Lula ao centro. E a esquerda?

Lula não é um político de rupturas, mas de mudanças marcadas pelas tonalidades de continuidade, escreve Aldo Fornazieri

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Lula (Foto: Ricardo Stuckert)


Lula, sabidamente, é um político de centro-esquerda. Exerce um estilo de liderança que se caracteriza pelo compromisso fundamental com os mais pobres e com os trabalhadores, pelo diálogo com os mais diversos setores políticos, sociais e econômicos e pelas tendências conciliadoras que constituem o cerne da dualidade continuidade/mudança da história política do Brasil. Em síntese: Lula não é um político de rupturas, mas de mudanças marcadas pelas tonalidades de continuidade. Ou, como diz André Singer, por um reformismo fraco.

Querer que Lula seja outra coisa nessa altura dos acontecimentos é não compreender o que Lula é em sua história política. É deixar de lado a ação política fundada no princípio da realidade para querer imprimir-lhe o princípio da ilusão. Isto não significa dizer que a candidatura Lula não seja um campo de disputa política e passível de tensões numa ou noutra direção. 

Por exemplo: ao que parece, está dado que Lula já decidiu que o seu vice será Alckmin. Essa decisão, contudo, não implica que as correntes de esquerda do PT não tencionem os rumos da candidatura, seja através de críticas a essa composição, seja através de formulações e exigências programáticas relativas à campanha. 

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Assim como Lula e as correntes moderadas do PT têm suas razões em suas postulações, as correntes de esquerda também as têm. Lula e os moderados olham mais para a conjuntura e para tática que ela comporta. Já as correntes de esquerda miram mais a história pregressa e uma perspectiva mais estratégica. Mas os dois campos petistas parecem superestimar as atuais potencialidades que se configuram no processo eleitoral.

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Isto quer dizer: tanto os moderados quanto a esquerda do PT consideram que o partido vive um momento de excepcional força na conjuntura e que os grupos da direita e a centro-direita estão praticamente derrotados. Os fundamentos dessa convicção estão nas pesquisas de intensão de voto em Lula, que apontam para a possibilidade de vitória no primeiro turno, e na preferência partidária do PT, que atinge 28%.

Para os moderados, então, o que precisa resolver é o seguinte: tentar decidir as eleições no primeiro turno, articular uma aliança que garanta a governabilidade (apoio parlamentar etc.), conferir estabilidade ao futuro governo, derrotar a extrema-direita resgatando a democracia e implementar medidas de reconstrução do Brasil. Para a esquerda petista, se o PT está forte, numa conjuntura assemelhada a 1989, é preciso dar um passo mais ousado, com um claro programa de esquerda e com uma aliança de esquerda. Seria um momento propício para se romper com as históricas transições conciliadoras. 

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A primeira ressalva a ser feita é quanto à força do PT. É preciso distinguir força eleitoral de força social organizada. A força eleitoral não é força de mobilização, de enfrentamento. Desde 2013, as esquerdas em geral vêm perdendo todas as batalhas que demandam mobilização de rua. Então é necessário perceber que há uma disjunção entre força eleitoral e força social organizada, força de mobilização. 

Em segundo lugar é preciso relativizar as pesquisas eleitorais. Haverá uma campanha pela frente, uma disputa acirrada e cruenta. Não está dado que Lula vencerá no primeiro turno. Acrescente-se a isto que o fato de o PT agregar a preferência de 28% não significa que isto se traduzirá em força institucional. Em 2018 o PT tinha 24% das preferências. No entanto, elegeu 10% de deputados federais.   

Na atual conjuntura, mesmo com todas as sandices do governo, as esquerdas e os movimentos sociais não tiveram força de mobilização e de pressão para provocar a abertura de um processo de impeachment de Bolsonaro. Vamos imaginar que Lula seja eleito presidente. Se viesse uma tentativa de golpe contra ele, as esquerdas e os movimentos sociais teriam força de mobilização para barrá-lo?

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Tudo isto somado, o que está posto é o seguinte: Lula tem os votos de esquerda e decidiu compor com setores do centro configurando essa aliança com Alckmin como vice. Para Lula, o problema não é só eleitoral, mas principalmente político. Apesar das refregas retóricas, Lula sabe que terá que governar com a Faria Lima, com o Agronegócio, com a Indústria, com os militares etc. Quer buscar um respaldo político para garantir a governabilidade. Este é o seu jogo e o jogo dos moderados do PT.

Para que o projeto da esquerda do PT fosse mais factível, esses últimos anos deveriam ter sido marcados por intensas mobilizações e por vitórias populares. Isto não ocorreu. Assim, as eleições se deslocaram fundamentalmente para o terreno institucional, para o campo propriamente eleitoral.

Está tudo perdido para a esquerda petista? Se estivesse, ela deveria pensar na dissidência, na saída do PT. Mas, aparentemente, ainda há jogo para essas correntes dentro do PT. É preciso considerar que o PT é um partido de massas, que permite a interação com amplos setores sociais. Em que pese sua burocratização e seu domínio por uma aristocracia de dirigentes e de detentores de mandatos, ainda há espaços de disputa dentro do partido.

A esquerda petista pode continuar tensionando os rumos da aliança eleitoral, mesmo que não colha muitos resultados práticos. Mas deveria investir em outras três frentes: 1) exigir compromissos programáticos democráticos e populares; 2) proporcionar uma campanha de mobilização popular; e, 3) esforçar-se para eleger bancadas mais significativas, fortalecendo-se dentro do partido. 

A tese que vem sendo propalada de “uma aliança de centro e um programa de esquerda” pode ser algo meramente formal. Será preciso aquilatar os compromissos reais, tanto em termos programáticos quanto de composição de forças, que a candidatura Lula comportará. Se a composição real da candidatura, da campanha e do eventual futuro governo forem de centro, o programa implementado será de centro, em que pesem os ardis retóricos e os formalismos. A questão é saber se as correntes de esquerda petistas e outros apoiadores como o PSOL e os movimentos sociais terão capacidade de se articularem e força para arrancar concessões e conquistar posições.

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