Modelo de Guedes, chilenos chamam sua Previdência de 'Fábrica de Pobres'

"Fiasco apontado em reportagem recente da VEJA, Previdência baseada em contas individuais implantada no Chile pela ditadura Pinochet é tão injusta e desigual que é chamada de 'Fábrica de Pobres' pela população," escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Não há a menor razão para imaginar que o modelo possa funcionar no Brasil, país onde 63% da população considera que não tem renda suficiente para sobreviver e apenas 13% conseguem poupar com regularidade". 

Modelo de Guedes, chilenos chamam sua Previdência de 'Fábrica de Pobres'
Modelo de Guedes, chilenos chamam sua Previdência de 'Fábrica de Pobres'

Paulo Moreira Leite, dos Jornalistas pela Democracia  - O modelo de Previdência que Paulo Guedes e Jair Bolsonaro pretendem implantar no Brasil é tão ruim, mas tão ruim, do ponto de vista dos aposentados, que nem quem defende o Estado Mínimo consegue disfarçar seus problemas.

Basta ler uma reportagem da VEJA sobre o tema, publicada em 12/12/2018. Um dado maior chama a atenção: enquanto nenhum aposentado brasileiro recebe menos que o salário mínimo por mês, a imensa maioria dos chilenos enfrentam uma situação de penúria muito maior. Conta a revista:  "mais de 90% dos aposentados chilenos recebem bem menos que um salário mínimo de benefício. O valor da aposentadoria em relação ao último salário do trabalhador é de 40%. Trata-se do percentual mais baixo que o da média dos países desenvolvidos. Ao contrário do que acontece no Brasil, as empresas não fazem contribuição alguma. Até 2008, tampouco o governo  participava do sistema. Foi Michele Bachelet quem fez a primeira contrarreforma: criou o Sistema de Pensões Solidárias, que estabeleceu uma renda mínima de um terço do salário mínimo para idosos de baixa renda e deficiente, bancada pelo Tesouro".

A tragédia social da Previdência chilena não é uma surpresa para ninguém. Ao retirar as empresas e o governo do financiamento do Previdência,  numa reforma iniciada em 1983, a ditadura de Augusto Pinochet eliminou o caráter essencialmente social e econômico de todo sistema público de aposentadorias para transformá-lo num investimento privado como qualquer outro. Após fazer contribuições por 30 anos, cada pessoa recebe, por mês, uma fatia daquilo que investiu do próprio bolso e ponto final. 

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O saldo é previsível. Ao lado da má administração, das oscilações de mercado, inevitáveis ao longo de tantos anos, e desvios de todo tipo -- a lei autoriza aplicações na Bolsa de Valores e até em ativos estrangeiros -- não há reserva capaz de arcar com as  despesas mensais de um aposentado por anos a fio. 

Conforme economistas citados na mesma reportagem,  apenas cidadãos capazes de investir uma pequena fortuna mensal -- em torno de 30% ou até mais do salário -- durante três décadas, poderiam receber pensões mais adequadas. Em resumo:o sistema que funciona para os ricos e muito ricos -- aqueles que na realidade já tem imensa renda própria e não precisarão  de uma Previdência no futuro.

Alvo de protestos frequentes desde que os primeiros aposentados descobriram o tamanho do logro, os chilenos costumam traduzir a sigla de AFPs, usada para designar as administradoras das pensões e aposentadorias, como "Aqui se Fabricam Pobres".

Se um sistema dessa natureza deu errado no Chile, não há o menor motivo para imaginar que terá um funcionamento melhor no Brasil, país onde o nível de  pobreza e desigualdade dispensa apresentações e só será agravado pela ganância sem freios de um sistema financeiro oligopolizado.

Antes mesmo de Bolsonaro e Guedes apresentarem uma versão acabada e detalhada de seu projeto para o país, já é possível vislumbrar o perfil de uma tragédia anunciada. Texto que publiquei neste espaço  (29/12/2018), intitulado    "Reforma da Previdência é empobrecimento programado" mostra o resultado de 2045  entrevistas realizadas no Brasil inteiro pela Associação Nacional dos Fundos de Pensão, Anapar.

A pesquisa revela que 63%  da população diz que simplesmente não tem renda suficiente para sobreviver, quanto mais para poupar, 75% afirma ter dívidas, apenas 13% poupam com alguma regularidade e, entre estes,   a maioria costuma guardar R$ 300 por mês.

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Neste ambiente, a construção de "Fábricas de Pobres" não pode ser considerada como assunto para debates nem como um projeto legítimo para um país pensar seu futuro. É um projeto de genocídio, típico de uma sociedade tomada de assalto  por um bloco de poder voltado única e exclusivamente para atender seus interesses próprios, sem o mais leve compromisso com o bem estar da maioria nem com as necessidades das futuras gerações.

Alteração grave e devastadora, a mudança na natureza do sistema de Previdência também é uma decisão que um país tem grandes dificuldades para voltar atrás  -- como os chilenos percebem dia após dia.

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