Morais

Ao entrar no apartamento, dois andares pela escada, estancou. Uma floresta. Na sala nada além de vasos e mais vasos de arbustos de vários tamanhos. Recuou, conferiu o número na porta. Era ali mesmo

Morais
Morais

Que saco! Nunca tinha feito nada nem parecido. Única parente da falecida em Curitiba, sobrou para ela, teria que deixar o serviço e ir na casa da tia buscar as roupas com que seria enterrada. Deixara-lhe a chave.

No ônibus lotado pensava na velha reacionária que nunca a aceitara como é. Nos últimos tempos, quando a visitava no hospital, lhe propunha que a acompanhasse ao culto do sábado à noite. O pastor, especialista em cura gay. Idosa, conservadora, mas isso não justificava a intromissão indevida em sua intimidade. Sorriu ao lembrar a cara de espantada quando, recusando a proposta, respondeu adoro homem de terno, já vem prontinho para ser enterrado. Credo, que associação de ideias, pensou.

Ao entrar no apartamento, dois andares pela escada, estancou. Uma floresta. Na sala nada além de vasos e mais vasos de arbustos de vários tamanhos. Recuou, conferiu o número na porta. Era ali mesmo.

Esgueirando-se avançou, receosa. Que diabos era aquilo. No quarto, tudo como sempre havia sido. Modesto. Cama, criado-mudo, uma bíblia. No armário, poucas roupas. Escolheu uma discreta. Saia, camisa estilo Marina, sapatos pretos. Uma meia. Dúvida quanto à pertinência de roupa de baixo para vestir a morta. Resolveu levar. Arrumou uma sacola e socou tudo nela. Na parte superior do armário, muitas caixas. Coisas sem valor, supôs. Na gaveta, maço de dinheiro. Pegou. A velha não iria precisar de grana.

Devia estar senil ou acumuladora. Para que tantas folhagens? Peraí. Cacete! É maconha! Não fazia sentido. Uma militante das causas mais retrógradas, criacionista, plantando marijuana em casa. Lazarenta. Santa do pau-oco. Por isso sempre tinha dinheiro. E aquela cara de sonsa, afinal, não decorria da religião entorpecedora, estava era chapada. Credo, outra vez, associação de ideias. E crente não acredita em santos e santas.

Fez campanha para o Bolsonaro, defendia a Damares, agora estava convocando todos para comemorar a ditadura no dia 31 de março e era traficante com produção própria, exclamou para si mesma. Sempre assim. Velha safada. Todo moralista esconde perversões.

Fechou a porta. Apressou-se. A funerária pediu duas horas para preparar o corpo.

Noite daquelas. Antes das nove, sozinha. Parentes vindo de viagem. Depois ficou mais animado. Chegaram as primas, a mãe delas e o irmão da finada, por parte de pai. E umas outras pessoas desconhecidas. Um moço, óculos escuros, cabelo espetado e argolas nas orelhas se aproximou, espiou bem e, como veio, saiu. Seria um cliente da meliante?

Antes do enterro o tio avisou-a. Iriam dali ao apartamento, queria pegar algumas coisas que eram dele. Desespero. Daria uma treta familiar daquelas. Como reagiria ao saber que a irmã traficava? Morto não tem defeito. A falecida tinha que ter sua memória preservada pela família. Apoiou-se nas primas. Contou-lhes os detalhes. Não podiam deixar o tio saber. Tão careta quanto à irmã, perigava ter um treco e ir atrás dela no inferno. Aqueles vasos devem valer uma fortuna, passamos nos cobres e dividimos entre nós, disse a mais nova. Está maluca, nem pensar, capaz de irmos todas presas. Quem desconfiaria da velha. Fumar tudo aquilo, impossível. Queimar? Tocar fogo no prédio, grande ideia, gênia. Pare, não é hora disso. Vamos acabar todas presas. O tio não pode saber. Esse sacana abusou de mim, várias vezes quando eu tinha doze. Nojo. Engula, você é boa nisso. Nunca mais te contarei nada. Não se faça de boba. Parem vocês duas. Vamos resolver esse problema, depois vocês brigam.

Articularam. As três iriam ao apartamento com o amante da maior, de caminhonete. Pegariam os vasos de madrugada e os desovariam em algum lugar. No dia seguinte tudo estaria imaculado, inclusive a imagem da safada. Plano perfeito, regozijaram-se. E se aparecer a polícia? Temos que correr esse risco, o tio e a mãe de vocês não pode saber.

Quatro e meia da manhã, discretamente, as três saíram de fininho. Era hora da faxina. Em quatro resolveriam tudo rapidamente. E foi mesmo. Pareciam ter sido treinados. Silenciosamente subiram e desceram aquelas escadas carregando o bosque artificial. Ninguém acordou ou percebeu a movimentação. Limparam os restos de folhas e terra, varreram e até um pano úmido passaram no chão. Tocaram para descarregar na casa dele. Sabia o que fazer com aquilo tudo e, apressadamente, deitaram o cabelo para retornar de uber, exaustas, ao guardamento.

Terminado, no carro do tio, voltaram à cena do crime. Depois de estranharem a sala vazia foram ao quarto. Sobre a cama, colcha de crochê, espalharam as caixas.

Foi fumar na lavanderia e voltou branco. Solene. Fez uma longa preleção sobre os mistérios da vida e da morte e anunciou o achado mostrando um pequeno vaso com a verdolenta erva. Nas dependências de empregada havia vários, imaginem só, de maconha. As três, petrificadas, lívidas. Falsas. O tio, paciencioso, repetiu, separando as sílabas para melhor compreensão. Maconha. Traficante! Será? Talvez para uso próprio, tentou justificar a mais dissimulada. Tudo aquilo? Vão lá ver! Parece a Amazônia, vociferava.

Estavam nos quem diria quando tomaram susto. Quem é você? Meus pêsames, sou a vizinha da frente. Viemos buscar algumas coisas dela. Eu sei, estava no enterro. Onde estão os vasos dela. Na área de serviço, respondeu o machão. Suspiraram as quatro, cada uma com seu motivo, ao mesmo tempo.

De onde, isso tudo? Não sabiam. Era maconheira ou traficante? Complementava a renda, professora de biologia aposentada, mas não fumava, jesus seja louvado. Dava quase tudo para a igreja. A maconha? O dinheiro. Sei. Claro que não. Óbvio que não. Era temente a deus. Estou sabendo. Ela apenas cuidava das plantas para uns meninos que fazem a segurança aqui do bairro. Uns amores. Alugava o espaço e conversava com elas. Com as plantas? Deve ser da boa, e o que elas respondiam? A vizinha se ofendeu. A viúva Morais era uma senhora de respeito, uma pessoa de bem, apenas sublocava o espaço ocioso. Ajudava-a para que tomassem sol. Pessoa decente.

Todos concordaram. Cataram as caixas, deixaram os vasos. Despediram-se. Silentes. Os mortos não têm defeitos.

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