Lições do vírus

"Podemos melhorar o mundo sem o vírus mas, infelizmente, ele está aí. Não custa nada tirar proveitos dessa tragédia em benefício pessoal e universal", escreve o colunista Miguel Paiva, do Jornalistas pela Democracia

Charge "Ser ou Não Ser?"
Charge "Ser ou Não Ser?" (Foto: Miguel Paiva)

Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia 

Claro que jamais desejaríamos o coronavírus, mesmo para qualquer consequência positiva. Podemos melhorar o mundo sem o vírus mas, infelizmente, ele está aí. Não custa nada tirar proveitos dessa tragédia em benefício pessoal e universal. Pessoalmente diria que o corona pode ter vindo, entre outras coisas, para acabar com o neoliberalismo. Já seria um bem danado. Os neoliberais que sempre pregaram o estado mínimo, com o vírus aí não conseguem pregar um prego sem a presença do Estado. 

Um vírus, assim como uma guerra nos termos tradicionais, estabelece novos equilíbrios nas relações entre as pessoas e os países. Não desejamos guerras nem pandemias mas é difícil estabelecer um roteiro prévio para os caminhos da humanidade. O homem é imprevisível e capaz de coisas inimagináveis.

Recentemente descobriram que sem o movimento habitual Veneza pode ver novamente o fundo, ou quase, dos seus canais. A água, renovada pelo mar, foi ficando limpa e transparente, uma prova que as pessoas, suas lanchas, suas indústrias e seus combustíveis transformaram os canais de Veneza em caminhos de água suja que quando sobe cobre as ruas da cidade. Uma boa lição para o futuro.

Na China, imagens de satélites mostram como a poluição diminuiu na região onde o vírus nasceu. O isolamento e a quarentena acabaram freando o processo irracional e assassino, a longo prazo, da poluição do ar por conta do desenvolvimento a qualquer custo. Ar puro é um bem valiosíssimo. Devia ser mais valorizado e distribuído de graça. Seria outra boa lição. A China, que está controlando a pandemia, precisa resolver também essa questão.

Está na hora do mundo repensar seus hábitos, pecados e virtudes. Como passamos pouco tempo aqui no planeta, as pessoas não se incomodam tanto com o que estão deixando para o futuro a não ser a herança econômica, propriedades e dinheiro. Oitenta ou noventa anos de vida é muito pouco para que possamos avaliar, sem uma noção abstrata de legado, o quanto podemos contribuir para o futuro.

Vocês perceberam que paramos de falar em guerras, em política externa até em eleições? O vírus é maior do que tudo isso. Assusta porque não temos controle imediato sobre ele. Assusta porque mata sem distinção Poderia ser menos abrangente se patrões entendessem a gravidade e liberassem seus empregados de obrigações arriscadas tais como pegar condução ou se expor aos outros para continuar trabalhando. O vírus chegou ao Brasil, de fato, através de pessoas capazes de viajar ao exterior, mas a irresponsabilidade dessas pessoas obrigando seus empregados a um contato acabou por disseminar para outras classes sociais, as menos favorecidas. 

Se não houver essa consciência e esse controle vai ser uma tragédia sem precedentes. O governo precisa urgentemente proteger a população do trabalho informal, tão estimulada pelo neoliberalismo, para que não haja um genocídio a partir da pandemia. 

Entendam que o Estado é o esteio, a base de uma nação. Um país não é uma empresa em que basta uma diretoria formada em Harvard para funcionar direito. Lidamos com pessoas sujeitas à todas as influências e condições que normalmente não são estabelecidas por elas. Além da ignorância, a população está perdida em relação ao futuro. Posso tomar decisões em relação à minha saúde? Tenho autonomia para decidir não ir trabalhar sem as mínimas condições de segurança? A pandemia é um problema só meu ou de todos?

Espera-se que as lições dos canais de Veneza e da poluição da China sirvam também para que as pessoas repensem seus hábitos, seus conceitos, seus mandamentos. Nosso tempo aqui na Terra é curto. Não temos o que fazer quanto a isso mas podemos fazer com que esse tempo seja o melhor possível. Aí sim, depende de nós.

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