Muito bem, dona Regina: e agora?

"Resta ver o que ela pretende fazer para impedir a extinção do cinema nacional, que vem ocorrendo de forma ininterrupta desde a chegada de Jair Messias à presidência", questiona o jornalista Eric Nepomuceno ao avaliar a posse de Regina Duarte na Secretaria da Cultura

Jair Bolsonaro dá posse à secretária especial da Cultura do Ministério do Turismo, Regina Duarte
Jair Bolsonaro dá posse à secretária especial da Cultura do Ministério do Turismo, Regina Duarte (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Muito bem: Regina Duarte agora é secretária Especial de Cultura. Fez um longo discurso, coalhado de platitudes e lido com histrionismo excessivo. 

Não disse nada de concreto, a não ser num ponto específico: entre um sorriso tão autêntico quando uma nota de três reais e um esgar de emoção exacerbada, lembrou ao senhor presidente que só aceitou o posto com a condição de ter carta branca e ‘porteira fechada’.

Ah, sim: disse que quer ‘pacificar’ a classe artística e cultural e defendeu o diálogo. 

Em seguida, falou o excelentíssimo senhor presidente da República. 

Entre uma asneira e outra, sempre com aquele sorriso de gesso grudado numa cara cujos olhos lançam sinais claríssimos de desequilíbrio, Jair Messias disse uma única coisa concreta: advertiu dona Regina que tem poder de veto sobre qualquer nomeação. 

Quer dizer: a porteira pode estar fechada (como cria gado, de porteira certamente Regina Duarte entende), mas não se trata exatamente de uma carta branca, e sim de uma carta em branco.

Um detalhe significativo: a classe artística na plateia realça o tamanho do voto de confiança que a nova secretária mereceu. Rosamaria Murtinho, Maria Paula e Carlos Vereza eram os únicos rostos reconhecíveis. E da classe cultural, ninguém. 

Se antes mesmo de assumir Regina Duarte havia nomeado (e depois mandado demitir) uma ‘reverenda’, agora catapultou dez, a começar pela aberração nomeada para presidir a FUNARTE, um tal de Dante Mantovani.

Resta agora ver o que ela pretende com os outros nomeados por aquele Roberto que era Rego Pinheiro mas se dizia Alvim. 

Aliás, e já que falei nele, reitero aqui que considero sua demissão uma injustiça sem tamanho. 

Afinal, ele foi extremamente eficiente em destroçar a estrutura do governo dedicada às artes e à cultura. Seu único erro foi ter exibido em público o que o clã presidencial e a imensa parte desse governo cultiva em segredo: uma profunda admiração pelo nazismo.

Voltando à questão: há aberrações presidindo a Biblioteca Nacional, a Fundação Casa de Rui Barbosa e principalmente a Fundação Palmares. Não vale a pena mencionar seus nomes. O da Palmares, dedicada a preservar e estudar as raízes africanas na formação do Brasil, é aquele negro que diz que a escravidão fez bem para os descendentes de escravos. Jair Messias gosta dele, ou diz gostar.

Resta ver o que ela pretende fazer para impedir a extinção do cinema nacional, que vem ocorrendo de forma ininterrupta desde a chegada de Jair Messias à presidência.

Aliás, o dia da posse formal de Regina Duarte como secretária de Cultura foi pontuado por duas mostras claríssimas de onde ela foi parar, e foi parar porque quis.

Primeiro, ela estará, ao menos formalmente, subordinada ao ministro de Turismo, dono e beneficiário de um laranjal que, apesar de enorme e estridente, Sergio Moro faz questão de não ver. O discurso dessa criatura cheia de prenomes – Marcelo Álvaro Antônio – foi tão consistente como o que passa pela sua cabeça: vácuo puro.

E segundo, foi o dia em que a boçalidade de Jair Messias conseguiu o milagre de se superar. O que ele fez ao lado de um humorista chamado de ‘Carioca’, que apareceu distribuindo bananas (a fruta, não o gesto) na direção dos repórteres cujos chefes submetem a uma humilhação cotidiana imperdoável na porta do Palácio da Alvorada, ultrapassa qualquer limite do ridículo, da grosseria, da estupidez. 

Será que dona Regina consegue, se não pacificar, ao menos domar semelhante cavalgadura?

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