Meu grupo de Whats do condomínio e o "bandido Lula"

Do homem do prédio do condomínio da Suzane que grita "cala boca, favelado", ao cidadão de bem que torce pela morte de Marisa Letícia, passando pela célebre frase da Danuza Leão, "Que graça tem ir a Paris se seu porteiro também pode?"; nosso passado colonial, patriarcalista e escravista explica o ódio que muitos sentem de Lula

Meu grupo de Whats do condomínio e o "bandido Lula"
Meu grupo de Whats do condomínio e o "bandido Lula" (Foto: Ricardo Stuckert)

"Meu senhor Jesus, é sério que me enfiaram em um grupo de whatsApp?" Lamentava Suzane ao deparar-se com a notificação que estava incluída no "amigos do condômino Solar dos Torres".

Sim, Suzane saborearia desprazeres das correntes de bom dia, dos áudios de seis minutos da senhora que reclama do cachorro do vizinho de porta. Da revista Veja atrasada. Do cheiro de maconha que invade a janela da Maria das Dores. Preguiça.

Suzane mal sabia que isso não era nada perto do que ela enfrentaria, coitada.

A casa vizinha ao lado do prédio dos Torres foi alugada. Lá, foi instalada uma ONG que recebe jovens que cometeram infrações, a intenção é que sejam ressocializados na sociedade. Para morarem no local, eles precisam trabalhar e estarem sob a vigília de profissionais.

Jovens negros, periféricos, que provavelmente não fixariam residência na rua dos Rouxinóis se não fosse pela Ong.

Suzane, toda vez que voltava à noite dos seus afazeres, encontrava esses jovens do lado de fora de casa, sentados na calçada, jogando conversa fora e fumando cigarros. Sim, cigarros de nicotina e não de maconha. Aparentemente estavam alegres por estarem ali, saudáveis. "Muitas vezes falavam alto sim, mas nada que poderia ser contornado com uma conversa", refletiu a moradora.

Então o inferninho começou no grupo do condomínio:

Maria aparecida diz: Vocês estão vendo aqueles delinquentes que ficam gritando na rua de madrugada?

Hélio (o policial Bolsonaro) diz: Sim, com certeza devem usar todos os tipos de drogas, aposto.

Clenilda diz: Gente, nossa rua está virando uma favela com esses garotos aqui.

Hélio diz: Sim! Nossa rua vai ficar desvalorizada, o preço dos imóveis irá cair.

Maria Aparecida diz: Tenho muito medo de sermos assaltados, eles ficam olhando a gente com uma cara ameaçadora.

Murilo diz: É uma tragédia anunciada!

Hélio diz: Sim, com certeza são minitraficantes. Daqui a pouco nossa charmosa rua vira Cracolândia. Foi assim no centro.

Suzane respirou fundo e saiu do grupo. Sentiu um alívio celestial, mas ficou chocada com tanto ódio e preconceito.

O sindico do prédio, um cara bacana, procurou as responsáveis pela Ong para reclamar do barulho. Bastou uma conversa para que os garotos parassem com a algazarra. O Silêncio se fez.

E o Lula com isso?

Pensam que são apenas ricos que não gostam de dividir poltronas de aviões e salas de aula? A classe média, com suas selfies no Starbucks e 12x parcelado na CVC pra Orlando também é assim.

Estão atolados em dívidas, acreditam que o Brasil está um lixo, mas repetem o insuportável. "Mas quem votou na Dilma, votou no Temer né?".

Querem Lula preso de todas as maneiras, porque, assim como disse certa vez Danuza Leão, "Que graça tem ir a Paris se seu porteiro também pode?".

Não consegue pagar a faculdade, pois está atolado em dívidas, provavelmente trancará o curso, mas posta meme do Lula analfabeto no grupo da família. 

Você não está preso pelos seus erros Lula, mas sim pelos seus acertos. E o seu principal acerto foi incomodar essa gente que, assim como dizia Cazuza, "é careta e covarde".

Do homem de bem que no passado tinha o aval da igreja para açoitar seu escravo, ao homem de bem do presente que torce pela morte de Marisa Letícia e grita na janela, "cala boca, favelado", como ocorrido no prédio da Suzane. Nosso passado colonial, patriarcalista e escravista, somada a uma elite sempre atrelada aos interesses internacionais, explica bem o tamanho do ódio que muitos sentem contra Lula. 

Existem feridas profundas no Brasil e o homem que pegou um curativo e merthiolate para sanar essa dor está hoje na cadeia. Assim como bem lembrou Aloizio Mercadante, "Tiradentes, Mandela e Getúlio também foram vítimas do seu tempo". 

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