No Chile o não foi não

"Pinochet caiu na própria armadilha. Criou um plebiscito, que costuma favorecer os governos fascistas com o voto direto, não passando pelas representações parlamentares da democracia e acabou vítima dele", lembrou Miguel Paiva

(Foto: Miguel Paiva)
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Ontem assisti na televisão ao filme chileno NO do diretor Pablo Larraín com Gael Garcia Bernal no papel principal. O filme mostra os momentos que antecederam o famoso plebiscito que Pinochet, pressionado pelos mesmos americanos que apoiaram o golpe sangrento contra o presidente eleito Salvador Allende, foi obrigado a promover. O Sim manteria Pinochet no governo e o Não abriria o país para novas eleições. 

O filme é baseado na peça teatral  O Plebiscito de Antonio Skármeta, autor também do celebrado O Carteiro e o Poeta. Ele esteve no Brasil algumas vezes e numa delas o entrevistamos para a saudosa revista Bundas junto com Ziraldo. Foi um papo agradabilíssimo e Skármeta nos contou tudo do Chile debaixo da ditadura de Pinochet. Àquela época vivíamos aqui tempos diferentes tanto do Chile quanto do Brasil de hoje. Só que o Brasil de hoje se parece cada vez mais com o Chile de Pinochet. 

Em 1988, já no fim de seu governo, desmoralizado e pressionado pelo fracasso dos 40 % da população abaixo da linha da pobreza Pinochet achou que seria consagrado pelo apoio popular que ainda tinha. Esses apoios populares que a principio parecem difíceis de entender são mais comuns do que imaginamos. Vide o Brasil de hoje onde um governo isolado, fracassado, acuado ainda tem apoio de boa parte do eleitorado. 

Lá também era assim e essa não é a única semelhança. Eles já viviam mais de 15 anos de ditadura. estavam não só acostumados, podemos dizer, mas atemorizados diante de qualquer atitude. Surpresos com a possibilidade de dizer Não ao governo e desconfiados da verdadeira intenção daquele plebiscito os chilenos custaram a acreditar não só no processo como no resultado. Tinham medo. A oposição que se encarregou da campanha do Não custou a achar um caminho que despertasse os eleitores. Não funcionaria falar de tortura, de violência de sangue e morte. As pessoas tinham medo. Decidiram convocar um publicitário que trabalhava para um simpatizante do governo Pinochet numa agência e esse mesmo publicitário revolucionou a campanha. 

Em outras semelhanças com nossa situação convocaram artistas e personalidades para endossar a campanha. O tema seria o resgate da alegria. A felicidade de ser chileno, o amor entre as pessoas tão severamente enterrado pelo governo. Todos estranharam mas acabaram vencendo o próprio medo e partindo para uma união forte que acabou derrotando o Sim apesar dos inúmeros votos obtidos.

O governo ridicularizou a campanha do Não. Foram ameaçados,  presos, reprimidos, chamados de comunistas e agredidos nas ruas nos grandes comícios finais. Ainda tentaram  mudar os números que iam sendo divulgados mas a imprensa internacional estava lá e vigiava a honestidade da apuração.

Pinochet caiu na própria armadilha. Criou um plebiscito, que costuma favorecer os governos fascistas com o voto direto, não passando pelas representações parlamentares da democracia e acabou vítima dele. Era sua última cartada. Se conseguisse ganhar ia ser difícil derrubá-lo. Com o resultado a favor do Não as forças políticas de oposição se uniram e Pinochet foi obrigado a ceder. 

Eleições foram marcadas, a democracia cristã, numa espécie de abertura lenta e gradual assumiu o poder através de Patricio Aylwin. Pinochet ganhou um cargo de senador vitalício e passou seus últimos anos sofrendo de solidão, demência senil e inúmeras acusações de corrupção que se juntaram às de violência. Acabou preso em Londres e processado até o fim da vida pelo juiz Baltasar Garzón. Esse é o destino comum aos tiranos. A vala suja da história, o lixo que a humanidade prepara para quem não merece ser bem lembrado.

Apesar das semelhanças em vários aspectos com o Brasil de hoje e é pena que isso aconteça mais de 30 anos depois, a história do Chile mostrada no filme serve de exemplo, alerta e confirmação das ameaças à democracia, O Chile viveu isso com Allende. Aquela democracia não agradava aos Estados Unidos que ajudaram a mergulhar o país nas trevas. 

Conseguiu ressuscitar e se equilibrando entre o neoliberalismo e uma socialdemocracia mais moderna seguiu mancando em relação aos resultados econômicos mais voltados ao povo. Mas uma coisa ficou dessa história toda e hoje se vê em Santiago. A certeza de que o povo nas ruas, seja para dizer Não ou para juntar forças continua sendo o melhor caminho para a justiça social.

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