Meu bom amigo João, uma figura que não é desse mundo

Um artigo de Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, sobre o maestro e pianista João Carlos Martins e sua luva biônica

(Foto: diculgação)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos, e o horizonte corre dez passos. Por mais que caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” 

(Eduardo Galeano, citado por Heraldo Campos nos comentários do meu blog).

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Essa bela definição de Galeano sobre utopia cabe literalmente como uma luva no meu velho amigo João Carlos Martins, o grande pianista que virou maestro e agora voltou e tocar piano, graças a uma luva biônica.

A história completa eu conto neste domingo numa reportagem publicada na página B6 da Folha, junto com um maravilhoso vídeo da TV Folha produzido por Vinicius Martins, e com fotos de Eduardo Knapp.

Faz muitos anos que João e eu ficamos amigos, ao frequentar o mesmo bar, a Tabacaria Ranieri, perto de onde nós moramos.

Ali tem um velho piano, onde ele já deu muitas canjas, mas o melhor de tudo são as histórias que conta sobre as mil peripécias da sua vida.

A presença dele é certeza de que vamos nos divertir com essa figura improvável, que não parece ser desse mundo.

De vez em quando, aparecem fãs para pedir autógrafos ou tirar selfies, pessoas que muitas vezes duvidam ser ele mesmo quem está ali.

“Você é aquele pianista que aparece no Faustão?”, já chegaram a perguntar ao maior intérprete vivo da obra de Bach, que começou a carreira muito cedo como menino prodígio e está prestes a completar 80 anos, um verdadeiro milagre da natureza.

Com seus longos cabelos grisalhos sempre esvoaçantes, várias vezes já foi dado pelos médicos como incapacitado para o piano, após incontáveis acidentes e cirurgias.

Mas João nunca desistiu, repetindo uma frase de seu pai, José da Silva Martins:

“O impossível só existe no dicionário dos tolos”.

Tolo ele certamente não é.

Encantado com a luva biônica que lhe foi dada de presente pelo designer Ubiratã Bizarro Costa, o Bira, feita de forma artesanal com materiais que custaram R$ 500, João foi mostrar o achado aos amigos tocando piano no bar dias antes do Natal.

Parecia menino que ganhou brinquedo novo no Natal, mostrando para todos que agora pode novamente movimentar os dedos nas teclas.

Uma das diversões de João quando não está tocando ou regendo em algum concerto pelo mundo e pelo país afora _ já foram mais de 6 mil apresentações _ é sacanear os amigos.

Eu costumo ser uma das suas vítimas.

Numa viagem de ônibus que fizemos ao Rio junto com a Orquestra Bachiana Filarmônica, que ele criou ao virar maestro por não poder mais mais tocar piano, aproveitei para gravar uma entrevista, publicada há tempos na revista “Brasileiros”, de saudosa memória.

Numa hora em que voltei do banheiro do ônibus, João e Hélio Campos Mello, fotógrafo e dono da revista, estavam mexendo no meu gravador.

“Rapaz, você fez alguma coisa errada porque aqui não tem nada gravado…”

Tomei o maior susto porque não tem nada pior para um repórter do que perder uma gravação ou o bloco de anotações.

Logo o Hélio riu, e os dois se divertiram às minhas custas. Estava tudo gravado.

A noite, na sala em que o maestro iria apresentar um concerto, uma hora ele sumiu.

Fui encontra-lo dormindo num sofá encardido na coxia, com os organizadores preocupados porque estava na hora de começar o concerto.

Tranquilamente, ele se levantou e foi para o palco, como se o dia estivesse amanhecendo.

Fiquei sabendo depois que ele sempre faz isso antes das suas apresentações.

Se ele não existisse, João precisaria ser inventado…

Vida que segue.

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