Novas provocações dos EUA à China agravam crise geopolítica

A crise geopolítica refletida no duelo entre Estados Unidos e China pela liderança global vai se revelando o fenômeno mais relevante em movimento no mundo

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(Foto: REUTERS/Aly Song)
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Ao lado da renitente pandemia do novo coronavírus, que até o momento já provocou mais de 5,2 milhões de mortes no mundo (616 mil no Brasil), a crise geopolítica refletida no duelo entre Estados Unidos e China pela liderança global vai se revelando o fenômeno mais relevante em movimento no mundo.

Os choques entre as duas grandes potências, ampliados pelos desdobramentos da crise de 2008 e a pandemia, são determinantes do futuro do drama humano. Por enquanto, ainda não extrapolaram as esferas da diplomacia, da política e da economia. Mas a perturbadora possibilidade de que se desdobrem em conflito bélico de dimensão imponderável já não parece remota.

Hostilidade crescente

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Na segunda-feira (6) o governo Biden informou que promoverá um boicote diplomático aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno em Pequim em 2022. É o mais recente ato de hostilidade contra os chineses. Vem no rastro da guerra comercial deflagrada pelo ex-presidente Donald Trump e outros gestos agressivos de Washington.

A retórica do governo encobre a ofensa com o pretexto de defesa da democracia e dos direitos humanos, um fetiche que mascara o real caráter da política externa norte-americana. “Não enviaremos qualquer diplomata ou representação oficial devido ao genocídio e crimes contra a humanidade cometidos em Xinjiang pela República Popular da China”, trovejou o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price.

A China não se abalou e prometeu retaliar à altura. “Quero enfatizar que as Olimpíadas de Inverno não são um palco para posicionamentos ou manipulações políticas”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian. Cabe verificar quantos países vão acompanhar os norte-americanos.

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Brincando com o fogo

Conforme observou a jornalista Mariana Sanches, da BBC News Brasil em Washington, o anúncio do boicote esportivo ocorre na semana em que Biden fará sua “Cúpula da Democracia”. Entre seus convidados constam lideranças políticas de Taiwan, uma ilha que historicamente pertence à China, mas é habitada desde a revolução de 1949 por líderes políticos e militares burgueses derrotados pelos comunistas que lá se refugiaram com apoio dos EUA.

“O conluio entre as autoridades americanas e taiwanesas para fazer provocações e brincar com fogo é extremamente perigoso. Esforços para apoiar e encorajar as forças de ´independência’ de Taiwan e desafiar o princípio da China única é como tentar conter a maré com uma vassoura”, alertou Zhao, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês.

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Conflito militar?

Na reportagem, Sanches menciona a avaliação da cientista política Mary Gallagher, especialista em política chinesa da Universidade de Michigan, sobre o estado das relações entre os dois países. “É o pior que já vi desde que fui à China pela primeira vez, em 1989. Naquele momento, a relação não era muito boa. Mas acho que está pior agora”

“O convite à Taiwan é arriscado e provocativo”, prosseguiu. “A pressão sobre Taiwan só vai aumentar e, de certa forma, os EUA provavelmente estão tornando a situação ali ainda mais difícil. Os chineses têm muitas alavancas econômicas que podem acionar para demonstrar seu descontentamento, e também podem fazer mais algumas ações militares, como os voos sobre Taiwan. Há muito espaço para erros de cálculo e um acidente que pode se transformar em algo muito, muito pior. Acho que essa é uma área em que os Estados Unidos e a China, mesmo sem intenção, podem acabar em algum tipo de conflito militar”, afirma Gallagher.

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Biden e Bolsonaro

Aqueles que esperavam mudanças significativas nas políticas da maior potência capitalista do mundo após a derrota de Donald Trump e a eleição do “democrata” Joe Biden alimentaram ilusões. Mais alto que as divergências partidárias falam os interesses e os instintos imperialistas da classe dominante, a oligarquia financeira.

Nesta guerra geopolítica, democratas e republicanos estão unidos. Em julho, num gesto que antecedeu o boicote anunciado por Joe Biden, uma comissão bipartidária de congressistas enviou carta ao Comitê Olímpico Internacional (COI) condenando a realização da Olimpíada na China alegando que o governo comunista “está cometendo genocídio e crimes contra a humanidade”.  

Isto se reflete também nas relações da Casa Branca com o serviçal governo de Jair Bolsonaro, que gosta de criar conflitos com a China e deve fazer coro com Washington na “Cúpula da Democracia”. A relação amistosa da gestão democrata com a extrema direita no Brasil, na Ucrânia e em muitos outros países sugere como a diplomacia estadunidense está impregnada de hipocrisia.

Valores supostamente universais, que flutuariam acima das classes sociais, das ideologias e das lutas de classes, são brandidos para enalter agressões guiadas pelo propósito de proteger interesses econômicos e a hegemonia geopolítica, que não abomina divergências e é por essência antidemocrática.

O imperialismo e a guerra

Lênin, o comandante da Revolução Soviética, caracterizou como imperialista a política das grandes potências capitalistas para impor e preservar seu domínio sobre as colônias e as nações mais pobres. A divisão da África, da Ásia e de todo o globo pelo chamado Ocidente nos séculos 19 e 20 ocorreu sob o signo do imperialismo.

O parasitismo e a decadência da Inglaterra no início do século passado, em contraste com a ascensão da Alemanha e dos EUA, formaram o pano de fundo da crise geopolítica que teve por desfecho a Primeira Guerra Mundial, e (anos depois da morte do revolucionário russo) também a Segunda Grande Guerra. Este gerou, no mundo capitalista, a hegemonia dos EUA, institucionalizada nos acordos de Bretton Woods.

É também de Lênin a observação de que sob o imperialismo as guerras são inevitáveis, uma ideia que a história infelizmente tem confirmado. Com a emergência das armas nucleares e a hipótese de extermínio mútuo das potências beligerantes ganhou força a opinião de que não se deve temer uma terceira guerra mundial. Mas as nuvens carregadas que vão se acumulando na conjuntura geopolítica não prenunciam tempos pacíficos.

A irresistível decadência dos EUA e da Europa em contraposição à ascensão da China deslocam o poder econômico do Ocidente para o Oriente e despertam na história um processo de transição geopolítica que ainda está longe de um desfecho. Aponta para uma nova ordem mundial que ainda não teve suas formas, caráter e contornos definidos, mas está sendo liderada por um país liderado pelo Partido Comunista que não abre mão de seus objetivos socialistas e anti-imperialistas.  

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