Laurentino Gomes abandonou Gilberto Freyre, ainda bem

Gilberto Freyre enxergou um glamour de romance juvenil na escravidão brasileira. Laurentino Gomes percebeu a tempo que, na verdade, o glamour nunca existiu e os negros ainda lutam para não serem tratados como sub-humanos

Jornalista Laurentino Gomes no Roda Viva
Jornalista Laurentino Gomes no Roda Viva (Foto: Reprodução)
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Dá certo alívio saber que temos no Brasil pessoas como Laurentino Gomes, que foi entrevistado no Roda Vida da segunda-feira 19. Sim, porque se trata de um escritor, e jornalista, que tem a humildade de não se dizer historiador, mas demonstra enorme capacidade de elucidar a História do Brasil. Lucidez e simplicidade marcam seus escritos e suas falas.

“Eu faço livros-reportagem. São livros de não-ficção, eu não invento diálogos ou cenários. Tudo que eu escrevo nos meus livros é baseado em fontes, e geralmente fontes credenciadas pela academia, mas, na hora de escrever, eu uso uma linguagem literária e jornalística. São instrumentos que a comunicação desenvolveu para atrair e reter a atenção do leitor”, disse Laurentino a este jornalista em 2013.

Registre-se que, talvez ao pesquisar para sua coleção “Escravidão”, Laurentino mudou um pouco de opinião. Em 2013, ele parecia nutrir simpatia pelo “charme” da escravidão descrito em “Casa Grande & Senzala”, e assim falou a este repórter: “O livro de Gilberto Freyre mostra uma composição da sociedade brasileira pela sua variedade, pela sua riqueza cultural, pela contribuição africana, pela convivência entre o senhor branco e os seus escravos, que é maravilhosa. Ele quebra os muros entre a Casa Grande e a senzala”.

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Hoje, Laurentino Gomes demonstra ter a exata noção de como e por quais razões chegamos a 2021 como um país preconceituoso e desigual – um país racista. Ele também desnuda em sua nova obra toda a crueldade com que os senhores tratavam seus cativos no Brasil. Não se pode pensar dessa forma e exaltar Gilberto Freyre. Hoje, Laurentino bate duro no nosso racismo estrutural e nos seus perpetuadores. 

Por Laurentino, o atual, fica-se sabendo que os negros que aqui chegavam em navios negreiros, provenientes de diferentes localidades da África, não eram mera força física a serviço de fazendeiros. Muitos tinham expertise em mineração, por exemplo, e foram os verdadeiros responsáveis técnicos pelo ciclo do ouro, não os bandeirantes.

Assim como sabe o leitor do Brasil 247, sabe o Laurentino atual que o negro brasileiro ainda não se livrou das correias. Como diz o velho samba da Mangueira, “pergunte ao Criador quem pintou esta aquarela, livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”. 

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O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública “A Violência contra Negros e Negras no Brasil” informa que de cada 100 pessoas assassinadas no país 75 são negras, e que os homicídios de negros cresceram 33,1% de 2007 a 2017, enquanto os de não-negros aumentaram 3,3%. Além disso, 66% das mulheres vítimas de homicídio em 2017 eram negras. E, entre 2017 e 2018, 75,4% das pessoas mortas em intervenções policiais entre 2017 e 2018 eram negras.

A violência decorrente do racismo estrutural e da profunda desigualdade social não se concretiza apenas em homicídios e outros tipos de agressões físicas. A pandemia do novo coronavírus também alveja com mais força a população negra. Já se sabe que as pessoas negras morreram e morrem muito mais de Covid-19, não por fatores biológicos, mas por sua condição de vida, pois boa parte delas vive em locais insalubres, onde é impossível manter distanciamento umas das outras.

Outra prova de que a escravidão não acabou quando da promulgação da Lei Áurea é que negros e negras só foram admitidos na educação formal na década de 1940, fator gerador de um déficit educacional que por si só já deveria justificar cotas escolares e universitárias. 

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Somos um país racista, em que elites fazem o que podem para manter negros e negras fora das esferas decisórias, quando não fora das esferas civilizadas. Gilberto Freyre enxergou um glamour de romance juvenil na escravidão brasileira. Laurentino Gomes percebeu a tempo que, na verdade, o glamour nunca existiu e os negros ainda lutam para não serem tratados como sub-humanos.

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