tornado público, pai e filho vem se esmerando numa árdua disputa para ver quem consegue superar o outro no quesito de ser ridiculamente grotesco quando se trata de política externa.  

Diante desse quadro, e para além do absurdo insuperável de indicar um exemplar irremediavelmente despreparado para ser embaixador em qualquer confim do planeta, o mais surpreendente é que a indicação do tesouro corre o altíssimo risco de ser aprovada no Senado.

É bem verdade que Bolsonaro continua um fenômeno apavorante na péssima arte de gerar absurdos. Para isso, aliás, conta com a prestimosa colaboração da sua trupe de aberrações.  

A questão é que enquanto o país, zonzo diante de tantas maluquices, não sabe para onde olhar, vai sendo destroçado em velocidade alucinante.

Vale a pena, em todo caso, acompanhar de perto – apesar da mistura de assombro, surpresa e náusea que essa figura provoca – as andanças mais recentes do tesouro candidato a embaixador.     

Espalhando robustas mostras da educação que ele e os demais tesouros receberam do progenitor, o ex-entregador de pizzas e chapeiro de hambúrguer se esmera nas exibições de grosseria.  

Com certa frequência consegue o fenômeno de quase alcançar o nível do pai nessa especialidade. E também em outra: a de manipular fatos e mentir com uma soltura impactante.

Em menos de 48 horas o tesouro em questão manipulou e adulterou uma foto da jovem ativista sueca Greta Thunberg e divulgou a própria imagem fazendo o sinal paterno de quem tem armas na mão diante do monumento pela paz que fica na entrada da ONU, em Nova York. Nenhuma surpresa: sobram mostras de uma desonestidade comparável somente à sua estupidez.

Para ser mais explícito, disparou não a pistola que costuma ostentar na cintura, mas uma série de frases em seu português peculiar dando mostras de seu mais peculiar ainda pensamento mentecapto, criticando a escultura, a própria ONU e todos os que são contra o armamentismo desenfreado defendido pelo clã Bolsonaro.

Esse tesouro de Jair seria apenas uma aberração equiparável ao resto da prole se não existisse esse detalhe alarmante, que vale reiterar: o altíssimo risco de que, como resultado de uma vasta compra de senadores, seu nome seja aprovado para virar embaixador brasileiro em Washington.      

Por mais que ele seja cercado por funcionários do Itamaraty, a verdade é que nenhum itamarateca jamais será capaz de conter seus arroubos demenciais.

Pode parecer detalhe de menor importância diante do caos absoluto em que este país náufrago se transformou debaixo de Bolsonaro e seus asseclas.  

Pode parecer, mas não é. Ter esse sacripanta como embaixador trará, irremediavelmente, irremediáveis – e que valha a redundância – consequências para o Brasil, todas negativas.  

A questão agora é saber como impedir que o Senado faça uma leitura muito pessoal da carta de Pero Vaz de Caminha e diga que nesta terra, em se comprando, tudo dá.  

Até poltrona de embaixador.

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