“Não queria falar de política hoje” (Michel Labaki, engenheiro aposentado)

Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia, reproduz um texto de Michel Labaki; as palavras desse engenheiro metalurgista aposentado foram enviadas ao colunista por Frei Chico, metalúrgico aposentado, irmão mais velho de Lula; "Mas bem que a luta política poderia ser mais agradável, menos odiosa, menos preconceituosa, menos violenta", diz Labaki

Por Ricardo Koscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Quem me mandou este texto reproduzido abaixo foi meu velho amigo Frei Chico, metalúrgico aposentado, irmão mais velho de Lula, que continua preso há mais de 400 dias por decisão do Supremo Tribunal Federal. 

Labaki é engenheiro metalurgista aposentado, um brasileiro como tantos que não aguentam mais falar de política, mas sabem que é dela que depende o nosso destino. 

Lula costumava dizer que quem fala que não gosta de política acaba sendo governado por quem gosta, geralmente os piores, que se apresentam como salvadores da pátria. 

Gostaria de ter escrito este libelo, que expressa exatamente o meu sentimento e, tenho certeza, o de muitos brasileiros massacrados pelo bolsonarismo em marcha. 

***

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.

Queria falar dos campos, das matas, das águas, dos mares, dos rios, da selva, da fauna, da flora, dos peixes, do céu, da lua e do sol.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar da chuva, dos ventos, da neve, das estrelas do céu, das estrelas do mar, das ondas, das cachoeiras e da pororoca.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar do amor, do amor dos pais e mães, do amor dos filhos e filhas, do amor de avós, do amor dos netos e netas, do amor dos amantes, do amor dos casais, do amor dos amigos e amigas.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar da solidariedade, da compaixão, da amizade, do companheirismo,

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar dos feriados, dos domingos, das festas de aniversário de crianças, das festas de aniversários dos idosos, das bodas de 60 anos dos casais felizes.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar da valsa, do samba raiz, do samba canção, do sambinha, da bossa nova, do bolero, do xote, do forró, do frevo, das marchinhas, do pagode, do sertanejo, das rodas de samba.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar dos 3 milhões que foram na parada LGBT e dos 3 milhões da marcha com Jesus. E descobrir quantos que foram em ambas as manifestações.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
Queria falar de religião e de como é complicada a aceitação das religiões diferentes das de cada um. Não gosto da expressão “devem estar se revirando no túmulo”, mas é exatamente isso que penso do meu pai e da minha mãe, que eram evangélicos e teriam grande dificuldade em ver uma marcha com Jesus, com as pessoas fazendo arminhas com as mãos.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE.
E não vou falar. Não vou falar do STF que vai esperar mais algumas revelações do Intercept para libertar o Lula. Apenas vou observar que a superestrutura toma seus cuidados em se proteger, mas que o STF vai libertar o Lula em seguida.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE
E não vou falar. Apenas vou dizer que não importa muito que o Celso de Melo tenha sido indicado pelo Sarney, o Gilmar Mendes pelo Fernando Henrique, o Levandovsky e a Carmen Lucia pelo Lula e o Fachin pela Dilma. Há algo misterioso no STF. Quem vai para lá parece que deixa de ter um pensamento próprio.

NÃO QUERIA FALAR DE POLÍTICA HOJE

Mas bem que a luta política poderia ser mais agradável, menos odiosa, menos preconceituosa, menos violenta.

Mais amorosa.

Miguel Labaki, junho de 2019

***

Vida que segue.

(Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia)

Ao vivo na TV 247 Youtube 247