Minha resposta para J.

“Porque este debate não foi feito antes, se é que (é) importante para o país?” “Porque agora a esquerda, que se move em favor da nação, não fez isso quando estava no Governo?” “O senhor não acha que a situação atual é uma herança deixada pela esquerda (…) e que  (…) só vai beneficiar os que já estão na política há muito tempo?”

lula
lula (Foto: Tarso Genro)

Dias 7 e 8 de agosto, em São Paulo, participei de um Colóquio promovido pelos Instituto Novos Paradigmas, pela Fundação Friedrich Ebert e pela Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo. O debate central versou sobre as questões mais importantes relacionadas com a crise da Democracia e da República  – tanto jurídica como política – assuntos que não podem ser separados, no contexto atual. O debate trouxe à lume posições importantes sobre o tema, de eminentes personalidades acadêmicas, quadros políticos e líderes de movimentos sociais.

A reunião reincidia debates realizados em Lisboa, Buenos Aires, Montevidéu, Madrid, Rio de Janeiro e Porto Alegre, promovidos – em conjunto ou isoladamente – pela Fundação Ebert e pelo INP, com forças políticas análogas em cada país e região. O sentido estratégico dos debates, que vão prosseguir, é pensar, em termos mais universais, os tempos futuros da Democracia e da República, face à devastação neoliberal na Europa e na América Latina: da Grécia à Argentina, do Brasil a Portugal e Espanha. Pensar este tempo, “fora” do âmbito das naturais lutas de poder no interior dos partidos, de molde a ir buscando novas identidades, para resistir e avançar, num processo que será longo e doloroso na desmontagem do Estado Social nos próximos anos, é o objeto destes Colóquios.

Eis algumas figuras que compartilharam, em São Paulo, do referido evento: Gerta Daubler, ex-Ministra da Justiça (socialdemocrata) da Alemanha, Pedro Serrano (jurista, Professor da USP), Gleisi Hoffmann (Presidente Nacional do PT), Gilberto Maringoni (Psol), Guilherme Boulos (MTST), Fernando Haddad (ex-Prefeito de SP), Walter Sorrentino (Vice-Presidente Nacional do PcdoB), Nádia Campeão (ex-Vice-Prefeita de SP), José Genoino (ex-Presidente nacional do PT), Juliano Medeiros (Presidente da Fundação Lauro Campos, do Psol), Gisele Citadino (Pesquisadora e Acadêmica na área dos Direitos Humanos), Tomaz Manz e Fábio Floriano (Fundação F.Ebert), Vicente Trevas (ex-Secretário Nacional de Relações Federativas do Governo Lula), Gilberto Carvalho (dirigente nacional do PT e ex-Ministro), Paulo Petri, (Diretor INP, advogado e Professor),  além de outras personalidades políticas e acadêmicas, altamente qualificadas. Em breve o INP publicará, redigido pelo nosso diretor Marcelo Daneris, um relato das intervenções.

No momento em que terminava o Colóquio, o garçom que nos atendia nas águas e cafés, que vou tratar por J. e cujo nome não vou declinar (por que careço de autorização), aproximou-se de mim, já na saída do ambiente da reunião, e me entregou um papel, dizendo: “eu lhe dou este bilhete se o Sr. prometer uma resposta”!  Meio surpreso pela atitude inusitada de J. respondi que “sim” e me comprometi que responderia “sem qualquer dúvida”. Tenho este bilhete guardado e, se algum dia eu for escrever algo de fundo sobre o Brasil de hoje,  certamente vou iniciar minha futura e improvável reflexão, relendo as suas perguntas.

“Porque este debate não foi feito antes, se é que (é) importante para o país?” “Porque agora a esquerda, que se move em favor da nação, não fez isso quando estava no Governo?” “O senhor não acha que a situação atual é uma herança deixada pela esquerda (…) e que  (…) só vai beneficiar os que já estão na política há muito tempo?”

Independentemente das intenções do autor das perguntas, da sua ideologia e das suas preferências eleitorais, as questões reais colocadas por J., estão nas mentes de uma boa parte da cidadania e continuam sem respostas. As que vieram até agora carecem de coerência, outras são incompletas, que convivem com as cínicas e as ingênuas.

Entrego a J., sumária e publicamente a minha opinião, sem fundamentá-la. Faço-o, sumariamente, porque isso é tudo que procuro entender e responder, atualmente, depois de algumas décadas de militância, que vão se encerrar mais como “Um concerto de fim de inverno”” – como diz o título melancólico do livro de Ismail Kadaré – do que propriamente como uma “Primavera” irritantemente feliz,  do saltitante (e fascinante) Vivaldi, com a sua sonoridade única.

O debate não foi feito antes, porque a esquerda, no Governo, não refletiu sobre o futuro, preocupada mais em governar de forma pragmática, sem entender inclusive as consequências políticas do programa que aplicava ou, aquela na oposição – dentro e fora do Estado – porque se considerava dona de todas as virtudes históricas e não entendeu que parte deste mesmo povo se voltaria contra o Governo, quando a distribuição de renda fenecesse. A situação atual é uma herança, sim, da esquerda no governo, mas sobretudo uma herança -retomada- do Brasil oligárquico, cujas classes dominantes não tiveram um projeto de nação, mas projetos de associação imperial com uma democracia sem povo.

Prezado J., estamos naqueles momentos da História em que o “velho” não só não morreu, mas se renova com outros discursos e outras linguagens.  E o “novo” não está no horizonte. Quando ele ameaça exibir-se em qualquer aurora, a canção do de inverno lhe adverte que os dentes afiados do mal absoluto estão mais jovens do que nunca. Basta ver as celebrações nas redes, com a morte de um homem como Carlos Araujo, que sempre teve em mente dedicar a sua vida à luta pela liberdade e pela igualdade.

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Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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