Lições de luta de Fortaleza

De tudo que havia visto em Fortaleza só me levava a uma conclusão: os sindicatos muito teriam de aprender com a militância política das entidades de classe do Ceará. Os nossos sindicatos precisam deixar de ser atuantes apenas na campanha salarial e aprender a ter uma comunicação formadora de quadros e de cidadania, tão necessária nestes dias de golpe

Na semana que passou, fui a Fortaleza lançar o romance “A mais longa duração da juventude”. Ali, com o apoio de Paulo Verlaine, Associação Cearense de Imprensa e Associação 64/68 Anistia, recebi luzes além do sol.

Lições, melhor dizendo, que servem a mim e ao conjunto dos trabalhadores brasileiros, nestas horas de tanta angústia. Vocês notarão, recebi lições dadas assim como se pronunciadas sem mestre, dadas pelo fecundo exemplo sem qualquer retórica ou pose. Lições como se fossem plantas naturais que brotassem sem cultivo. Como se aparecessem na terra à toa e ao acaso. Mas sabemos que não, a resistência não cresce feito batata mandada plantar por Deus.

A primeira delas me foi revelada pelo casal Marina Valente e Esdras Gomes. Ela, jornalista e militante feminista, ele, jornalista, marido de Marina e filósofo para todos. Marina é sangue quente, Esdras é sangue frio. Ele sempre inclui em suas falas uma reflexão que desconcerta ao modo de Caetano Veloso, e pergunta de passagem “Ham?”. Mas a revelação não veio deles, veio como ouro do lugar para onde me levaram. Imagine o leitor que fui a um prédio de maduros trabalhadores onde as paredes têm grafite de artistas de esquerda e palavras de ordem socialista. Ham? Estamos na Fetrace, que vem a ser a Federação dos Trabalhadores, Empregados e Empregadas no Comércio e Serviços do Estado do Ceará. Subimos as escadas.

Lá, como algo natural, do cotidiano, Marina me levou a uma sala limpa, luminosa, com câmeras, microfones, isolamento acústico, mesa, computador, numa palavra, uma sala de tecnologia e beleza. Como um menino diante de um tesouro, perguntei:

- Esta sala é...?

- O estúdio da nossa Rádio Classista. Aqui fazemos a Conexão Feminina.

Então eu não me contive, e exclamei admirado e tonto:

- Em Pernambuco, nenhum sindicato tem isso não! Que coisa bonita.

A vontade que eu tinha era de me sentar e começar a gravar programas de literatura no rádio, música popular brasileira, crônicas, confissões, poemas, João Cabral, Manuel Bandeira, Neruda, Mário Bendetti, declarações de toda sorte e gênero para os trabalhadores. Sabem aquela casa, aquele quarto, aquele paraíso que dá gosto de trabalhar? Assim é o estúdio da Rádio Classista do Ceará. Rádio de propriedade da Fetrace. Que consciência nova pode surgir das suas transmissões? Ham? Eu estava encantado, e me dizia, “a viagem para lançar ‘A mais longa duração da juventude’ já está valendo”.

Então fomos ver o presidente da Fetrace, o tranquilo Elizeu Rodrigues. Ele, baixinho, atendia um dirigente sindical do sul de quase 2 metros de altura. Mas o grande era Elizeu, com a sua experiência e cultura política. Ao me sentar em sua frente, eu lhe disse:

- Em Pernambuco não tem um só sindicato com uma rádio própria como a de vocês.

E aqui pra nós, recifense doente que sou, imaginei que falava demais, como se estivesse traindo os conterrâneos, falando mal do Recife em outra terra. Os pernambucanos somos assim: quando reconhecemos o valor de outros lugares, até parece que estamos injuriando a nossa terra. Mas aí, o imperturbável Elizeu, sem levantar a voz foi mais preciso:

- Em nenhum sindicato brasileiro tem uma rádio como a nossa.

Ah, bom, se é assim, estamos bem acompanhados, não é? No entanto, a vanguarda da emissora da Fetrace não é só tecnológica. È da grade da programação. Vem do conteúdo político e cultural que passa no rádio, de conscientização de direitos, de alerta dos golpes contra o trabalhador e cursos de formação. A Rádio Classita possui vários programas, uma vez por semana, como o Viva com Roberto Gomes, o Gazeta Classista, o Tá na Área, o Fala Negrada, Conexão Feminina e outras retransmissões como o Democracia no Ar. Então Elizeu bem completou:

- Não basta ser contra esse governo. Tem que ter conteúdo.

Como era bom, se a esquerda em geral e os sindicatos em particular te ouvissem, Elizeu. Já antes, pela manhã, Marina Valente e Esdras Gomes, ela como apresentadora e ele como produtor do programa Democracia no Ar, me conduziram numa entrevista, ao lado do padre Ermanno Allegri. O programa é da Rádio Atitude Popular, na web, e do movimento democracia participativa. Foi ótima a intervenção no ar, pelo pensamento político, liberdade e competência jornalística. E se pensam que exagero, copio o que falou o sociólogo Hugo Cortez lá no Face da transmissão:

“Emissora de rádio muito boa, esta! No Recife não temos uma assim”.

A entrevista está aqui https://www.facebook.com/frederico.jimeralto/posts/2461636067394776?pnref=story

Então chegou o lançamento do livro, o motivo da minha viagem a Fortaleza. No sábado 20 de janeiro, entrei no auditório da ACI - Associação Cearense de Imprensa. Confesso, pelo que conheço da AIP, Associação da Imprensa de Pernambuco, confesso que subi no elevador da ACI meio desconfiado. O que viria dali? Encontro social, no sentido do sorriso da sociedade, votos de felicitações ou votos de sentido pesar pela obra? Ó homem de pouca fé, tome tento. Lá, primeiro, encontrei, ou melhor, reencontrei amigos que conhecia pela primeira vez. E no entanto, parecia que há muito eu os conhecia. Pelos cabelos brancos, pela convicção política, pela esperança que não morre, pela graça e revolta, eu os conhecia há muito, desde o Recife, desde os militantes pernambucanos, desde os militantes de todo o Brasil, porque eles são universais. A esta altura, apareceu o padre Ermanno que desejava ter o seu livro antes do lançamento, porque teria que visitar uma amiga em séria doença. Ao que eu lhe disse:

- Padre, eu queria ser cínico hoje, pra me defender, pra não me emocionar com esses companheiros.

E ficamos nos sorrindo como dois cabras bestas, bestas que nem aruá. Bebi água, que ajuda muito a ser menos emotivo. Mas quando vou me recuperando, chega Salomão de Castro, o presidente da ACI. Sem ele, não haveria aquela honra de lançar o meu romance numa Associação de Imprensa. Em vez de eu lhe agradecer, recebi dele agradecimento por lançar “A mais longa duração da juventude” na Associação onde é o presidente. E não era gentileza, frase de manual de boas maneiras. Não. Paulo Verlaine já me havia dito que Salomão de Castro enfrenta a velharia reacionária, que é um jornalista moderado mas decidido, de caráter. Bom caráter, acrescento, que é um sinônimo de coragem hoje no Brasil. E assim foi: na mesa, ao destacar o livro, chamou atenção para a história vivida, para o novo tempo que exige de todos coleguinhas de imprensa a defesa das conquistas e o respeito à democracia. A fala de Salomão de Castro comunicou o discurso mais moderno para a imprensa livre, que deveria ser um norte, mas por enquanto é só nordeste em Fortaleza.

Na mesa estavam o professor de literatura Kelsen Bravos, o poeta e dramaturgo José Mapurunga, o clássico do jornalismo cearense Paulo Verlaine, e o ilustre presidente da ACI Salomão de Castro. Na condução, a jornalista Marina Valente. Então o microfone ficou livre para as falas do público. Muitos depoimentos houve cortados pelo nó na garganta, quando se recordavam os malditos tempos da ditadura e as sequelas da tortura. E mais ainda quando chamavam à vida pessoas queridas que partiram sem morrer na memória.

E chegamos ao momento que a boa crônica social chama de saia justa. Mais precisamente à “revolução das saias”, episódio da história de rebeldia das estudantes em Fortaleza. Subiu ao púlpito o bravo Honório, presidente da Associação 64/68 Anistia, que chamou para si a denúncia com provas do papel de Adísia Sá, que foi diretora da escola onde a líder estudantil Mirtes Semeraro havia estudado. Adísia chamou a repressão contra o movimento. Entendam a saia justa. Ali, no microfone, Honório denunciava Adísia Sá, ex-presidenta da ACI. Liberdade boa é a que não respeita conveniência.

Ao chegar a minha vez, na fala eu lembrei do comentário do militante socialista Urico Gadelha, médico, psiquiatra, presente no auditório, que reclamou do livro “1968: o Ano Que não Terminou”. O justo homem me observara antes:

- Zuenir Ventura cometeu uma infâmia nesse livro. Nas suas páginas, ele acha que 68 só houve no Rio de Janeiro.

Repeti seu comentário e me ocorreu uma luz. De tudo que havia visto em Fortaleza só me levava a uma conclusão: a minha terra, o meu amado Pernambuco, muito teria de aprender com a militância política dos sindicatos e entidades de classe do Ceará. Não sei, a esta altura, se meus anfitriões foram muito seletivos em me mostrar a melhor parte da cidade. Não sei. Mas se a experiência da Fetrace for seguida, se a abertura democrática da ACI fizer moda, os nossos sindicatos deixarão de ser atuantes apenas na campanha salarial. Aprenderão a ter uma comunicação formadora de quadros e de cidadania, tão necessária nestes dias de golpe.

Por último e por fim, não posso deixar sem registro: o maior cartão de visitas de toda e qualquer cidade é o seu povo. Aqueles que a classe média não vê, as faxineiras, os garçons, atendentes de balcão, os operários, a vontade que deixam na gente é de abraçá-los. Não sei se nestes dias ando muito emotivo. Pode ser. Mas não posso esquecer que no táxi de volta ao aeroporto, houve o motorista Ramon Pinheiro. Ele me assegurou que vai estudar e entrar na universidade, porque as minhas palavras de “estude, estude, não desista”, lhe haviam dado estímulo na altura dos seus 54 anos. Então, oxe, eu num tô dizendo, aqui vai um abraço pra Ramon do povo do Brasil.

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