Namore alguém que olhe para você como Lula olha para a democracia

Lula não se lamenta de nada, tampouco reclama. Ele espera, sim, as desculpas de toda a classe jurírica que lhe imputou acusações publicamente inverídicas, fantasias acusatórias reconhecidas até por seus adversários e já quase uma unanimidade na opinião pública brasileira e mundial. Não é trivial receber o apoio de Noam Chomsky dizendo exatamente isso

Lula não se lamenta de nada, tampouco reclama. Ele espera, sim, as desculpas de toda a classe jurírica que lhe imputou acusações publicamente inverídicas, fantasias acusatórias reconhecidas até por seus adversários e já quase uma unanimidade na opinião pública brasileira e mundial. Não é trivial receber o apoio de Noam Chomsky dizendo exatamente isso
Lula não se lamenta de nada, tampouco reclama. Ele espera, sim, as desculpas de toda a classe jurírica que lhe imputou acusações publicamente inverídicas, fantasias acusatórias reconhecidas até por seus adversários e já quase uma unanimidade na opinião pública brasileira e mundial. Não é trivial receber o apoio de Noam Chomsky dizendo exatamente isso (Foto: Gustavo Conde)

Estive com Lula. Ele me recebeu em seu instituto para uma conversa rápida. Rápida, mas de imenso significado e entrelinhas importantes. A tranquilidade dele com relação à sua conduta como cidadão é admirável. É alguém definitivamente leve, de posse de todo o seu significado humano e político.

E como ele é um ser humano que tem a democracia correndo nas veias, ele tem a expectativa de um julgamento justo. Lula confia no judiciário e vai continuar confiando. É uma postura conceitual, de fundo ético, pedagógico e, acima de tudo, inata. Críticas podem ser feitas, afinal, esse é um dos fundamentos da democracia e ele, mais do que ninguém, sabe disso.

Lula deixa isso claro para mim ao me receber com imensa cortesia e a se por a falar - com elegância e cadência - sobre suas expectativas com relação ao julgamento. Ele respeita tanto a democracia que rechaça qualquer excesso de confiança. Ele aguarda, com o respeito histórico que lhe é característico.

Ele sabe que, a despeito do julgamento em si, a sua vitória no plano do debate público já é bastante expressiva. Constatar isso não é ser confiante, é lidar com a realidade factual. De uma certa maneira, Lula, com seu bom humor contagiante, conduz toda a percepção sobre o futuro do país, entre os seus mais próximos, na sociedade inteira e até entre seus adversários políticos - que ele respeita.

Lula está pensando e materizalizando ações. Está conversando com economistas, lideranças, movimentos, entidades, pessoas 'comuns', jornalistas, ativistas, intelectuais e todos os segmentos que participam do espírito democrático. Aliás, como ele sempre fez.

Ele está confeccionando seu projeto para um novo governo, com todo o aprendizado que acumulou ao longo não só do seu próprio governo, mas ao longo da história e ao longo de suas viagens pelo mundo. São 40 anos de vida pública e democrática no Brasil. É muita coisa.

Ele trabalha sem parar. É uma máquina. A pausa para me receber foi um luxo. Disse a ele que precisava vê-lo antes do dia 24 para alinhar as minhas percepções diante de todo o cenário político que avança e se move de maneira acelerada. Eu precisava do elemento humano.

Posso garantir, portanto, que ele está na plenitude de seu poder aglutinador e que, em seu entorno, todos trabalham buscando soluções para o impasse político que tomou conta do Brasil. Perto de Lula, ninguém se acomoda ou se acovarda.

Lula não se lamenta de nada, tampouco reclama. Ele espera, sim, as desculpas de toda a classe jurírica que lhe imputou acusações publicamente inverídicas, fantasias acusatórias reconhecidas até por seus adversários e já quase uma unanimidade na opinião pública brasileira e mundial. Não é trivial receber o apoio de Noam Chomsky dizendo exatamente isso.

Enquanto Lula diz o que espera nesse plano jurídico - só um dos múltiplos planos que o cercam - digo a ele o que penso sobre o assunto. Digo que este é o exato momento da inflexão, o momento em que a sociedade brasileira acordou e se redistribui politicamente, recompondo o apoio massivo de 2010. Digo que o momento é muito bom e que não pode restar dúvidas sobre a imensa vitória moral dele e da esquerda.

Mas Lula é inteligente demais para cair no meu 'otimismo'. Quase ia me esquecendo que estava diante de uma das maiores personalidades políticas do século. Pobre de mim. Insisto, sem forçar, que se trata de uma leitura conjuntural, factual, com base empírica em pesquisas de opinião. Ele apenas me olha. Basta para eu entender que uma palavra como "vitória" só chega depois de um evento chamado "apuração dos votos".

É por isso que não é fácil compreender a dimensão da força política deste homem. Talvez, só um linguista como Noam Chomsky para perceber o tamanho da verdade histórica que se acumulou por aqui - nesse hemisfério sul tão surrado - com densidade suficiente para vários 'big bangs' eleitorais e sociais. A intuição linguística de Lula não se limita à gramática: é uma intuição política que se materializa em palavras e olhares o tempo todo.

Por falar em olhar, preciso dizer: quando Lula te olha, meu caro, o chão treme. Não que eu não esteja acostumado com isso, tantas cervejas que tomei na época da universidade. Digamos que o coração acelera, ainda mais para um músico que gosta de olhar e sentir as pessoas a sua volta.

Lula sorri com os olhos. É impressionante. Seu sorriso expansivo tão conhecido por todos nós é patrimônio da humanidade e isso ninguém tasca. Mas, sorrir com a boca - sic - o tempo todo é sintoma de fraqueza e de fragilidade no conteúdo - um biógrafo de Louis Armstrong pontuou sobre isso, sem julgar o cantor de "What A Wonderful World", claro.

Enquanto Lula fala ou escuta, ele sorri para você com os olhos, tal é o sentimento perene de gratidão que ele tem com a vida. E olhar para Lula é olhar para a democracia, é olhar para a história, é olhar para milhões em tempo real. Seu rosto, extremamente jovial, apresenta suaves contornos do tempo.

É um mapa delicado de toda a sua biografia, desde a infância sofrida até a consagração mundial. Emocionante deixar a percepção do sensível atuar e sentir - com a discrição que reza a um encontro como esse - toda a expressão deste homem. Mas fiquem tranquilos: eu disfarcei bem.

E se Lula tem 72 anos de idade, energia de 30 e tesão de 20, sua alegria é de uma criança. Por alguma razão cósmica foi dado a este sujeito o elixir da sabedoria e da juventude, graça insuportável para quem ainda o antipatiza, sabe-se lá por que razões obscuras.

Neste momento quase flaubertiano, entra uma pessoa para cumprimentar Lula na sala. Lula o atende e se queixa de mim: "quando eu leio o que ele escreve eu tenho que tomar cuidado para não acreditar em tudo o que ele diz, senão eu fico 'me achando'". É muito amor envolvido, claro.

Esse é o meu papel, Lula. Eu tenho que chamar atenção para um sentimento que, por humildade e estratégia, não lhe pode tomar a alma. Gostar de si e viver de aclamação realmente não é o papel de um homem jovem e com tanto ainda a fazer pelo país e pelo povo brasileiro. O autoelogio é coisa de outro segmento, é para outros ex-presidentes menores.

Nosso encontro, breve, prossegue e eu tenho que fazê-lo durar, evidentemte. Eu sou bom nisso. É o tempo literário, que pode ser até infinito. O encontro, portanto, foi infinito enquanto durou.

Lula certamente estranhou minha prolixidade, mas eu queria mais transmitir minha mensagem a ele do que ouvi-lo propriamente. É hora de contribuir, não de produzir relatos convencionais. Mesmo porque eu o ouço há 40 anos e reservo parte de seu poderoso arsenal argumentativo dentro de mim.

Isso é interessante: se alguém me perguntar "quem te ensinou a escrever?", eu diria, sem pestanejar: Lula. Escrever, para mim e para a teoria linguística que subscreve minhas pesquisas acadêmicas, é, acima de tudo, sentido. Lula lida com o sentido - das palavras, do mundo, da política, da sociedade - de maneira singular. É uma referência técnica sem precedentes.

Há poucas pessoas no mundo que têm o domíno da língua humana como ele. Ele tem um arsenal de registros, uma paleta infinita de tons, um ethos mobilizador, a percepção precisa de encaixar assuntos, frases de efeito e palavras agudas, que se apoderam do debate público.

Dizer que João Santana e Duda Mendonça são gênios da comunicação é uma blasfêmia para o mundo técnico dos estudos da linguagem. Eles fizeram o serviço braçal de organizar a massa enunciativa que brotava espontaneamente de Lula. Perto de Lula, eles são só marqueteiros.

Saindo da digressão: é hora do relato humano, de recobrar os sentimentos perdidos pela campanha de ódio que foi patrocinada pela Rede Globo. E, neste quesito, a minha contribuição é a firmeza do texto e o testemunho do amor que emana de Lula.

Lula, acreditem, é puro amor. Ele é carinhoso com todos a sua volta. Alguém como ele pacificaria o mundo. Não é à toa que ele materializou um acordo de paz com o Irã com naturalidade e rapidez impressionantes. O mundo ficou de queixo caído naquele momento.

Isso é amor. Isso é a capacidade de conquistar espaço geopolítico e humano apenas com olhares, com verdade, com postura, com autoestima, de posse legítima da humanidade de um povo maravilhoso e sofrido que é o povo brasileiro. Quem porta essa procuração decorrente das democracias conquista tudo o que quiser para o seu povo e para o seu país.

A conversa prossegue em meio aos meus pensamentos acelerados. Minha memória auditiva é total, talvez em função mais uma vez da música - gravador para mim, ali, seria uma tralha. Lula me olha e tento encaixar uma outra tese para o crivo dele.

Digo que as instituições estão derretidas e degradadas. Que, a rigor, inexistem. Aguardo, na fração de segundo, seu assentimento, para prosseguir na argumentação. Mas, qual o quê, como diria o Chico Buarque. É ele que me aguarda argumentar para assentir ou desassentir qualquer coisa - até parece que eu lá tenho lastro para jogar uma isca retórica para Lula.

Pois bem. A tese é: uma instituição ainda não ruiu e nem pode ruir. Aí, ele me olha um pouquinho de lado, ressabiado e observador - sorrindo com os olhos, sempre. Prossigo: "Você sabe que eu sou linguista, não é?". Consigo um olhar de "sim", pela primeira vez, "apressado", do tipo "fala logo".

Sem mais delongas até para meu glorioso leitor: digo que a língua é uma instituição. A língua humana. Esta que ele domina tão bem. Digo mais: a língua é a instituição mais importante de todas. Mais que o judiciário, mais que o executivo, mais que o legislativo, mais que a religião, mais que a economia.

Emendo, dizendo que é em função de a língua estar em pleno funcionamento que o jogo da Lava Jato virou de maneira tão drástica e em tão pouco tempo. Em suma: quem quer corromper a língua com falácias, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo desmascarado.

A lei da linguagem não pode ser imposta por força. Ela é a lei genuinamente mais democrática de todas, porque nasce espontaneamente das interações sociais.

Quem sabe lidar com uma lei dessas e respeitá-la está em um patamar muito diferente daqueles que lidam - apenas e de maneira precária - com a normatização social.

Claro que Lula, poucas horas antes do Ato Pela Democracia em São Paulo, não pôde fazer a sua réplica. Por isso, escrevo. Assim, ele poderá me ler com calma, quando estiver tranquilo em sua bela sala no Instituto Lula, ao lado do magnífico Globo Terrestre que decora a intersecção dos sofás.

Levantamos, saudamo-nos, não sem antes eu presenteá-lo com alguns mimos democráticos: um doce taiada, típico da minha cidade natal, Caçapava (uma rapadura com farinha de mandioca e gengibre), a linda arte de Tainá Moraes, com Lula e Marisa caminhando pela praia, um livro sobre o Chico Buarque que contava com um artigo meu (e do Saramago, do Frei Beto, do Antônio Candido) e, acreditem, um óleo de barba, para ele proteger aquela barba democrática (como a minha).

Digo para ele ler o artigo do Leonardo Boff, o melhor de todos. Aproveito para fazer o meu charme: "o meu é ruim". E ele: "Por que ruim? Claro que não!". Um verdadeiro amigo.

Ele se diverte. Pergunto, já descontraindo bastante: " - O Chico Burque tocou a bola para você naquele jogo lá em Guararema?". Ele: " - Ah, o Chico tá com o joelho ruim."

Indago se ele viu minha paródia com a Globo. "Não". "Como não?", reclamo. E ele, à sua secretária, agora querida e admirável amiga: "Por que eu não vi isso, hein?". Digo: " - Pode deixar que eu mando o link".

Abraçamo-nos, fiz uma selfie e ele transbordou de carinho, pegando no meu rosto e me dando um beijo. Esse é o Lula. Esse foi o meu encontro com Lula. Esse é o Lula que será julgado na quarta-feira, acreditem ou não.

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