Mélenchon fará falta no 2o turno

"Mesmo enfrentando uma crise histórica, os dois principais candidatos de esquerda somaram mais votos do que qualquer um dos concorrentes,"escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247"; Maior prejudicado pelo impacto do atentado ocorrido 48 horas ante do pleito, que colocou o debate eleitoral num terreno favorável a fascista Marine Le Pen, nos últimos dias Mélanchon também enfrentou uma campanha na qual era apontado como "radical" e "extremista" da grande mídia, num serviço interesseiro que os brasileiros conhecem muito bem" 

Jean Luc Mélenchon
Jean Luc Mélenchon (Foto: Paulo Moreira Leite)

O  segundo turno das eleições francesas oferece novas perguntas e nenhuma resposta clara numa disputa que terá, sem dúvida, um impacto importante nos destinos da Europa.

Principal prejudicado pelo impacto do atentado ocorrido 48 horas antes do pleito, que interrompeu um movimento de ascensão na reta final, a derrota de Jean-Luc Mélenchon transformou o segundo turno numa disputa distante dos interesses da maioria dos franceses.

Basta recordar que a soma dos votos de Emmanoel Macron e Marine Le Pen ficou em torno de 45% do eleitorado para se ter uma noção do alcance limitado do debate político realizado até aqui. 

A ausência de um candidato com um perfil político de esquerda no segundo turno -- num país onde essa fatia do pensamento político tem  tradição real -- não deve ser interpretada como um fato maior do que é. O PS está no desmanche, sem dúvida. 

Mas é preciso ponderar. Se não há dúvida que François Hollande e o PS enfrentam uma situação de tragédia, com uma herança pesada a ser enfrentada no próximo período, não custa conhecer que a soma dos votos de Mélenchon e do socialista Benoit Hamon mostra que, na ponta do lápis, a votação dos dois alcança um número maior do que qualquer um dos primeiros colocados.

Isso permite supor que, caso o candidato do PS tivesse assumido a responsabilidade política de apoiar o candidato presidencial com maior chance de ir ao segundo turno, Mélenchon teria tido chances maiores de permanecer no jogo, em vez de passar os últimos dias de campanha sendo alvejado pelo fantasma do candidato "radical" e "extremista", num serviço de contrapropaganda interesseira que os brasileiros já viram muitas vezes. Depois disso, o atentado completou o serviço. 

Num país onde o desemprego e o desmanche do Estado de bem-estar social ocupa o centro das atenções da maioria da população, a fascista Marine Le Pen encontrou em Macron um adversário que pode ajudá-la a crescer. Não é a favorita, bem entendido.

Terá seu avanço limitado pelo caráter anti-democrático de seu próprio programa, que tem aliados fiéis e até fanáticos, mas até agora tem sido rejeitado pela maioria dos franceses. Boa parte da elite empresarial está convencida de que, em função de seu reacionarismo extremo, uma eventual vitória de Marine Le Pen poderia abrir um período de permanente instabilidade política e convulsão social. Essa visão obviamente beneficia Macron. Engana-se, contudo, quem imagina que a derrota de Marine Le Pen está assegurada.

Embora tenha pulado do barco a tempo, Macron não só carrega consigo a imensa carga negativa de quem foi um ministro importante no governo de François Holland. Também representa a continuidade -- para pior -- de uma política econômica rejeitada pela maioria dos trabalhadores e pela população pobre do país, os deserdados da globalização e da União Européia. Seu projeto de aproximação com os Estados Unidos, que rompe uma tradição instituída por Charles de Gaulle, também pode diminuir a adesão esperada. Ao definir-se como um social-liberal, recupera uma das doutrinas improvisadas em círculos conservadores quando Margaret Thatcher e Ronald Reagan iniciavam a contra-revolução conservadora que até hoje marca nossa época -- e era preciso acenar com alguma promessa para a pobreza emergente.

Primeira expressão do fenômeno no Brasil, Fernando Collor também se dizia adepto do "social-liberalismo."

Num país onde a desindustrialização e suas consequências nefastas são o assunto em todas as conversas, Macron foi o ministro da Economia que escreveu o capítulo final na venda de 70% do patrimônio da Alstom para a GE norte-americana, numa transação que o jornalista Jean-Michel Quatrepoint define como um "escândalo" que representa o "último ato do desmantelamento da industria francesa."

Com múltiplas variáveis no segundo turno, resta pelo menos uma única certeza daqui para a frente: Jean-Luc Mélenchon fará muita falta ao debate político daqui para a frente. 

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