O Bolsonarismo como política de incentivo à supremacia do branco pobre brasileiro

O potencial nocivo do idioma bolsonarista é tão alto que até muitos dos pretos pobres que ele prometera dizimar socialmente passaram a adotar



As semelhanças entre o nazismo e o bolsonarismo não são poucas. Além da ausência de uma ideologia racional e que consiga se sustentar com base em argumentos lógicos, ambos têm na estética um ponto central para a sua afirmação. Muito mais disléxicos do que dialéticos, política e socialmente falando, os adeptos das duas crenças acreditam na ideia de uma superioridade moral e humana, que pode estar baseada em sua condição social, no seu credo religioso, na sua origem étnico-racial, no seu posicionamento político ou nas três coisas ao mesmo tempo.

Trataremos aqui apenas da questão étnico-racial, sob o olhar de boa parte da branquitude pobre brasileira, que, sob a égide do bolsonarismo como profissão de estupidez, falta de consciência de classe e ressentimento de raça, absorveu tal discurso supremacista como se fosse uma nova identidade política e social no país, na qual eles defenderiam a sua superioridade racial sobre os negros pobres, mesmo sendo pobres iguais a esses negros. Numa estrutura de sociedade racializada, o branco pobre irá se perceber socialmente diferente do negro pobre, apenas por ser branco. No bolsonarismo, esse sentimento se torna mais acentuado e funciona, estrategicamente, como um marcador na divisão de uma mesma classe social.

Quem não se lembra do discurso racista de Jair Bolsonaro no clube Hebraica, no Rio de Janeiro? Numa demonstração de poder supremacista branco, ele usa a sua “palestra” para instrumentalizar o racismo como política de estado e prometer aos seus iguais que, a partir de sua posse como presidente da república, não haveria mais direitos para os negros no país. Ou alguém conseguiu fazer uma leitura diferente sobre afrodescendentes pesando arrobas e nem mais um centímetro de terra para quilombolas? A expressão máxima do bolsonarismo, assim como o nazismo, se dá, justamente, através da ideia de uma raça superior que subjuga as demais sob o seu poder e autoridade.

Contrariando o saudoso cantor e compositor Dicró, que dizia que “no Brasil, branco pobre é preto”, os brancos pobres brasileiros passaram a se enxergar mais do que nunca, como parte da “raça eleita” que o bolsonarismo instituiu como o padrão do povo brasileiro. Entre príncipes que devem vestir azul e princesas que só podem usar rosa, o saudosismo da colonialidade e a viuvez monárquica, começaram a ser consolados de maneira um pouco mais satisfatória. Isto, porque numa estrutura racialmente supremacista, as definições de nobreza não se encaixam em outro grupo senão aquele que detém o poder racial. Aqui também temos um modo autenticamente fascista de se opor à diversidade e a inclusão social, racial e de gênero, se valendo de uma est&ea cute;tica pseudomoralista como instrumento de padronização social.

Esse viés supremacista do branco pobre brasileiro, começa a ser despertado, ou, porque não dizer, reacendido, a partir do momento em que o bolsonarismo consegue incutir em sua mente que a luta dos negros por igualdade de direitos, inclusão social e representatividade econômica, significa a perda dos seus privilégios raciais na sociedade. É como se o bolsonarismo dissesse aos brancos pobres que o único mérito que eles possuem e que poderia os fazer chegar a algum lugar com um pouco menos de esforço, é o fato de serem brancos. Sendo assim, relativizar, ou, até mesmo, defender o racismo, seria uma forma de proteger os seus direitos.

Quando a elite branca se manifesta contra as cotas raciais nas universidades, por exemplo, ela costuma dar a entender que até aceitaria as cotas se elas fossem sociais. Ou seja, se os brancos pobres, de alguma forma, pudessem ser os mais privilegiados por essa política inclusiva. Com isso, ela incita os brancos pobres contra os negros, sugerindo que eles estão prejudicados por essa política, pois ela só está sendo afirmativa para os negros. Inimizade sugerida, o próximo passo do bolsonarismo é alfabetizar socialmente a esses brancos pobres com a sua gramática particular, criando uma língua que eles passarão a utilizar como defesa da sua “ideologia” Não à toa, depois que Bolsonaro despontou para o cenário político nacional, com seu discurso bélico, racista e e xcludente, suas falas e “ideias” passaram a ser repetidas por esses brancos pobres como se fossem mantras.

O potencial nocivo do idioma bolsonarista é tão alto que até mesmo muitos dos pretos pobres que ele prometera dizimar socialmente passaram a adotar a sua gramática discursiva. Talvez, na esperança de serem lidos como brancos de alma ou de pensamento. Acrescentem a isso o elemento religioso cristão e neopentecostal, e irão perceber a combinação explosiva e letal sob a qual o país se submeteu. O mesmo “Deus acima de tudo” usado pelo nazismo, foi redefinido pelo bolsonarismo. Porém, com a mesma intenção. Entronizar uma supremacia moral, social e racial branca, através de um apelo cristão conduzido por um novo messias. Aquele que veio para julgar e decidir quem deveria ficar vivo e quem mereceria estar morto. Uma escolha muito fácil para um “salvador da p átria” racista, sexista, homofóbico, excludente e genocida.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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