Mulheres do Lar 2

Sua vida é a da maioria das mulheres e homens pelo mundo, nasceram para servir, lhes negam o direito de existir, a oportunidade de exercerem suas potências e humanidades, são invisíveis na sociedade. São resumidos ao mais básico da sobrevivência humana

Siga o Brasil 247 no Google News

A história de ED é permeada por toda as agruras impostas pelo sistema. Não teve oportunidades na vida; o que conquistou foi com um custo elevadíssimo de sacrifício. Ela não nasceu em uma família abastada que lhe proporcionou todas as benesses de poder viver em plenitude sua infância - não teve pais que puderam pagar sua escola particular, não teve a disponibilidade de tempo para se dedicar e estudar para o vestibular e, assim, cursar o tão almejado curso de enfermagem.

Sua vida é a da maioria das mulheres e homens pelo mundo, nasceram para servir, lhes negam o direito de existir, a oportunidade de exercerem suas potências e humanidades, são invisíveis na sociedade. São resumidos ao mais básico da sobrevivência humana.

ED é uma mulher inteligentíssima, sagaz e com uma compreensão da vida e do outro que vi poucas vezes em minha vida. Nos momentos mais difíceis que passei nos últimos anos, ela segurou minhas mãos, esteve ao meu lado, deixou seus filhos com a irmã para não me deixar só, quando não conseguia sequer me levantar da cama, por uma depressão que me assombrava.

PUBLICIDADE

Ela se casou e separou, a história comum de muitas mulheres – mas o pai não a ajuda - quando muito compra um botijão de gás, uma carne ou algo que amenize sua luta, porém nunca pode contar com nada, é sempre uma surpresa quando ele comparece com alguma ajuda. Sim! Uma ajuda, porque a obrigação e responsabilidade dos homens em relação aos filhos sempre é negada.

Nós duas sempre conversamos; muitos de meus amigos não compreendem a relação que temos e, entendo toda a sua complexidade, enxergo os privilégios que tive e tenho para ser quem sou e, tudo que lhe fora negado para que esteja na posição que está. Compreendo a minha impotência em alterar a realidade que ela vive e a reprodução da sua história em sua filha mais velha, mas isso não diminui a dor, o sofrimento e a revolta que sinto por vivermos em uma sociedade com tamanha desigualdade, que define o destino e as oportunidades do humano a partir do nascimento.

Eu e ED passamos a manhã conversando quando estou com meus horários livres, falamos sobre nossos filhos, as dificuldades da vida, nosso passado e o que esperamos do futuro. No entanto, nosso assunto preferido são os relacionamentos. Como psicanalista, as relações e os comportamentos humanos me interessam, e as histórias que ela conta são ótimas. Sempre achei que talvez houvesse diferença nas relações amorosas, em como as mulheres se veem, no compromisso dos homens com seus filhos e até mesmo quanto a fidelidade.  

PUBLICIDADE

Me enganei!

Os padrões são os mesmos. Ela me conta sobre os homens que entram na sua vida e, logo querem namorar - quanto a isso acho que são diferentes da maioria dos que eu conheço – se enfiam em sua casa e acham que são seu dono, que ela está lá para servi-los. Além de trabalhar a semana toda em minha casa, cuidando de todos os afazeres do lar, só tem o final de semana para cuidar do seu e tentar relaxar um pouco juntando os vizinhos e tomando uma boa cerveja.

Ela me diz estar cansada dos homens que conhece, não quer mais abrir mão do seu sossego e arrumar mais um “filho” para cuidar, mas reconhece que ter um homem dá a ela e as amigas uma certa segurança, porque assim sente-se mais respeitada, pode sair sem ser assediada por outros ou mal falada pelas mulheres, por estar só.

PUBLICIDADE

Contou-me que teve um relacionamento de aproximadamente um ano e meio com um professor da escola do seu filho mais novo, um homem que se apresentava diferente e tinha uma boa situação financeira. Achou que sua vida iria melhorar, o tal príncipe encantado havia aparecido.

Ele se apresentou com todos os seus encantos e principalmente oferecendo uma segurança que ela tanto desejava, nos primeiros dois meses a encontrava com frequência, aparecia em sua casa aos domingos e ajudava seu filho com os deveres da escola. Ela estava encantada e apesar de no começo não gostar muito dele, se deixara conquistar por aquele homem, que se dedicava a ela e ajudava.

No entanto, quando ele percebera sua vitória e que aquele território tornara seu, jogou-lhe a bomba: Ele era casado!

PUBLICIDADE

Fiquei indignada e, perguntei-lhe sobre sua reação. Contou-me que no início sofreu muito, mas decidiu ficar na relação, já estava encarcerada emocionalmente e a ajuda financeira que lhe dava não poderia ser dispensada naquele momento, estava completamente fragilizada.

Não sei o que senti quando ela me contou o que vivera, mas lembro do quanto fiquei enojada com aquela situação, como ela fora enredada em uma dependência afetiva e financeira para que estivesse ali a disposição daquele macho.

Ela sorriu para mim e disse: Isso é a realidade!

Percebi que não era só a dela e, nem se restringia a sua classe social e mesmo as mulheres que possuem independência financeira estão sujeitas a essas clausuras dos padrões culturais impostos. Não estamos mais presas a dependência do sustento e sobrevivência, mas estamos algemadas ao status que será proporcionado, ao bairro e ao tamanho da casa, a suposta inteligência e intelectualidade do homem e, por termos sido escolhidas por um varão com tantas posses ou mais do que possuímos. 

Ainda nos sujeitamos, mesmo sem perceber, nos preocupamos como seremos vistas, com o que dirão se nos virem com alguém que não esteja no patamar estipulado socialmente, castramos nossos desejos para manter a pose no meio em que circulamos, nos anulamos e nos calamos para que as aparências sejam mantidas e a família perfeita seja invejada.

Mas ED me ensina e mostra como somos iguais, como somos presas fáceis de ideários impostos, os quais sequer podemos questionar, porque ao serem questionados  nos tornamos as loucas, as difíceis, incompreensivas, intoleráveis. Mulheres a serem destruídas.  

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

PUBLICIDADE

Cortes 247

PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email