Lula e o olhar no amanhã

Somente a liderança de Lula será capaz de conciliar as visões do PT, PSB, PDT, PCdoB, PSOL, além de setores e quadros democráticos de tantos outros partidos, para que a democracia seja restabelecida

Lula 
Lula  (Foto: Pedro Maciel)

O QUE FAZER enquanto os fantoches ocupam ilegitimamente os espaços e estruturas da institucionalidade?  Acredito que a nossa tarefa é denunciar e o nosso momento é de luta, mas é também de reflexão e de lançarmos um olhar no amanhã. 

UMA REFLEXÃO. Certa vez Jacó Bittar me disse: “para ser petista eu não preciso de uma certidão do cartório eleitoral; ser petista é uma maneira de ver o mundo, o PT sempre estará no meu coração”, demorei para entender a profundidade dessa reflexão... 

SOBRE LULA. Bem, Lula foi o metalúrgico que se tornou o maior líder sindical da nossa História, fundou - ao lado de grandes como Jacó Bittar - o Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores, foi deputado constituinte e presidente eleito do Brasil entre 2003 e 2010.

Lula é uma personalidade admirada e respeitada internacionalmente e é reconhecido como um defensor dos direitos dos trabalhadores, da democracia, do desenvolvimento econômico e social no Brasil e dos países pobres em todo o mundo, por isso merece a nossa defesa incondicional.

Mas no Brasil seu prestigio, honra e reputação, que eram quase imaculadas, passaram a sofrer ataques da plutocracia, através de seus lacaios, dos barões da mídia e de um punhado de fanáticos do MPF e da Justiça Federal. Essa ralé decidiu criminalizar a esquerda e seu líder, tudo para trazer de volta uma agenda liberal. O fizeram através de um Golpe de Estado com características muito próprias e contaram ainda com apoio inédito do Poder Legislativo, Poder Judiciário, Ministério Público e do Conselho Federal da OAB. A História se incumbirá de julgar todos esses canalhas.

Os opositores do projeto de desenvolvimento econômico e social do Brasil, de conteúdo verdadeiramente socialdemocrata, tendo como protagonistas os trabalhadores, tornou-se insuportável aos interesses da plutocracia e por isso ela colocou seus lacaios e os barões da mídia para destruir Lula.

Iniciou-se uma das maiores injustiças da História recente do país.

Lula, assim como tudo e todos que ele representa, passou a ser difamado por juízes, promotores e pela mídia, que o incluíram como suspeito em investigações de corrupção.

E os partidos progressistas não foram capazes de dar respostas eficazes ao golpe ou à caçada a Lula, aliás, sem o carisma de Lula não teriam conseguido levar os milhões de brasileiros às ruas. Por isso e muito mais é necessária a criação de um novo ente coletivo de sociedade, um novo partido.

MAS POR QUE UM NOVO PARTIDO se o PT, apesar de implacavelmente difamado, segue sendo um dos principais partidos com representação no Congresso Nacional?

Porque o PT dos nossos corações não existe mais; porque o PT dos anos 1980 e 1990 não existe mais; porque o PT não representa mais os setores progressistas, a classe média urbana ou os trabalhadores.

O PT de hoje – contaminado pela soberba e por um hegemonismo desagregador - não nos serve mais, mas precisamos dos petistas, dos socialdemocratas, dos socialistas, dos comunistas e dos patriotas e democratas juntos num outro partido.

Ressalva necessária: os erros não apagarão jamais a História do PT e sua importância nos últimos 37 anos, mas o verdadeiro PT não existe mais, contudo, os petistas e o petismo seguem vivos, fortes e dispostos a construir democraticamente a mudança.

É chegada a hora de Lula lançar o olhar para o futuro e ajudar os democratas e todos os setores progressistas a dar mais um passo; é chegado o momento de os líderes dos partidos e setores progressistas sentarem no entorno de uma mesa e, a partir da experiência da Frente Brasil Popular, fundar um novo partido.

Somente a liderança de Lula será capaz de conciliar as visões do PT, PSB, PDT, PCdoB, PSOL, além de setores e quadros democráticos de tantos outros partidos, para que a democracia seja restabelecida; creio que somente Lula tem autoridade moral, militância democrática e legitimidade para essa tarefa.

Mas quais seriam características de um novo partido? O país precisa de uma reconciliação que somente os socialdemocratas são capazes de construir e o PT de Lula jamais foi um partido socialista, mas sim um partido socialdemocrata, com pilares de um trabalhismo construído dialeticamente dia-a-dia, nesse sentido o país precisa de um partido que defenda, sem concessões, o Welfare state.

Precisamos de um projeto de organização política e econômica que coloque o Estado como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado seria o agente regulamentador de toda a vida e saúde social, política e econômica do país, em parceria com sindicatos e empresas privadas, ao Estado deve caber zelar pelo bem-estar social, garantir serviços públicos, proteção à população e o desenvolvimento humano e econômico a partir de uma visão ambiental que leve em conta a necessária sustentabilidade dos recursos.

 

MAIS RAZÕES PARA UM NOVO PARTIDO? A atual crise política por mais artificiosa que seja, por mais que tenha sido fomentada por setores da imprensa, por mais que tenha causas que não são verdadeiras, seus efeitos são verdadeiros.

Assim como é decepcionante constatar a incapacidade de diversos atores políticos em desconstruir feudos de malfeitos e pior ainda: vê-los acusados de participação ou omissão em diversos casos. Muitos desses gozaram da confiança de Lula e Dilma.

Também é verdade que com o PT, líder de um governo de coalizão, implementou políticas sociais de reconhecido sucesso, o Estado voltou a investir, multiplicou-se o PIB, foram gerados milhões de empregos, duas dezenas de milhões de brasileiros saíram da miséria, ou seja, ocorreu o que se espera de um governo socialdemocrata inserido num mundo liberal. Há, portanto, legados inegáveis, mas além de não ter feito as reformas, não fez tempestivamente uma autocrítica pública e humilde dos erros cometidos, por isso perdeu-se e perdeu.

Creio que que quadros do PT não souberam usar do poder concedido pelo povo como legitimo e necessário instrumento de mudança e muitos tornaram-se desprezíveis representantes de interesses e vantagens corporativas e, o que é pior, o partido perdeu a conexão orgânica com os movimentos sociais legítimos e com os setores produtivos éticos, daí a importância de um novo partido.

É verdade que em 12 anos o PT fez muita coisa boa, algumas excepcionais, mas não promoveu nenhuma reforma estrutural necessária; nem agrária, nem tributária, nem política e foi excessivamente leniente em muitos campos.

E há uma pergunta fundamental: por que não foram feitas as reformas se Lula chegou a ter mais de 80% de aprovação e folgada maioria no congresso nacional? Porque o PT “perdeu a mão” e perdendo-se tornou-se um partido igual aos que estão aí, e vendeu sua honra em nome da governabilidade.

Ou foi covardia?

Não sei exatamente, mas sei que o PT envelheceu, burocratizou-se e muitos de seus quadros, como afirmou Tarso Genro, ficaram cada vez mais distantes da sociedade, excessivamente ligados ao governo e à implantação das políticas públicas.

Por isso, como me ensinou Jacó Bittar, “para ser petista eu não preciso de uma certidão do cartório eleitoral; ser petista é uma maneira de ver o mundo, o PT sempre estará no meu coração” tomando essa reflexão e a poesia de Gilberto Gil encontremos a orientação quanto ao caminho a seguir:

“...o amor da gente é como um grão,

Uma semente de ilusão,

Tem que morrer pra germinar,

Plantar nalgum lugar,

Ressuscitar no chão, nossa semeadura,

Quem poderá fazer aquele amor morrer,

Nossa caminhadura,

Dura caminhada pela estrada escura.”

 

Pedro Benedito Maciel Neto, 53, advogado, sócio da MACIEL NETO ADVOCACIA, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, ed. Komedi, 2007.

 

 

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