No Rio, à revelia de Lula, nasce a chapa da esquerda

"A esquerda deixou claro que se unirá na próxima eleição. No Circo Voador, onde milhares de pessoas se juntaram para assistir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrar com artistas e intelectuais, no evento “A Cultura Abraça Lula”, de forma sútil foi apresentada ao público a chapa da esquerda para concorrer na eleição da prefeitura municipal do Rio em 2020. O primeiro passo para enfrentar os desgovernos municipal, estadual e federal", escreve o jornalista Marcelo Auler

(Foto: Ricardo Stuckert)
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Por Marcelo Auler, em seu Blog e para o Jornalistas pela Democracia - Na expectativa de começar a combater o fascismo no berço onde ele surgiu – afinal, Bolsonaro é fruto do Rio de Janeiro – a esquerda deixou claro que se unirá na próxima eleição. No Circo Voador, onde milhares de pessoas se juntaram para assistir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontrar com artistas e intelectuais, no evento “A Cultura Abraça Lula”, de forma sútil foi apresentada ao público a chapa da esquerda para concorrer na eleição da prefeitura municipal do Rio em 2020. O primeiro passo para enfrentar os desgovernos municipal, estadual e federal.

Provavelmente por conta do impedimento imposto pela legislação eleitoral, não houve uma manifestação explícita. Sutilmente, porém, ficou firmado o pacto que estava sendo costurado nos bastidores. Coube à deputada Benedita da Silv, a Bené – ex-senadora e ex-governadora do Rio – oficializar a aliança. Ela falou logo depois de Jandira Feghali. Já quase chegando ao fim de sua fala, ela convidou Marcelo Freixo para se aproximar e aparecerem juntos perante o público. Em seguida veio Lula, que pousou para as fotos. Freixo, por sua vez, chamou Jandira. Juntos, por proposta de Bené, os três recorreram a Nelson Cavaquinho para, com a ajuda da plateia, anunciarem que:

O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/O mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente/É o juízo final/A história do bem e do mal./Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer!

Na plateia, porém, o grito de guerra em seguida foi outro. Verdade que puxado pelo apresentador Luiz Fernando Lobo, mas logo ressoou: ”Vai avançar, vai avançar, a unidade popular”. Em uma clara aprovação do que estava sendo apresentado aos cariocas – no caso, um público esquerdista, é verdade – naquele momento para um Circo Voador lotado, com ainda outra multidão que por limitações no espaço interno teve que se contentar em assistir tudo de um telão instalado junto aos tradicionais Arcos da Lapa.

Lula juntou multidão no Circo Voador (Foto: Pedrinho Rocha)

Na realidade, Bené tomou a iniciativa de aproximar Freixo sem que nada estivesse combinado. Afinal, apesar de Lula estar em negociação com o candidato psolista, o ex-presidente, desde o tempo em que esteve recolhido na cela na Polícia Federal, em Curitiba, defende que o PT – partido que, apesar de todos os revezes, considera ser o mais forte no atual quadro político brasileiro -, deve lançar candidatura própria em todas as principais cidades brasileiras. Até para ajudar a eleger as bancadas de vereadores.

Relembra, inclusive, que o partido ajudou a criar a eleição em dois turnos justamente para isso. Concorrer no primeiro turno com sua candidatura e apoiar a mais bem colocada na fase final da eleição. Ontem, porém, ao que parece lhe deram o prato feito.

A costura da chapa carioca já vinha sendo feita há algum tempo. Lula e Freixo, como este mesmo admitiu, já tinham conversando anteriormente. O psolista esteve em São Bernardo do Campo quando Lula retornou da prisão em Curitiba.

Verdade que Lula insistia na tecla de candidatura própria e ainda falou sobre isso na noite de terça-feira ao se reunir com o PT no Rio de Janeiro. Mas Benedita não aceita concorrer como cabeça de chapa. Por isso, tomou a iniciativa de lançar – com sutileza e sem verbaliza-la – a chapa no ato de quarta-feira (18/12) à noite no Circo Voador.

O PT do Rio, mesmo sabendo que a pesquisa Datafolha indica sua aceitação por 10% do eleitorado fluminense, tem consciência de que sua imagem não é a das melhores no estado. Muito por causa das alianças feitas no passado com o PMDB de Sérgio Cabral e Jorge Picciani.

Desta forma, há o reconhecimento – ou o receio – de que uma candidatura própria não será aceita facilmente pela maior parte do eleitorado. Em especial tendo-se Freixo como candidato do PSOL e, muito certamente, Eduardo Paes concorrendo novamente, agora pelo DEM. Pragmaticamente, preferem se aliar, mesmo resistindo a alguns nomes do PSOL, que não conseguem “perdoar”. O ex-deputado Chico Alencar, por exemplo, quadro político importante na formação do PT e do PSOL, não foi visto no Circo Voador. Pelo que informaram ao Blog, “esqueceram de lhe convidar”. Terá sido puro esquecimento?

Portanto, no PT, mesmo os poucos que preferiam uma candidatura própria, acham que será inevitável a aliança. E sabem que a chapa única no primeiro turno conta ainda com o apoio do PCdoB de Feghali. Lula, diante da reação do próprio público, certamente retornou a São Bernardo convencido que isso será inevitável.

Dentro do PSOL, cuja base majoritariamente é jovem, ou seja, formada por quem conheceu o PT no governo, há muitas críticas ao partido de Lula. Ali, grupos minoritários tentarão barrar este acordo. Notadamente os militantes que apoiam os vereadores Renato Cinco e João Batista Oliveira de Araújo, o Babá. Mas não chegam, segundo cálculos dos próprios psolistas, a 20% dos eleitores do partido. Ainda assim, acabarão aderindo à campanha pois eles próprios precisarão serão candidatos à reeleição. Logo, no partido, poucos duvidavam de que a aliança fosse feita. A grande maioria já considerava que ela se viabilizaria.

Em São Paulo, dificuldades à vista

A dificuldade maior está em levar essa mesma Frente de Esquerda para São Paulo. Ali, o PSOL já apresentou como possíveis candidatos Guilherme Boulos, que dispensa maiores apresentações, ou a atual deputada estadual Sâmia Bomfim, que antes de ingressar na Assembleia Legislativa, atuou por dois anos como vereador na capital. Não bastasse, eles ainda têm Luiza Erundina, ex-prefeito pelo PT e hoje deputada federal, que jamais negou apoio a Lula.

Aparentemente, uma aliança possível com os petistas se daria em torno do nome de Fernando Haddad. Seria um nome indiscutível, até pelo fato dele ter enfrentado diretamente Jair Bolsonaro. Mas, como Luís Nassif registrou recentemente no JornalGGNConversas com Lula: Haddad não tem que ser mais candidato a prefeito – o próprio ex-presidente entende que o ex-prefeito deve focar na campanha presidencial de 2022. Tem na bagagem o resultado obtido na última campanha.

Na falta de Haddad, os petistas tendem a apresentar nomes que dificilmente serão “palatáveis” aos psolistas. Os exemplos citados são os deputados federais Alexandre Padilha (ex-ministro das Relações Institucionais no governo Lula e da Saúde no governo Dilma Rousseff) e Carlos Zarattini, ou mesmo o ex-deputado federal Jilmar Tatto. Uma possível exceção seria o deputado federal Paulo Teixeira, mas mesmo assim há quem ache que pode haver resistências dentro do PSOL. O que mostra que na capital paulista a construção da Frente é mais difícil.

O quadro fica mais fácil em Porto Alegre com a tendência de PT e PSOL apoiarem desde o início a candidatura de Manuela d’Ávilla pelo PCdoB. A discussão se dará em nome do candidato à vice-prefeito, mas a possibilidade maior é que ele venha dos petistas, partido mais bem montado no Rio Grande do Sul.

Em Belo Horizonte, os psolistas apresentam a deputada Aurea Carolina, que como Sâmia, em São Paulo, foi vereadora por dois anos na capital mineira e na última eleição conquistou uma cadeira na Câmara Federal. Mas o partido aceita de bom grado discutir o em torno do nome de Patrus Ananias, ex-vereador, ex-prefeito de BH, ex-deputado federal e ex-ministro tanto de Lula como de Dilma. O problema, porém, está no próprio Patrus, que resiste a voltar a se candidatar. Motivos de muitas críticas por parte de Lula.

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