O centenário do trabalhador brasileiro

O trabalhador brasileiro não existia porque não era o sujeito de sua própria história. Mas, na greve de 1917, o que antes não existia, começou a existir

Há cem anos, a primeira greve geral do Brasil, em 1917, foi vitoriosa em vários aspectos. Não só pelo atendimento de suas reivindicações principais, mas, sobretudo, por dois pontos, que merecem destaque:

1-                 O caráter francamente político classista das reivindicações atendidas, como o direito de livre organização, a soltura imediata de companheiros presos, a não demissão dos grevistas.

2-                 O parto, o nascimento consolidado e reconhecido de uma nova categoria social, o trabalhador.

Até então o trabalhador era, de fato, somente força de trabalho, somente energia produtiva, mas não existia em espírito, em direito. Não era pauta dos poderes do Estado, não entrava na preocupação legislativa do país, o poder executivo dizia que o brasileiro pobre deveria ser atendido filantropicamente como uma preocupação sanitária ou como uma questão policial.

Por que o trabalhador não existia?

Porque não tinha voz. Não era sujeito de sua história, porque se entendia apenas como produto de uma história construída pelos outros.

Os negros, atuais companheiros no trabalho menos especializado das fábricas, não foram sujeitos da abolição da sua condição de escravo. Esse benefício, dizia a história oficial, havia sido fruto da benevolência da Princesa Isabel, a redentora*. A Independência do Brasil, não trazia marcas da Conjura Baiana, da Inconfidência Mineira, da Guerra dos Emboabas. Não, era fruto do ato heroico do defensor perpétuo do Brasil, D. Pedro I. O progresso que o Brasil vivenciava, pelo menos no sudeste do país, com a industrialização emergente, era devido aos empreendedores destemidos, aos inteligentes, dinâmicos e patrióticos capitalistas, que produziam a riqueza do país.

O trabalhador brasileiro não existia porque não era o sujeito de sua própria história.

Mas, na greve de 1917, o que antes não existia, começou a existir.

Nasceu falando uma língua sincrética, parte matuto, parte caipira, parte espanhola, parte italiana…. mas importava menos a forma e mais o conteúdo dessa fala.

Ela berrava alto que havia direitos aos quais eles, os trabalhadores, não alcançavam enquanto classe, direitos que deles eram sonegados e começaram a entender que tinham direito a esse acesso.

O anarquismo brasileiro cuidou com muito apresso e dedicação do pré-natal dessa classe, com a vivência de autogestão da organização sindical, com a criação e autogestão das Caixas de Socorro Mútuo, com a criação de escolas e cursos superiores, com uma imprensa própria e atuante e uma produção cultural rica, diversificada e dinâmica. (Segundo Lenine, as formas tradicionais de luta dos trabalhadores)

 

Uma outra história, não oficial, começou a ser escrita. Nela, a potência das descobertas de que quem produzia a riqueza não era o capital, era o trabalho. De que o capital nada criava e era, na verdade, cria do trabalho não remunerado.

Mais de uma década de luta, de gestação fez com que, em 1917, a classe que não existia viesse à luz. E o mundo tremeu.

O que os uniu, para que a greve fosse forte e vitoriosa foi, por um lado, uma tragédia, o assassinato do jovem sapateiro José Martinez, por outro, uma pauta de reivindicações que mais que aumento salarial, reivindicava inserção política dos trabalhadores.

Nos anos 20, o movimento operário brasileiro já figurava entre os mais expressivos do mundo.

Exatos, um século depois, a avenida Paulista é tomada por uma multidão de trabalhadores. Greve geral dos professores, metroviários, motorista de ônibus, bancários, trabalhadores dos Correios e vários outros. 25 estados brasileiros aderiram. Manifestações de milhões de pessoas, nas principais cidades do país.

Qual a pauta de reivindicações?

Nenhum direito a menos!

Há cem anos lutávamos para conquistar. Hoje, lutamos para não perder.

Há de se considerar, logicamente, os diferentes tempos históricos. 2017 não é 1917.

Porém, se olharmos para as semelhanças, para as permanências, veremos a perenidade dos discursos e das práticas das elites dominantes.

Veremos como as lógicas das elites estão ainda arraigadas e persistentes no imaginário do país, lógicas que não suplantamos. Ainda vivem e nos assombram, há mais de um século.

Veremos, por outro lado, o quanto ainda devemos caminhar.

Algumas permanências mostram que elas não são circunstância de conjunturas específicas, mas ação de Estado. São lógicas sedimentadas de um sistema de dominação que permaneceu, nestes 100 anos.

A violência policial, por exemplo, sempre foi uma opção de controle social. Não tem ligação com o atual comandante da tropa ou com o Governador do momento.

A repressão policial é política de classe do Estado. Ela atropela não só a população, mas a constituição e o Estado democrático de direito, impunemente.

"Infelizmente, fomos pegos de surpresa. Atropelaram os trabalhadores, jogaram bomba, gás, balas de borracha. Um desacato total por parte de um coronel que deveria ter respeito aos trabalhadores. Nós já sabemos que é a mando do terminal. Isso é uma vergonha". (Rodnei Silva, Presidente do Sindicato dos Estivadores, Santos-SP – Março/2017).[1]

A polícia montada intervém, dissolvendo a marcha da coluna operária, quando se dirigia para a Praça da Sé. Espancamentos, espadeiramentos, prisões”.

E, em um manifesto aos soldados:

Soldados, não se presteis a servir de instrumento de opressão dos Matarazzo, Crespi, Gamba, Hoffman etc.” (Everardo Dias, líder anarquista – julho/1917). [2]

Também, a permanência de um mesmo discurso na imprensa mostra a velha e resistente lógica de dominação de classe, que criminaliza o movimento popular, causador de desordem e caos.

Paralisação afeta 2,5 milhões em SP e atinge unidades de saúde e escolas” (Chamada do Jornal Estadão, em 15 de março de 2017).[3]

O dia de hontem, em toda a cidade, foi de franca anarchia, pois uma grande quantidade de desordeiros, tomando conta do centro e dos arrabaldes da capital, a pretexto das reclamações que vêm sendo feitas pelas classes operárias, a toda a parte levou a desorientação e ao Pânico” (Jornal Estadão, 13 de julho de 1917).[4]

E até mesmo o discurso da meritocracia….

Não fale em crise, trabalhe” (Michel Temer, Maio/2016)

…. é permanência, que não traz nada de novo.

Em São Paulo só não ganha dinheiro quem não trabalha, só é pobre quem é vadio” (Jornal Correio Paulistano - junho/1917).

Para além do mundo do capital, do outro lado da barreira social, no mundo do trabalho, apesar das conquistas e de importantes permanências, sofremos várias dispersões ideológicas e perda de saberes políticos, que não permaneceram.

Não permaneceu o discurso direto e claro sobre a compreensão classista da conjuntura.

Não permaneceu o discurso associado à formação e organização, nos locais de vivência e moradia.

Não permaneceu a certeza de que precisamos tomar a História em nossas mãos e construí-la à nossa imagem e semelhança. Perdeu-se a certeza de que nós somos o espírito de nosso tempo.

O que se esfacelou foi a iniciativa cultural, entendida como instrumento de construção da linguagem que escreverá a nova história. (Ressalva meritória ao MST, que mantém escolas e a percepção da importância da cultura).

O que permaneceu, e assim nos fez politicamente raquíticos, foi a crença na política de alianças, foi o ideal do colaboracionismo de classes, foi a descrença nas utopias.

Dia 19 de março de 2017, na inauguração popular da transposição do Rio São Francisco, Dilma Rousseff e Lula discursaram.

Frente a toda a pressão, perseguição e ações visando claramente a desarticulação do projeto representado por Lula, ele e Dilma fizeram o tinha que ser feito e marcaram a posição de que Lula será candidato em 2018.

Ótimo!

Mas, e até lá?

O que faremos com um Estado, onde os três poderes estão postos em suspeição?

O que faremos com uma imprensa majoritariamente vinculada ao projeto neoliberal?

O que faremos com um discurso único e predominante, que reproduz mentiras, que promove o ódio, que fomenta a forma alheia e obscura (vide Jair Bolsonaro) de entender a realidade?

O que faremos com uma elite vendida ao capital internacional?

Em meio ano, a elite nacional promoveu retrocessos históricos em nossa jovem democracia, vem decretando aceleradamente o velho receituário liberal de arrocho salarial e concentração de renda.

O que não fará em um ano e meio?

Hoje, muito mais que em 1917, temos várias categorias organizadas; sindicatos fortes; centrais sindicais legítimas; uma ampla e atuante imprensa alternativa, na internet; uma intelectualidade capaz de construir um corpo teórico próprio; um movimento social que já consegue se fazer ouvir, acima dos partidos políticos; uma parcela enorme da população disposta a barrar os ataques sobre os trabalhadores.

É urgente resgatarmos as utopias de 1917, construirmos o nosso discurso, liderarmos a nossa história.

 

(Este texto teve a valiosa contribuição do filósofo Carlos Alberto Julião, a quem agradeço.)



[1]http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2017/03/confronto-entre-pm-e-manifestantes-deixa-seis-feridos-em-santos-video.html

* Mesmo o PCB, em seu programa de 1922, sequer citava a condição do negro liberto.

[2]Nosso Século – Brasil – 1910/1930. P.116. Ed. Abril, 1985. São Paulo

[3]http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19170710-14075-nac-0005-999-5-not/busca/Martinez

[4]http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,sao-paulo-tem-transito-recorde-no-ano-e-circulacao-do-metro-ainda-e-afetada,70001700140?success=true

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