Ninguém segura o capitão tresloucado

O jornalista Eric Nepomuceno escrever sobre o desequilíbrio emocional de Bolsonaro de um lado, e o silêncio da mídia conservadora sobre o que parece ser um golpe branco, uma intervenção militar no governo

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Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia -- Duas coisas chamaram a atenção neste domingo: o silêncio dos grandes meios monopólicos brasileiros de comunicação sobre um detalhe que se alastra na imprensa de vários países do mundo, e a nova (a enésima) demonstração de que o desequilíbrio e a falta de noção de ridículo de Jair Messias crescem numa velocidade vertiginosa.

Vamos primeiro a Jair Messias. Desde o anoitecer da sexta e até o entardecer de domingo, ele se mantinha em silêncio, sem participar do espetáculo bizarro da sua paradinha no portão do Palácio da Alvorada para conversar com o grupo de fanáticos seguidores arrebanhados sabe-se lá a troco de quê. Esse insólito silêncio podia favorecer a impressão de que finalmente alguém, possivelmente do círculo militar que o rodeia no palácio presidencial, tivesse conseguido convencer Jair Messias a ficar quieto no seu canto, ou então ameaçado diretamente com um argumento simples e direto: se continuar dando mostras multiplicadas do seu desequilíbrio, vai ser ejetado para o espaço. Pois bem: nada disso. No final da tarde, ele, acompanhado de um sacripanta bajulador que Jair Messias chama de “Hélio Negão” (na verdade, o deputado federal pelo Rio Hélio Lopes), foi até o grupo de arrebanhados. 

Além da figura extravagante que se confundiria facilmente com um guarda-costas, e submetendo-se pateticamente a tudo aquilo, estava o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo. 

Ou seja: a falta de noção de ridículo de Jair Messias também é um vírus que contamina.

Ouviu as palavras de um desses integrantes de seitas evangélicas criadas por comerciantes da fé que se autonomeiam bispos ou pastores, deu certas mostras de impaciência mas aguentou firme (afinal, esses comerciantes controlam uma parcela importantíssima do eleitorado).

E de repente, numa brecha, Jair Messias falou. 

Atacou, claro, os meios de comunicação, os governadores, e mandou outro recado diretíssimo para o ministro Mandetta, e, mantendo a característica dos que padecem de ausência absoluta de caráter, sem citar o seu nome: “A hora dele não chegou ainda, mas vai chegar”. 

E arrebatou, valentão: “A minha caneta funciona”.

O que mais impressiona é a velocidade com que a falta de noção de ridículo, de um mínimo de decoro, enfim, de equilíbrio já não emocional mas mental, cresce em Jair Messias. E a impossibilidade de que alguém consiga contê-lo minimamente. Quanto ao outro tema, osilêncio dos grandes meios brasileiros de comunicação: jornais de tendência tão distantes como o italiano La Reppublica e o argentino La Nación abriram espaço para um ponto levantado pelo também argentino Horacio Verbitsky, um repórter de altíssima estirpe, exemplo redondo dessa raça em extinção. E o que disse Verbitsky? 

Que um alto comando argentino recebeu de um par brasileiro a notícia de que Braga Netto, o general que ocupa a Casa Civil brasileira, assumiu a “coordenação operacional” da crise da pandemia no Brasil.

Além do jornal italiano e do argentino, agências de notícias espalharam essa versão por jornais da Europa e dos Estados Unidos. E, claro, de toda a América Latina. Os jornalões brasileiros, pelo menos no domingo, nada de nada. Esse silêncio será parte do pacto para isolar Jair Messias e deixar a “coordenação operacional” nas mãos de um general da ativa?  E, aliás, esse pacto teria sido possível armar apenas entre Braga Netto e os empijamados que rodeiam Jair Messias, sem ouvir os fardados de verdade? Claro que não. Seja como for, o risco de não dar certo é altíssimo. 

Basta buscar nas redes sociais o papel patético do presidente neste domingo para ver que se em García Márquez ninguém escrevia ao coronel, aqui nestes tempos de breu ninguém segura o capitão tresloucado.

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