Lula e o racismo

Surgiu uma nova classe média com poder aquisitivo. Essa nova classe média não foi aceita porque era negra e parda. Eram os empregados domésticos, os prestadores de serviços e os seus filhos. Eram os consumidores da periferia, dos morros, das comunidades. A classe média não aceitou dividir o seu status e os mesmos ambientes e serviços com os seus empregados

Lula e o racismo
Lula e o racismo

Lula não deveria ter se entregado. Deveria ter se refugiado e pedido asilo político. Mas preferiu ser um preso político sem chance de defesa. Lula não será candidato e, caso o PT não consiga eleger um cabeça de chapa, as consequências para o Brasil, e para ele, podem ser gravíssimas.

Particularmente, acredito que perderemos, no mínimo, uma década com governos entreguistas de direita, contando com o ilegítimo, e que continuarão a manter Lula preso, como um troféu.

Quando a classe média voltar a passar necessidade votará a pedir socorro a um governo progressista de esquerda. É o ciclo da nossa jabuticaba.

Foi assim no fim da era FHC, o Brasil estava quebrado e a classe média empobrecida. Lula elevou os ganhos de todos, esse foi o "erro". A classe média é egoísta, quer que os benefícios sociais sejam só para ela. As universidades, os shoppings, as viagens de avião para o exterior, tudo deve ser pensado para ela, afinal, foi ela quem elegeu "esse governo do bolsa esmola".​​

O apoio dos brasileiros ao golpe e a disseminação da direita nazifascista no Brasil tem um nexu causal: o racismo.

Surgiu uma nova classe média com poder aquisitivo. Essa nova classe média não foi aceita porque era negra e parda. Eram os empregados domésticos, os prestadores de serviços e os seus filhos. Eram os consumidores da periferia, dos morros, das comunidades. A classe média não aceitou dividir o seu status e os mesmos ambientes e serviços com os seus empregados.

Antes, a classe média branca reinava absoluta nos aeroportos, universidades e shoppings. O Bolsa Família e as cotas em universidades, principalmente, possibilitaram uma inclusão social nunca antes vista na história desse país.

De forma ilustrativa, os rolezinhos nos shoppings (que tiveram início no final de 2013) difundiram o ódio, nas redes sociais, ao PT.

Esse "erro" de Lula foi o seu maior acerto, a 'dimensão mais ampla' que um governo de esquerda pode almejar.

"muitas vezes enfraquecemos nossas próprias posições para combater nosso adversário e, para obter vantagens imediatas, privamos nossa causa de suas dimensões mais amplas e mais válidas. Exclusivamente voltada para a luta, nossa causa pode talvez vencer, mas não pode substituir a que foi vencida." (BENJAMIN, 1985, p. 89).

Lula sabe disso, sabe que está preso por defender uma causa maior, por não se submeter à vantagens imediatas, "não sou pombo-correio pra usar tornozeleira". Lula sabe que se desistisse da candidatura seria solto, o próprio ministro do STF, Gilmar Mendes, teria garantido.

As chantagens, as humilhações, as mentiras estão desgastando seus algozes e o tornando um símbolo de residência. Um ícone da esquerda que a história exaltará como herói.

Infelizmente não será agora, durante essa ascensão nazifascista que o mundo está passando. Lula ainda seguirá sendo a Geni dos 'cidadãos de bem', até que a classe média volte a perder o seu poder aquisitivo, porque é pelo outfit que essa classe se diferencia e se acha melhor. A profundidade é de um pires.

Brizola, quando possibilitou que a periferia tivesse acesso às praias nobres do Rio de Janeiro, também foi odiado e sofreu perseguição midiática.

A classe média branca e sua política de higienização social acabará por nos arrastar ao fundo do poço.

O racismo elegeu Trump

De acordo com a cientista política, Diana Mutz, em artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, uma explicação possível para a vitória de Donald Trump foi "a ameaça ao status do grupo dominante", os brancos da classe média de lá, assim como os do Brasil, acharam que o status social deles estava em risco.

Segundo a cientista: "A dominância numérica declinante dos americanos brancos nos Estados Unidos, juntamente com o crescente status dos afro-americanos e a insegurança americana sobre se os Estados Unidos ainda são a superpotência econômica global dominante" foram o real motivo de Trump e seu discurso segregacionista ter vencido.

"How is it that the same American public that elected an African American to two terms as US President subsequently elected a president known to have publicly made what many consider to be racist and sexist statements?

A possible explanation is dominant group status threat. When members of a dominant group feel threatened, several well-established reactions help these groups regain a sense of dominance and wellbeing. First, perceived threat makes status quo, hierarchical social and political arrangements more attractive (18). Thus, conservatism surges along with a nostalgia for the stable hierarchies of the past. Perceived threat also triggers defense of the dominant ingroup, a greater emphasis on the importance of conformity to group norms, and increased outgroup negativity (19, 20). It is psychologically valuable to see one's self as part of a dominant group; therefore, when group members feel threatened, this prompts defensive reactions. It is precisely this form of group threat that may have motivated Trump supporters (21)." (MUTZ, 2018)

Diana Mutz analisou "precisamente os 10% do eleitorado que votaram em Obama em 2012 e em Trump em 2016. O estudo é particularmente revelador porque Mutz entrevistou as mesmas pessoas nos dois anos eleitorais, a um mês da eleição.".

"E o que ela descobriu? A inversão no apoio político – de Democrata, em 2012, para Republicano, em 2016 – é estatisticamente associada a preocupações dos eleitores com imigração e à posição dos brancos na sociedade, que essa fatia da população julga estar ameaçada. Variáveis econômicas, como desemprego ou estagnação salarial, não explicam o apoio a Trump." (MAIA, 2018).

O nazismo de Hitler foi impulsionado pelo ódio aos judeus, o atual é contra as minorias, mas juntos somos maioria. Mulheres, negros, pobres e homossexuais, uni-vos. Somos vítimas de preconceitos que, no fundo, têm uma mesma raiz: o complexo de superioridade. O homem se acha melhor do que a mulher; o branco se acha melhor do que o negro; o rico se acha melhor do que o pobre e o heterossexual se acha melhor do que o homossexual.

Referências:

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Magia E Técnica, Arte E Política. 3ª edição. Editora brasiliense, 1987.

MUTZ, Diana C. Status threat, not economic hardship, explains the 2016 presidential vote. Disponível em: < http://www.pnas.org/content/early/2018/04/18/1718155115>. Acesso em: 30 jun.2018.

MAIA, Lucas de Abreu. O Racismo como razão de oto. Disponível em: < https://piaui.folha.uol.com.br/o-racismo-como-razao-de-voto/>. Acesso em: 30 jun.2018.

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