“Lá vem o Brasil descendo a ladeira”

Passadas décadas do meu primeiro encontro com o compositor, hoje, vivendo uma pandemia mundial, num país amordaçado pela ignorância e pelo mais execrável presidente que já passou pelo Planalto, impossível não lembrar de outro verso de Moraes Moreira, “lá vem o Brasil, descendo a ladeira”



Enclausurada entre pilhas de trabalho cerebrais e braçais – resolvi pintar o meu apartamento – falta de concentração devido à ansiedade do momento, inquietude mental e poucos momentos zen; contrariando tudo o que achava que poderia por em prática nesse isolamento social, há mais de uma semana, o país recebeu a triste notícia da partida de Moraes Moreira para o firmamento. Que golpe na minha alegria já tão resiliente! Fecho os olhos lacrimosos e ouço o baiano cabeludo em pensamento: “Escute essa canção que é pra tocar no rádio No rádio do seu coração”

Assim, passado o impacto da notícia nesse momento tão sensível a todos, recordo-me o momento em que o artista cruzou o meu caminho. Foi com o Moraes Moreira que aprendi a gostar de carnaval, antes dele não acreditava na possibilidade de músicas para essa festa com tanta poesia e nem admitia que, um dia, fosse correr atrás de um trio elétrico. O compositor Antônio Pires, no palco Moraes Moreira, mostrou-me que chão, suor e poesia são metáforas do mesmo verso do viver: “Pombo correio, voa depressa; E esta carta leva Para o meu amor; Leva no bico que eu aqui fico esperando; Pela resposta que é pra saber Se ela ainda Gosta de mim...”

Antes de me julgar, caro leitor, confesso que nunca fui de carnaval. E esse distanciamento me deixou desatenta aos grandes compositores do gênero. Quando criança, na época momina, gostava de me fantasiar. Fui cigana, havaiana, Jeannie é um Gênio, pirata, odalisca, baiana e tantas outras que nem lembro. Meus pais confeccionavam os nossos adereços, meu e dos meus irmãos e nos levavam às matinês dos bailes infantis. Eu ficava sentada, observando todo mundo brincar. Meus genitores decepcionados com a minha falta de ânimo, se entreolhavam e diziam: Vai menina! Vai pular! E lá ia eu: “É o frevo, é o trio, é o povo; é o povo, é o frevo, é o trio; sempre junto fazendo o mais novo carnaval do Brasil”.

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Após a descoberta do carnaval com o sotaque baiano, vasculhei a sua carreira e vi que seu ritmo, sua simpatia e sua voz já faziam parte da minha vida, desde muito pequenina, com os Novos Baianos. Lembrei-me do meu pai, com graça, que por vezes cantava para nos insultar: “Besta é tu, besta é tu, besta é tu, besta é tu”, e minha tia materna ao me ensinar os primeiros acordes de violão “Preta, preta, pretinha”. 

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Na adolescência, aquele momento epifânico do desabrochar, cujas descobertas batem na porta insistentemente nos chamando para a vida; o músico de cachos fartos consolidou sua presença no meu caminhar, quando junto ao meu conterrâneo Fausto Nilo, me fez sentir uma das três meninas do Brasil : Três meninas do Brasil, três corações democratas, Tem moderna arquitetura ou simpatia mulata”

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Passadas décadas do meu primeiro encontro com o compositor, hoje, vivendo uma pandemia mundial, num país amordaçado pela ignorância e pelo mais execrável presidente que já passou pelo Planalto, impossível não lembrar de outro verso de Moraes Moreira, “lá vem o Brasil, descendo a ladeira”, mesmo que sua intencionalidade tenha sido homenagear o charme e a alegria da mulher brasileira que descia o morro para mais um dia de trabalho.

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