Embora se fale muito em carestia, endividamento e violência como causas da baixa conversão dos feitos do governo Lula em aprovação, a insatisfação com o atendimento da Previdência Social e, principalmente, com a demora no exame dos pedidos de aposentadoria, a famosa fila do INSS, também é causa importante da insatisfação coletiva. Lula prometeu zerá-la no atual governo, e seu ministro da Previdência, Wolney Queiroz, promete que isso ocorrerá até setembro. Ontem, ele apresentou, em entrevista coletiva, um conjunto de bons números da Previdência que também ajudarão a blindar o presidente contra ataques nesse tema.
Começando pela fila, na data de ontem ela atingiu o menor patamar nos últimos 21 meses (desde outubro de 2024). De fevereiro para cá, ela caiu 41,4%, recuando de 3,128 milhões para os atuais 1,831 milhões. De janeiro para cá, também caiu em 70% o número de processos não respondidos antes de 45 dias, prazo-base que o ministro espera alcançar até setembro. Eles passaram de 1,882 milhões em janeiro para 555 mil em junho.
Um conjunto de medidas, segundo o ministro, contribuiu para esses avanços, como mutirões internos, pagamento de incentivos aos funcionários e reabertura do atendimento presencial nas agências, somados ao atendimento eletrônico, entre outras, tomadas pela atual presidente do INSS, Cristina Viana Silveira, cuja competência ele destacou mais de uma vez no café-entrevista com um grupo de jornalistas, do qual participei pelo Brasil 247. Só em março foram 1,626 milhões de processos analisados e 890 mil benefícios concedidos.
Mas como zerar a fila se, a cada mês, são apresentados 1,8 milhão de pedidos de aposentadoria ao INSS?
Este é o grande desafio, diz Queiroz. “É preciso compreender o que significa zerar a fila. Com zero processos nunca estaremos. O que pretendo entregar ao presidente, para que ele possa anunciar ao Brasil o cumprimento de sua promessa, é um estoque equivalente aos processos apresentados mensalmente e uma situação em que nenhum pedido de aposentadoria demore mais do que 45 dias para ser analisado e respondido.”
O tempo médio de concessão já foi de 108 dias (2021), caiu para 50 dias em 2025 e para 48 neste ano, até agora. Isso em se tratando de pedidos feitos por contribuintes que cumprem todas as condições para se aposentar. Evidentemente, muitos pedidos são recusados porque as pessoas ainda não possuem todos os requisitos necessários, seja de idade, seja de tempo de contribuição.
Em 2022 foram concedidas 5,2 milhões de aposentadorias e, em 2025, 7,6 milhões. A fila decorre da grande demanda dos anos recentes (13,6 milhões de pedidos só em 2025) e também do encolhimento do quadro funcional em 40%, o que agora está sendo reposto por novo concurso público.
O escândalo do INSS na campanha eleitoral
Outro assunto previdenciário que certamente será explorado na campanha é o escândalo dos descontos ilegais nos vencimentos dos aposentados. O esquema criminoso, iniciado na era Bolsonaro, gerou uma CPMI que tentou responsabilizar o atual governo, embora tenha sido este que o identificou, revelou e começou a investigar. Até agora, nem a CPMI nem a Polícia Federal, que continua investigando o caso, revelaram todos os responsáveis pela montagem do esquema criminoso. “Só se fala num tal ‘careca do INSS’, que nunca foi funcionário ou dirigente do órgão”, reclama o ministro, destacando o ressarcimento dos aposentados por todos os descontos indevidos. “Já pagamos a todos que tinham direito, prolongamos o prazo enquanto houve demanda. O governo pagou R$ 3,242 bilhões a 4,78 milhões de pessoas.”
A oposição bolsonarista, entretanto, vem tentando desgastar o presidente apontando possível envolvimento de seu filho Fábio Luiz no esquema, por conta de sua amizade com uma amiga do Careca do INSS. Até agora, nenhuma prova foi apresentada contra Fábio.
O cobertor mais largo
A Previdência, mais que qualquer programa do governo, é a rede de proteção social mais efetiva e mais ampla do Brasil. Em números de 2024, são 77 milhões de contribuintes e 118 milhões de brasileiros amparados. Em 2025 foram pagos 41,6 milhões de benefícios. Na população idosa (+60), a proteção alcança 82%, e, no campo, é de 90,3%.
Entretanto, o número de contribuintes não tem crescido na proporção adequada à sustentação do sistema. O governo divulga pouco e mal medidas que poderiam estimular a maior filiação ao INSS. Lula, no primeiro governo, criou o regime especial pelo qual os autônomos podem se inscrever pagando apenas 11% (e não 20%) de contribuição sobre o salário mínimo. E, com apenas 80 e poucos reais, um filiado ao MEI ganha proteção previdenciária. Muita gente não sabe disso, reconhece o ministro, que se diz hoje um apaixonado pelo sistema.
“Quando o PDT discutia que ministério gostaria de ocupar, todos na bancada diziam para evitarmos a Previdência. Eu acabei assumindo no meio da crise dos descontos ilegais e não pude sequer fazer uma solenidade de posse. Hoje sou apaixonado pelo trabalho que estamos fazendo e, por isso, deixei de concorrer à reeleição como deputado federal para continuar na pasta, fazendo as entregas que o presidente me pediu e fazendo uma gestão que dispense novas reformas que sacrifiquem os contribuintes, ou até mesmo a privatização do sistema, como queria Bolsonaro.”
“E o senhor já tem garantia de permanecer no cargo no novo mandato, se o presidente for reeleito?”, perguntamos nós.
Ele não esconde seu propósito:
“Eu não tratei disso com ele, mas espero me credenciar, com meu trabalho, a colaborar com ele em qualquer posição.”
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