Mandetta permanece no cargo mas não sabemos qual é o plano dos generais

"Cabe ao país ficar atento e denunciar todo movimento numa direção estranha ao regime democrático, que seria um passo inaceitável num país que tem uma história de empenho e sacrifício para preservar a liberdade e seus direitos", escreve o jornalista Paulo Moreira Leite

(Foto: Fotos: PR)
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Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia

Considerando a sabotagem permanente de Bolsonaro & Cia à luta contra o covid-19, é compreensível  que a permanência de Mandetta no Ministério da Saúde tenha produzido um alívio  relativo na situação política.

Ainda assim, a evolução de uma situação carregada  de  imensas incertezas, provocadas pela incapacidade do próprio ministro impor-se perante um governo sem interesse em defender a saúde da população, obriga novas reflexões sobre a evolução da conjuntura política.

Se Bolsonaro deixa claro, diariamente, que sempre estará em busca de novos caminhos para confundir a população e criar um ambiente de caos, parece claro que o governo assumiu outra configuração política.

A contrapartida à permanência de Mandetta é consolidação de quatro generais -- um deles, o vice presidente Hamilton Mourão, já na reserva -- em posição de força relativa, situação que está longe de assumir um caráter administrativo.  

Quando Braga Netto apresentou-se em Brasília para assumir a Casa Civil, segundo posto na hierarquia do governo, logo abaixo do presidente, era possível reconhecer que ele "poderia ter um lugar próprio Planalto," como escrevi aqui (28/2/2020).

Naquela conjuntura de decomposição política, o general Augusto Heleno,  ministro-chefe do serviço secreto, lançara a idéia do "Foda-se" e a baderna da PM, infiltrada por milicianos-bolsonaristas, tinha ameaçado emparedar o governo Camilo Santana, do Ceará.

Comandante do Estado Maior do Exército, Braga Netto não tinha mãos vazias quando assumiu o novo cargo. Em sua função anterior, como comandante da GLO  no Rio de Janeiro, pode ter acesso aos grandes dossiês  do bolsonarismo -- as rachadinhas familiares,  o assassinato de Marielle Franco, além das milícias de Adriano da Nóbrega, fuzilado uma semana antes numa operação que aguarda esclarecimentos até hoje.  

Mais do que uma opção do próprio interessado, a ida de Braga Netto para a Casa Civil foi  uma decisão do general Edson Pujol, comandante do Exército, que concordou em antecipar em seis meses sua passagem para a reserva. Pouco depois, o próprio Pujol divulgou um vídeo onde definia a luta contra o coronavírus como um compromisso de sua geração de militares. (Graças ao repórter Rubem Valente, da Folha, sabemos ainda que o próprio Centro de Estudos Estratégicos do Exército produziu um alentado documento explicitando uma visão positiva da quarentena como instrumento para enfrentar o covid-19).

Na conjuntura atual, não custa lembrar que a  história da humanidade no final do século XX e início do XXI contém uma lição fundamental. Com frequência que não é preciso recordar aqui, sistemas tutelados pela caserna costumam trilhar um destino comum.

Ao nascer, invariavelmente parecem inspirados pelas melhores intenções e os propósitos mais altruístas.

Com o passar do tempo, contudo,  transformam-se num condomínio fechado, dedicado a satisfazer rivalidades internas e preservar seu próprio poder, transformando-se num indesejado obstáculo à democracia, sem compromissos reais com a soberania popular.

Nesta situação, cabe ao país ficar atento e denunciar todo movimento numa direção estranha ao regime democrático, que seria um passo inaceitável num país que tem uma história de empenho e sacrifício para preservar a liberdade e seus direitos.

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