Moro tornou-se o novo e mais perigoso adversário de Bolsonaro

"Com o conhecimento de quem acaba de romper com o bolsonarismo, Sérgio Moro transformou-se num adversário a ser temido pelo presidente", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, fala à  imprensa
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, fala à imprensa (Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil)
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Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia 

Quando Sérgio Moro iniciou sua entrevista coletiva, hoje, até parecia um ex-ministro em busca de um novo emprego.

Ao encerrar o depoimento, contudo, estava claro que havia sido aberta uma nova porta da crise política do governo Bolsonaro.

Em pelo menos três momentos Moro fez acusações graves, que podem enquadrar o presidente em crime de responsabilidade, denúncia capaz de justificar um processo de impeachment.

Revelou que Bolsonaro lhe disse  com todas as letras que pretendia trocar o diretor-geral da Polícia Federal por razões políticas, o que é inaceitável sob as regras de um Estado Democrático de Direito.  

Também contou que Bolsonaro  lhe disse que gostaria de indicar um diretor geral com o qual pudesse ter conversas à vontade, sem prestar contas a ninguém, acrescentando até que pretendia ter acesso a relatórios reservados da PF -- o que, além de escandaloso, constitui ataque direto a autonomia das investigações policiais.

Como até as crianças de Brasília já sabem, o  assunto principal do diálogo entre ambos foi  a pressão de Bolsonaro pelo afastamento do delegado Marcelo Valeixo da direção-geral da PF.

Embora a notícia formal da queda do delegado tenha sido publicada no Diário Oficial de hoje, Moro divulgou outra informação grave. Embora fosse o responsável direto por nomear e demitir o diretor-geral, não tinha assinado a decisão -- ou seja, o diário oficial da República de Bolsonaro publicou uma falsidade ideológica.  

Como toda denúncia desse gravidade, é difícil fazer qualquer previsão sobre seus desdobramentos. O número de pedidos de impeachment guardados na gaveta do presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, já passa de 16. Há uma diferença importante, no entanto.

Em primeiro lugar,  estamos diante de  uma testemunha que não faz acusação com base no depoimento de terceiros -- mas a partir de fatos que ouviu e/ou presenciou.

Outro aspectdo é político. No ambiente de polarização permanente em que o país se encontra, o agora ex-ministro tem a credibilidade de quem já pode ser colocado, desde a manhã de ontem, à margem de alinhamentos automáticos.

É certo que Moro conserva a biografia de adversário histórico do Partido dos Trabalhadores, a  tal ponto que lembrou, em absurdo tom elogioso, que em 2018 o delegado Marcelo Valeixo foi um dos responsáveis pela permanência de Lula na prisão, embora houvesse uma decisão judicial pela soltura. 

Suas acusações contra Bolsonaro são de outro teor, porém. Qualquer que sejam possíveis  motivações íntimas, sempre insodáveis, expressam apego as regras objetivas que costumam orientar o adeaquado funcionamento do Estado, em especial junto a uma de suas forças delicadíssimas, a Polícia Federal.

Num mundo jurídico dividido em famílias  políticas que não se toleram, os argumentos exibidos por Moro na manhã de hoje podem ser acolhidas pelos diversas alinhamentos que compõem o plenário do Supremo Tribunal Federal, sejam aliados da Lava Jato, sejam seus críticos.

O mesmo se pode dizer de um Congresso, capaz de gestos frequentes de inconformismo diante das iniciativas autoritárias de Bolsonaro -- como ter acesso a inquéritos da Polícia Federal.

Estamos falando de instituições que terão um papel importante no destino de Bolsonaro, inclusive abrir ou fechar um eventual processo de impeachment. Essa força insuspeita de Moro, que conhece a intimidade do bolsonarismo como poucos, é o sinal mais perigoso no caminho de Bolsonaro.

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