La Manuela coloca uma questão fundamental para a América Latina

Em 2015, Manuela foi presa em Quito ao tentar defender Carlos Pérez que estava sendo espancado e preso pela polícia local durante protestos dos povos indígenas contra o governo de Rafael Correa. Foi expulsa do Equador, voltou para a casa materna no Rio de Janeiro

Recentemente assisti ao documentário La Manuela da cineasta Clara Linhart, em cartaz com o filme Domingo. La Manuela aborda a história da ativista, professora, jornalista Manuela Lavinas Picq, nascida na França, filha de mãe brasileira, exilada pela ditadura civil-militar, e pai francês. Em 2013 casou-se, em uma cerimônia ancestral, com o líder indígena Yaku Pérez Guartambel também conhecido como Carlos Pérez. Em 2015, Manuela foi presa em Quito ao tentar defender Carlos Pérez que estava sendo espancado e preso pela polícia local durante protestos dos povos indígenas contra o governo de Rafael Correa. Foi expulsa do Equador, voltou para a casa materna no Rio de Janeiro. Alguns meses depois, Carlos veio ao Brasil para dar algumas palestras sobre a situação das primeiras nações do Equador. 

O fio narrativo do documentário é a busca do casal para conseguir um visto equatoriano para que Manuela pudesse voltar ao país e reencontrar seu amor. O filme é excelente! Clara Linhart exibe um controle do tempo e dos silêncios que transmitem toda a angústia da protagonista, deslocada por ter que viver fora do Equador, longe de Carlos Pérez, ao mesmo tempo em que se sente uma cidadã do mundo; se sente uma desterritorializada em busca de uma reterritorialização. Enquanto assistia a este doc, minha cabeça “rodava mais que os casais” (obrigado Aldir Blanc e João Bosco) porque o filme chamou minha atenção para algo que vinha pensando desde a manhã do mesmo dia em que o assisti, logo, antes de assistir à La Manuela. Eu pensava na alternância de poder entre partidos e entre esquerda e direita na América Latina.

A ciência política brasileira sofre grande influência da ciência política dos EUA. Lá tudo é quantificado e matematicizado. O que importa são as variáveis. Estão preocupados com quantificação de dados a tal ponto que um grande amigo meu, cientista político, chega a negar que a ciência política seja uma ciência humana, afirmando que é uma ciência exata. Para os teóricos que seguem esta abordagem, que me parece hegemônica na ciência política estadunidense, a alternância de poder é sempre preferível à manutenção de um mesmo grupo ou partido ou tendência política no poder. Será?

Esta afirmação pode ser verdadeira em determinadas conjunturas políticas, mas não em outras. Na realidade dos EUA, onde existe um sistema bipartidário no qual as eleições são disputadas entre democratas e republicanos, a alternância de poder é saudável... para os estadunidenses. Para eles, a eleição dos democratas pode significar mais direitos sociais e menos mercado, embora a variação seja pequena porque quem dá as cartas mesmo é o deep state. E é por isto que para nós latino-americanos, habitantes do eterno quintal onde o deep state realiza seus jogos, não faz muita diferença quem esteja no poder se democratas ou republicanos. Só como exemplo, os dois últimos golpes de Estado dados no Brasil, o de 1964 e o atual, foram chancelados por dois dos governos mais bem avaliados pelos estadunidenses o de John Kennedy e o de Barak Obama, ambos democratas.

Na Inglaterra onde prevalece um bipartidarismo de fato, na França e em democracias consolidadas a alternância de poder não coloca em risco a democracia burguesa nem a soberania do país, mas e na América Latina? 

Desde a subida ao poder de Hugo Chaves países latino-americanos têm suas frágeis democracias convulsionadas pela oposição oligárquica, visceralmente antidemocrática, entreguista, traidora do povo e subalterna aos interesses neoimperialistas. Na América Latina, os interesses do povo só são assegurados com a eleição e manutenção de presidentes populares de centro-esquerda. Contudo, as alianças que os sustentam não são estáveis. Ato comum àqueles governos de centro-esquerda que subiram ao poder pelo voto popular desde os anos 2000 é alteração da lei eleitoral permitindo reeleição sem limites ou várias reeleições. Assim foi feito na Venezuela, na Bolívia e tentou-se fazer no Equador. Nos países em que esta alteração legal foi realizada, governos populares mantêm-se no poder, apesar de toda campanha pesada contra eles idealizada pelo Departamento de Estado dos EUA e executada pelas subalternas, entreguistas, traidoras do povo e antipopulares classes dominantes latino-americanas. 

Nos países onde houve alternância de poder, como na Argentina, ou onde o presidente conseguiu eleger seu sucessor sustentado por alianças com centristas, como no Equador, o que se assistiu foi a ascensão ao poder de governos subalternos ao imperialismo. No Brasil, a oposição subalterna, traidora do povo chegou ao poder por meio de um golpe de Estado e manteve-se nele por meio de eleições fraudulentas que só não foram anuladas e reconvocadas porque a esquerda e os nacionalistas não conseguem agir em conjunto, colocando seus objetivos eleitorais acima dos objetivos do povo. O povo na Argentina, na Venezuela, no Equador e no Chile já percebeu o tamanho do equívoco que cometeu e tenta retomar as rédeas do poder. No Brasil, o povo já começa demonstrar inquietação frente ao que está ocorrendo com o país.

Assim, voltamos à questão inicial: a alternância de poder seria benéfica para os países da América Latina? A resposta parece ser não. A conjuntura tem demonstrado que a melhor opção ainda é a permanência no poder dos segmentos de centro-esquerda, sustentado pelo desenvolvimento da soberania popular.

Voltando ao filme, Carlos e Manuela denunciavam o governo Rafael Correa por permitir extração de minérios em terras indígenas e por outras medidas que prejudicavam os povos originários. Criticaram a eleição de Lenin Moreno. O desenrolar dos fatos mostrou que ruim com Correa, pior sem ele. E aqui surge outra contradição: por que os governos de centro-esquerda procuram assemelhar-se ao máximo com governos liberais? Por que não aprofundam as contradições e não se tornam governos realmente populares? Por que, ao assumirem o poder, buscam costurar acordos e alianças com aqueles cujo único interesse é derrubá-los do poder?

La Manuela é um filme que motiva muitas questões. É uma obra sutil que expõe a maturidade alcançada por sua diretora. Vale muito conferir!

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