O complexo de Gabriela

Em qual síndrome de Gabriela está forjada a sociedade brasileira?

Sônia Braga
Sônia Braga (Foto: Arquivo)
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A literatura, conceituada como a arte das palavras, é uma criação genuinamente humana, que nos proporciona viagens inimagináveis, em contextos impensáveis.

Esta obra é resultado das relações dinâmicas entre: escritores, público e sociedade, onde por meio da obra produzida são transmitidos sentimentos, ideias, reflexões e mudanças ao longo dos séculos. 

Fundamentalmente, a literatura é instrumento de humanizar o homem na busca de seu entendimento e de sua essencialidade.

Um dos grandes escritores da literatura pátria é o bom baiano, Jorge Amado, autor de mais de três dezenas de clássicos, cuja biografia o coloca como um homem de ideias progressistas e com uma visão a frente do seu tempo.

Em uma de suas belíssimas obras, o romance Gabriela, Cravo e Canela, narra o caso de amor entre o árabe Nacib e a sertaneja Gabriela, com pano de fundo o período áureo do cacau na região de Ilhéus, descrevendo as alterações profundas da vida social da Bahia, da década de 1920, que inclui a abertura do porto aos grandes navios, levando à ascensão do exportador carioca Mundinho Falcão e ao declínio dos coroneis, como Ramiro Bastos. Gabriela personifica as transformações de uma sociedade patriarcal, arcaica e autoritária, afetada pelos sopros de renovação cultural, política e econômica.

Outra arte que também tem algumas das propriedades da literatura é a música, que também tem o papel de nos elevar, nos desenvolver e nos humanizar.

Dorival Caymmi, outro genial baiano, buscou na obra literária de Jorge Amado a inspiração para compor “Modinha para Gabriela”.

Entre a obra literária de Jorge Amado e a composição de Dorival Caymmi estabelece-se um abismo nas conceituações. 

Na literatura há uma mudança de paradigmas, uma mudança metamorfósica da ordem social; já na música a ordem social é estática, imutável e sagrada.

Diz Dorival Caymmi:

“Eu nasci assim, eu cresci assimEu sou mesmo assimVou ser sempre assimGabriela, sempre Gabriela.”

Em qual síndrome de Gabriela está forjada a sociedade brasileira? 

Qual o seu sintoma de Gabriela: as mudanças da ordem social ou a sua pura e simples conservação da ordem social?

Enquanto isto cantamos, baianamente, Dorival Caymmi: Gabriela, sempre Gabriela, ou nos deliciamos em Cravo e Canela, na Bahia, de Jorge Amado.

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