Não me chamem para brincar de Diretas Já

"As diretas foram derrotadas num grande 'acordo' que nos jogou no colo uma eleição indireta, já sendo tramada, tal como vocês fazem agora, a portas fechadas, enquanto a multidão lutava nas ruas para reconquistar o direito de escolher um presidente", escreve a jornalista Denise Assis

(Foto: Acervo DCS - Apesp)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

O jornal Folha de S. Paulo parece ter perdido o princípio da objetividade, tão martelado aos jovens jornalistas que passavam a integrar a sua equipe, no início dos anos de 1990, quando o impresso deu uma “arejada” no modo de se fazer jornalismo, exigindo de sua equipe textos claros, limpos, enxutos. O título que encima o editorial/chamamento a um balaio de gatos para fazer frente (nas eleições de 2022!) a Bolsonaro, é infeliz. Traduz a tibieza que a contundência da pesquisa do seu instituto, o Datafolha, exibe indubitavelmente: 75% da população considera a democracia a melhor forma de governo. Diante da constatação, o jornal opta por: “Democracia, nunca menos”. Que diabos quer dizer isto? Não teria sido mais fácil: “Democracia sempre!”???

Não é difícil imaginar por que escolhem o caminho da negação, para afirmar o que não está tão firme. Falta-lhe um histórico moral categórico para vir a público pedir o que em determinada época não praticou. A sua aliança com a Operação Bandeirantes, na ditadura, quando se postou ao lado dos que rodavam a manivela de choques elétricos perpetrados aos presos políticos nos calabouços da Rua Tutóia, torna penosa esta defesa, hoje. Sabe que o seu telhado é de cristal, e ao fazer um arremedo de “mea culpa”, treme, antecipando as críticas que virão. “A tortura era política de Estado, os adversários desapareciam (…)”, escreve, sem, contudo, dizer com todas as letras que apoiou a tortura em sua fase mais negra. Apoiou o golpe de 2016, trabalhando sequência de títulos muito mais ousados do que o que estampa hoje em suas páginas, convidando a todos a envergar o amarelo da situação.

Agora, se enrosca para tentar misturar água e azeite – numa manobra mal ajambrada, numa pretensa reunião de “notáveis”, aglutinados por cima, por ordem dela, do empresariado, dos “financistas Lights” – para tentar levar o barco devagar, até 2022. Erra no título, erra no objetivo, erra na comparação com o momento das diretas. Uma heresia.

Para engrossar as ruas paulatinamente, como se conseguiu entre 1983/1984, até chegar à casa dos milhões, foi necessário um elemento, apenas: verdade. Havia verdade no sentimento de quem se engajou naqueles comícios. Havia dor genuína nos que discursavam de forma pungente nos palanques rodeado por multidões. Não há verdade, hoje. Falta a voz embargada de um Dr. Ulysses, falta o rubor nas faces e o tom altivo do discurso de um Brizola. Falta a emoção, a dignidade contida na economia de palavras de um Sobral Pinto. Falta a energia do líder metalúrgico Lula da Silva. Falta espontaneidade. Não se forja um movimento de rua com as letras de forma de um jornal.

O que leva as pessoas às ruas é a certeza de estarem defendendo o lado certo da história. E o lado certo desta história que hoje vivemos não está numa convocação para vestirmos amarelo. A cor de agora ou é o preto do luto pela perda de 57 mil vidas, ou é o vermelho do sangue dos que tombaram vítimas do descaso do poder público. Vítimas da omissão!

A julgar pelos 78% que disseram saber que o governo militar foi ditadura, não é com aulas sobre o período – embora elas sempre serão bem-vindas, pois há muito a elucidar e a martelar sobre aquela época –, que  se dará a mobilização nas ruas. É com um país livre da pandemia mal cuidada, mal assistida, é com a população consciente do que deixaram de fazer por ela, que as ruas transbordarão. Vocês conheciam a história, e, no entanto, não hesitaram em repeti-la, dando o mesmo apoio, com os mesmos métodos (manchetes escandalosas, de um lado só, dossiês ganhos de bandeja, sem aprofundamento nas apurações), para obter o mesmo resultado. Um presidente eleito pela vontade do povo, fora do poder. Foi assim com João Goulart. Foi assim com Dilma Rousseff.

Essas tratativas de gabinete, estejam certos, não levam para a rua a verdade, a emoção, a espontaneidade das Diretas Já. Chamem a isto “campanha publicitária”, chamem a isto arranjo, deem a isto o nome que quiserem. Mas não me peçam para vestir o amarelo dos golpistas, não me convidem para brincar de “Diretas Já”.  Chega de nos perdermos em conchavos que vão tornando a nossa história um arremedo de ópera bufa.

As diretas foram derrotadas num grande “acordo” que nos jogou no colo uma eleição indireta, já sendo tramada, tal como vocês fazem agora, a portas fechadas, enquanto a multidão lutava nas ruas para reconquistar o direito de escolher um presidente. A anistia perpetuou a impunidade, a arrogância, graças a um “conchavão” que impediu a história de ser passada a limpo. A mesma, que vocês agora querem contar a seu modo. A primeira eleição, em 1989 – fim derradeiro da ditadura, foi à base de manobra espúria, da edição de um debate que, de fato, nunca aconteceu, porque não houve igualdade de condições.  

Ou os progressistas entendem de uma vez por todas que só há o caminho da dignidade, da verdade, e da crença de que é o povo que escreve o seu destino, ou cairemos de novo, na água de salsicha que nos preparam os que desmontam e depois nos chamam para montar mais uma farsa histórica. Neste momento, radical é a morte. Vida é discordar, desmanchar o que não tem mais jeito nem nunca terá. Façamos, agora ou nunca, ao nosso modo.

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