Miragens jornalísticas

É estarrecedora a ausência da imprensa nos rincões do Brasil, como fica evidente no estudo chamado “desertos de notícia”, revelando que em mais de 60% dos municípios brasileiros – que correspondem a quase 20% da população – não há veículos locais de imprensa. Mas é preciso reconhecer que, além do deserto, há muita miragem da notícia: jornais e veículos locais exclusivamente a serviço de um grupo político/familiar.

(Foto: Marcos Santos/USP Imagens)
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No silêncio dos culpados, com Queiroz e Bolsonaros tardiamente investigados, não se devem manter ilusões de justiça a caminho. Voltando às questões jornalísticas, vão algumas reflexões neste quase fim de ano.

O foco será, novamente, a Folha de S. Paulo, que não publica nem palavras que a defendem, muito menos as que a criticam. Primeiramente o ocupante do Planalto proibiu a leitura desse veículo e seu assessor Fábio Wajngarten escreveu um artigo atacando o editorial do jornal, que explicitamente criticou Bolsonaro. O assessor rotulou o editorial de infame, mas deveria ser demitido por fazer exatamente aquilo que seu chefe proibiu de fazer: ler a Folha de S. Paulo. O dogma político-religioso do Planalto não deixa dúvidas. No mais, o assessor apenas continuou a ladainha de espalhar mentiras, incluindo dizer ser a Folha uma aliada do PT!

A Folha, por sua vez, decepciona com jogo duplo. Sofre ataques diuturnos de um governo desconexo e autoritário que não entende nada de nada, mas faz elogios a uma suposta retomada do crescimento econômico! Os anunciados valores de PIB neste fim de ano são inferiores aos que foram duramente criticados no governo Dilma, mas o jornal não consegue admitir que errou e foi parte da ação engendrada para levar Bolsonaro ao poder. Síndrome de Estocolmo misturada com masoquismo e uma boa dose de complexo de vira-lata.

Outros saíram em defesa daquele editorial em que explicita sua posição contra a decisão do presidente, à época, de não incluir o jornal na licitação de veículos para o governo federal. A explicação de jornalistas, porém, esbarrou em sofismas, como o de considerar que a única política existente é a partidária. A Folha é fortemente política, com viés claramente conservador, o que não impede concessões a opiniões progressistas por parte de alguns articulistas. No entanto, essa defesa da não-política é que plasmou o governo da tragédia que vivemos hoje.

Por fim, é estarrecedora a ausência da imprensa nos rincões do Brasil, como fica evidente no estudo chamado “desertos de notícia”, revelando que em mais de 60% dos municípios brasileiros – que correspondem a quase 20% da população – não há veículos locais de imprensa. Mas é preciso reconhecer que, além do deserto, há muita miragem da notícia: jornais e veículos locais exclusivamente a serviço de um grupo político/familiar. Mas o brasileiro continua se informando pelo WhatsApp, ignorando até a parte ruim do jornalismo.

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