Lula em seu discurso: conversa com o povo e programa para a esquerda

O jornalista Luís Costa Pinto analisa o discurso de Lula diante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e aponta: "O sinal que foi dado de cima do palanque do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo foi que o velho caminhoneiro acendeu o farol, trocou o combustível, envenenou a máquina e decidiu descer a ladeira em comboio. Vai ser bonito"

Lula no Sindicato do Metalúrgicos do ABC
Lula no Sindicato do Metalúrgicos do ABC (Foto: Nacho Doce / Reuters)
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Luís Costa Pinto, especial para os Jornalistas pela Democracia - De volta, Lula demonstrou ter esmerilhado a ponta de lança que Deus pôs em sua língua e a vida cuidou de afiar.

Sem deixar de dialogar com a massa; ao contrário, fazendo-se compreender por ela; em pouco mais de dez minutos ele desfraldou os estandartes que devem ser usados no combate à gestão inepta e ausente de Jair Bolsonaro:

1. É “miliciano”, governa para milicianos e com milicianos. Logo, é “bandido”. Como bandido, tem de ser combatido não só pela oposição – mas também pelas instituições.

2. Foi eleito. Portanto, é legítimo – ao contrário do governo Temer, marcado pela ilegitimidade de um impeachment sem crime de responsabilidade. Se ganhou “no voto”, Bolsonaro teria então de ser derrotado “no voto”. Reforça, assim, uma das linhas-mestras da ação política dele mesmo e do PT: jamais escolher a via do confronto com a Constituição, de afronta às regras do jogo.

3. Paulo Guedes, sob as ordens de Bolsonaro, produz o maior aperto contra a economia popular e contra o orçamento familiar da História do Brasil. Logo, eles produzem pobreza e miséria e os governos do PT produziram distribuição de renda e resgate da economia popular.

4. A luta é por fazer cada brasileira, cada brasileiro, poder voltar para casa no fim de semana e chamar a família para comer um churrasco no quintal ou na varanda. Sim, ele falou isso. E por que? Porque aí se produz paz – não a “paz” armada com as pistolas distribuídas pelo bolsonarismo.

5. Por fim, o Chile: muito mais do que a Argentina dos anos 1980, o Brasil de 2020 sentirá a ressaca do Chile desse ano. Não só Lula, mas quem tem juízo e informação sabe disso. Os cínicos, hipócritas, incompetentes do atual governo e do mercado financeiro, seus ventríloquos midiáticos e quem age de má fé finge e foge da comparação. O paradigma foi escancarado na praça do ABC.

Esse foi o coração da fala de Lula. Disse isso depois de agradecer o povo que ali estava, as lideranças sindicais e partidárias que não o abandonaram e antes de anunciar sua paixão. Falou por menos de uma hora, mas tudo o que interessa, todos os recados, todos os venenos sagrados que hão de fazer germinar a ira santa e reavivar a luta política, estão contidos nesse núcleo.

Lula, enfim livre, será novamente o vértice da oposição. Alvo premiado da extrema-direita que usurpou o poder popular pelas mãos da aliança de Moro com os procuradores corruptos de Curitiba, a ala malsinada do Parlamento de Eduardo Cunha e Aécio Neves e a parcela mais abjeta e recalcada do 1% do topo da pirâmide social brasileira, não se pode permitir que caia em novas ciladas armadas pela corja que o quer fora do jogo novamente.

O Brasil terá de mostrar que merece a fortaleza construída por Lula, tijolo a tijolo, a partir dos percalços que foram surgindo no caminho. Não se chegou ao fim da estrada. O sinal que foi dado de cima do palanque do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo foi que o velho caminhoneiro acendeu o farol, trocou o combustível, envenenou a máquina e decidiu descer a ladeira em comboio. Vai ser bonito.

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