Lobo

Estava decidido. Comprou uma pistola e um fuzil com mira telescópica e visão noturna. Escolheu na internet e encomendou. O Mito não decepcionou. Cumpre o que promete. A munição comprará de um caminhoneiro da academia que tem o corpo perfeito e vai sempre ao Paraguai

Lobo
Lobo (Foto: Sputnik / Ramil Sitdikov)

Onanista, e daí? O que é que tem de mais. Todos têm suas necessidades e suas maneiras de satisfazê-las. Mulher é diferente. Nem pensa nessas coisas. Faço sexo com a pessoa a quem mais amo e sem me sujar.

Tivera sorte. A mãe, procuradora aposentada, nunca foi dada a excessos. Ficara viúva muito jovem, quando ele ainda não tinha entrado na escola. Do pai só conhecia umas poucas histórias e a imagem, janota, em amareladas fotografias. Parece que era boa-praça. Assassinado com a amante pelo inconformado marido comunista que surpeendeu-os em adultério. Levado ao desatino momentâneo por violenta emoção, disseram os juízes que o inocentaram no tribunal. Juiz bom é juiz morto, convenceu-se. Previdente, a mãe fez depositar todas as pensões do finado procurador do Estado em uma caderneta de poupança para o filho. Pecúlio e renda vitalícia, mais tarde migrados para um fundo de pensão, garantiram-lhe desde os dezoito o direito a não trabalhar. Feminista, a mãe, que não admitira ser sustentada em vida, tinha profissão, recusara-se a receber para si a pensão do infiel. Que ficasse com o filho, que era a cara dele, genioso igual.

Não tinha namorada, não queria ser como o pai. Nunca se interessou. Não precisava. Masturbava-se várias vezes ao dia, com apuradas técnicas aprendidas com o padre. Aos quinze, durante a confissão, admitiu o pecado. Duas ave-marias, um pai-nosso e um convite à sacristia. O pároco lhe ensinou o que precisava saber e a técnica da mão esquerda que passa a impressão de tocada por outra pessoa. Aulas práticas foram essenciais ao seu celibato. O padre era um santo homem. Pena ter sido transferido logo depois.

Cinco vestibulares na Federal. Fracassou. A mãe, filho meu não estuda em faculdade privada. Decidiu que não dava para aquilo. E não precisava, renda assegurada. Vespertino, acordava na hora do almoço, servido à francesa, por sua babá. Está velha, um dia terá problemas, antevia. A mãe, antes, sempre ausente, no trabalho. Agora já não, aposentada, foi morar na chácara com uma amiga, o apartamento só para ele. E para a babá, que desaparece depois de lavar a louça do almoço, arrumar seu quarto, novelas, coisa e tal, e programas evangélicos. Já ameaçou-a, se virar crente irá para o olho da rua. Não tem pregação religiosa católica nos canais abertos de televisão e deus é um só, justificou-se. Esse papa comunista nem pra isso serve.

Depois da segunda do dia e das rezas vespertinas sempre vai para a academia, treino de três horas. Peito de frango e batata-doce na metade, levados na lancheira trazida de casa, no tapeuer. Ao sair, com amigos, vai pelas ruas do centro botando terror nos travecos, nos vagabundos que se acham no direito de morar nas ruas.

Não é da madrugada, coisa de viciados e libertinos, deus tenha piedade de suas almas pecadoras. Antes das onze sempre está em casa, copo de ueiprotem, barrinha de cereal, e uma com a esquerda para relaxar, antes da maratona de seus filmes educativos. Conhece todos os diretores, atores, adora, cinéfilo da sacanagem pesada, e de Game of Thrones, a melhor série já concebida, embora meio confusa. No quadro negro do quarto, um anagrama com os nomes dos personagens. Sonha ter um dragão. Claro que existiram. São Jorge matou um. O viadinho de bermuda rosa e camiseta justinha, herege, ficou sem os dois dentes da frente quando fez graça no vestiário da academia anterior, mais perto de casa, dizendo ser mais fácil acreditar na existência de dragões do que em São Jorge e em Deus.

Nos treinos diários os amigos são funcionários públicos ou dondocas. Nenhum fez Federal, antro de perdição, maconheiros, sodomitas, perdidos em bacanais. São pessoas de bem, estudaram em faculdades decentes, privadas. A maioria tem que trabalhar. Ele não. Nunca mais usará essa expressão, credo, coisa de comunista. Sinal da cruz.

Estava decidido. Comprou uma pistola e um fuzil com mira telescópica e visão noturna. Escolheu na internet e encomendou. O Mito não decepcionou. Cumpre o que promete. A munição comprará de um caminhoneiro da academia que tem o corpo perfeito e vai sempre ao Paraguai.

Seria um lobo solitário, exterminador de comunistas. Tinha tudo planejado. Discreto, ninguém saberia. Os esquerdopatas são estúpidos, como disse o olavão. Até perceberem que sou justiceiro em nome do bem, terei acabado com a raça de uns pardeles. Um comuna por dia, nunca dois, o prazer tem que ser desfrutado. O durante é melhor que o clímax. A morte da vítima, como o orgasmo, é o fim do prazer. Percebeu que a ideia de comunistas estrebuchando, sofrendo, produzia nele algo diferente. Ustra vive. Não precisava nem tocar o falo, tiquitito pero cumplidor, como dizia o sacristão preferido do padre, uma leve pressão de dedo no lugar certo e explodia. Um lobo, feroz e solitário como seu prazer potencializado pela perspectiva de impingir sofrimento. Não, não se considera sádico, só um exterminador potencial daqueles que defendem vadios e que precisam das tetas do Estado.

Na semana em que lhe chegaram as suas, grande decepção, devastadora, soube que o governo avaliava cancelar o decreto que liberou as armas no Brasil. Viu no zape do caminhoneiro. Uns frouxos.

As explicações são ridículas. Temem que os assentados, todos comunistas, por serem proprietários rurais depois da reforma agrária do Lula, se armem, e que os sem-terra com caminhões se juntem a eles e formem um exército para invadir as propriedades dos outros. Era só proibir a venda de armas para esquerdistas. Essa gente não pode. São inimigos. Depois, contaram-lhe que o governo foi avisado que o judiciário suspenderá o decreto do direito às armas. Ainda bem que já estou com as minhas. Esses juízes são todos comunistas e tramam um golpe contra a vontade popular, perseguindo a família do nosso resplandecente líder, com mentiras sobre milicianos e sobre rachadinhas nos gabinetes.

Mudou de planos. Começará exterminando juízes. Qualquer um, estadual, federal, municipal, tanto faz, jurou para si. É homem de palavra. Começará amanhã. Bateu a última revendo um clássico de Alexandre Frota, colocou o despertador. Passaria a acordar cedo. Fez a conta. Seis por semana, respeitando o dia do senhor, dará uns trezentos juízes comunistas por ano. Trinta anos de trabalho. Enfim havia encontrado um projeto de vida. Um vingador, um lobo solitário, lonuolfe. Em inglês fica mais bonito. Doze ave-marias e três pai-nossos.

Conheça a TV 247

Mais de Blog

Ao vivo na TV 247 Youtube 247