O culto ao "deus" Protesto

Protestar é um direito, de acordo com a Constituição, mas é um direito que só pode ser exercido contanto que não infrinja outros direitos, como estão fazendo, por exemplo, esses grupos que querem impor ao Brasil suas opiniões sobre a Copa

Fiquei um bom tempo sem criticar protestos violentos e abusivos que eclodiram no Brasil a partir de junho do ano passado porque, vendo o fanatismo que tomou setores da sociedade e dos formadores de opinião que os apoiam, concluí que seria melhor esperar o tempo passar, o problema se agravar e as pessoas começarem a cair em si, como de fato aconteceu.

O apoio a protestos, que chegou estratosféricos 81% no auge das “jornadas de junho”, despencou. Hoje, segundo o instituto Datafolha – que, ano passado, registrou aquele grande apoio –, uma maioria de 63% desaprova protestos contra a Copa e apenas 52% apoiam protestos em geral. Além disso, 73% acham que protestos contra a Copa mais prejudicam que ajudam.

Não que maiorias garantam a validade de qualquer ponto de vista. A maioria aprovava protestos ontem, aprova muito menos ou desaprova hoje e isso não quer dizer nada além de que alguma coisa fez um contingente imenso de pessoas mudarem aquele ponto de vista – aí, sim, está o xis da questão.

O apoio ou o repúdio a protestos já provoca conflitos na sociedade há quase um ano. Inclusive entre pessoas que sempre tiveram opiniões mais parecidas do que conflitantes.

Recentemente, por exemplo, o jornalista Luiz Carlos Azenha publicou um post em seu site em que criticava a peça publicitária do PT que teria apelado ao “discurso do medo”. Ele qualificou como “avestruzes” os “petistas, simpatizantes e blogueiros” que teriam “preferido enfiar a cabeça na areia” e “decretar” que “os manifestantes são criminosos! Arruaceiros!”.

É normal. Essa é a prova de que a mídia se engana gravemente – para variar – quando acredita – e até afirma – que blogueiros do campo oposto ao seu pensam e agem todos da mesma forma.

O mesmo jornalista Azenha citou nominalmente este que escreve em post mais recente, no qual criticou matéria do jornal O Globo sobre os blogueiros – entre os quais, eu mesmo – que entrevistaram o ex-presidente Lula no mês passado. Abaixo, trecho em que ele explica que nossas divergências não nos impedem de “conviver democraticamente”.

 

“(…) Viomundo, por exemplo, apoia todas as manifestações de rua, inclusive as que estão sendo organizadas para o período da Copa do Mundo. O Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania – para dar apenas um exemplo, discorda. Isso não nos impede de conviver democraticamente, ainda que expressando posições claramente distintas (…)”

 

Concordo com o colega sobre “convivência”, mas discordo de suas opiniões sobre protestos. E não é pouco. Sobretudo sobre protestos contra a Copa. Nem por isso somos inimigos ou insultamo-nos publicamente – ou em privado.

Meu espírito democrático me permite entender inclusive quando o jornalista em questão publica comentário de um leitor seu afirmando que eu digo, “a berros e cuspes”, que sinto “ódio por manifestantes” e que “o Presidente Lula” teria “várias vezes” explicado a mim “o que significa democracia”. Publicar isso decorre da visão do colega blogueiro sobre liberdade de expressão.

Vale explicar que não sinto ódio pelos manifestantes e que nunca disse aos “berros”, e muito menos aos “cuspes”, que sou contra protestos. Até porque, o Movimento dos Sem Mídia, ONG que presido, já promoveu vários protestos. Ademais, o que sempre disse, serenamente, é que sou contra protestos violentos, o que é outra coisa. E, claro, é óbvio que o presidente Lula jamais me explicou o que é democracia, ainda que eu apreciasse muito se o fizesse, pois ele tem muito a ensinar nessa seara.

Respeito a opinião divergente, razão pela qual este Blog publica comentários que inclusive ultrapassam a divergência e chegam à agressão. Só não publico ataques a outros leitores ou a colegas blogueiros do mesmo campo que o meu, ainda que divergentes em alguma medida.

Contudo, fiquei pensando na tese do “avestruz”. Eu, por exemplo, certamente estou entre os que teriam enfiado a cabeça na terra como faz a ave citada pelo colega blogueiro. Por essa teoria, eu e o PT – ou a maioria do PT – não estaríamos enxergando um mal-estar na sociedade que teria gerado os protestos violentos que decorreram do ano passado para cá.

Mas por que haveria esse mal-estar? Qual a razão? O país estaria indo tão mal assim? O povo estaria sofrendo com desemprego em massa, com salários de fome, com uma enxurrada de falências, como acontecia até 2002?

Que eu saiba, não. Assim, julgo que o dito “discurso do medo” faz sentido, pois refere-se a fatos que realmente ocorreram até que Lula chegasse ao poder e consertasse o Brasil. Por isso, de fato esse “discurso” funcionou e Dilma subiu nas pesquisas. Muitos se lembraram do passado.

Mas o que me levou a escrever este post não foi só esse apoio incondicional do jornalista Azenha a protestos, inclusive aos inacreditáveis protestos contra a Copa. Um outro colega, que não é blogueiro, mas é ativista do mesmo campo que o meu, escreveu um texto que me surpreendeu e preocupou sobremaneira.

Igor Felippe é um jornalista jovem e membro do Movimento dos Sem Terra. Como o jornalista Azenha, ele também apoia protestos de todo tipo. Seu texto atacou um manifesto que intelectuais divulgaram criticando o tipo de protesto que também critico. A notícia sobre esse manifesto saiu na Folha de São Paulo. Abaixo, a matéria.

 

FOLHA DE SÃO PAULO

28 de maio de 2014

Grupo de acadêmicos pede na internet fim de protestos “abusivos”

SÃO PAULO – Um grupo de acadêmicos lançou nesta semana uma petição pública na internet pela garantia do direito de ir e vir durante os protestos.

No texto, os professores defendem “um basta” a protestos que prejudicam a circulação e pedem que as autoridades garantam os direitos dos demais cidadãos.

Uma das signatárias, a pesquisadora Elizabeth Balbachevsky, do Núcleo de Pesquisas sobre Políticas Públicas da USP, diz que as manifestações devem acontecer, mas dentro dos limites da lei.

“Não podemos decretar uma ditadura de uma minoria. Essa concepção é extremamente danosa e abre uma perspectiva para o radicalismo e a ruptura da normalidade democrática”, disse.

Alba Zaluar, professora de antropologia social da Uerj, diz ter assinado a petição por considerar abusivos protestos violentos e as greves de ônibus. “Eles não podem prejudicar a todos”.

Mais de 200 pessoas já assinaram o documento.

Esther Solano, professora da Unifesp que estuda a tática “black bloc”, discorda e diz que os protestos são reflexo da crise de representatividade no Brasil. “No mundo perfeito, claro que deveríamos ter regras, mas chegamos a um ponto de tamanha tensão que os limites foram rompidos”.

 

Para que se tenha uma ideia de quem são os acadêmicos que estão criticando esses protestos, basta ver a biografia de um deles, da antropóloga Alba Zaluar, que a Folha cita em sua matéria. Abaixo, trecho dessa biografia.

 

Filha caçula de Achilles Emílio Zaluar e Biancolina Pinheiro Zaluar, Alba nasceu no Rio de Janeiro, onde estudou até completar a graduação em Ciências Sociais na Faculdade Nacional de Filosofia. Na FNFi a miltância política de seus estudantes fez fama, e neste período, Alba pertenceu ao Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

Com o Golpe Militar de 1964 veio um período de perseguição política, marcado na FNFi pela instauração de um Inquérito Policial Militar. Com isto, Alba deixa o país em 1965 e vive no exterior até 1971, a maior parte do tempo na Inglaterra, onde estudou Antropologia e Sociologia Urbana.

Ao retornar, dedicou-se participativamente à cultura popular, especialmente às escolas de samba e ao carnaval do Rio. Desta interação resultaram duas teses: a de mestrado no Museu Nacional e a de doutorado na Universidade de São Paulo. A primeira abordou as festas de santo no catolicismo popular – “Os Homens de Deus.” E a segunda versou sobre as organizações recreativas e políticas dos trabalhadores pobres da cidade do Rio de Janeiro – “A Máquina e a Revolta.”

Atualmente, Alba é professora aposentada da Universidade Estadual de Campinas e professora titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde coordena o Núcleo de Pesquisas das Violências (NUPEVI), localizado no Instituto de Medicina Social.

 

Como se vê, não se trata de nenhuma “reaça”.

Pois bem. O colega Igor Felipe divulgou um texto hoje na internet que me espantou já a partir do título: “Intelectuais contra protestos? A que ponto chegamos…”

Antes de prosseguir, divulgo o texto de Igor.

 

Intelectuais contra protestos? A que ponto chegamos…

Por Igor Felippe

A construção da democracia no Brasil teve um alicerce importante nos intelectuais.

Professores, pesquisadores e acadêmicos participaram da luta pelo fim do regime militar.

Muitos deles foram ameaçados, presos, exilados e mortos durante o período de arbítrio imposto pelos generais.

O professor Florestan Fernandes é o maior símbolo do pensamento crítico, da resistência dos intelectuais e da militância por reformas estruturais da sociedade brasileira.

Claro que muitos se calaram e outros, de forma descarada ou envergonhada, apoiaram o golpe e o regime das armas.

A universidade é um espaço de luta política e ideológica, que reflete diferentes interesses econômicos e perspectivas políticas.

No entanto, causa estranhamento o manifesto de 200 intelectuais contra o que chamam de “protestos abusivos”.

Que o pensamento conservador é forte na universidade, não existem dúvidas, mas é preocupante que se materialize em um manifesto, que é um instrumento de ação política.

A desmoralização dos protestos de junho por autoridades e meios de comunicação estimulou a Polícia Militar do governador Geraldo Alckmin a agredir de forma arbitrária manifestantes. E terminou com violência contra jornalistas e até a proibição de vinagre…

Uma das conquistas do processo de democratização do país foi a liberdade de manifestação, garantida na Constituição.

A vivacidade de uma democracia se mede pela abertura das instituições à participação da sociedade, que passa pelas manifestações e organização dos movimentos populares, sindicais e estudantis.

Os protestos realizados no último período têm características novas e bastante diferentes do modelo tradicional. Muitas delas são passíveis de críticas.

Só que voltar os canhões contra os protestos é querer acabar com os sintomas de uma sociedade em crise sem resolver as causas da doença.

Independente da vontade dos proponentes, lançar um manifesto contra o abuso nos protestos legitima a violência policial e a repressão do Estado.

Legitima porque coloca sub judice o direito de manifestação, que deverá ser qualificado para merecer a liberdade prevista na Constituição.

E afinal de contas, quem julga se um protesto está dentro ou fora da lei?

Na hora do desenvolvimento dos fatos, quem tomará a decisão é o comandante da Polícia Militar, que fará um julgamento sumário para ordenar a repressão.

Deixar esse julgamento sob responsabilidade da PM é uma ameaça à democracia.

Voltaremos ao tempo em que a interpretação da lei será dada por aqueles que têm armas na mão.

E pior ainda se o aparato repressivo tiver uma legitimidade conferida por intelectuais para tomarem essa decisão.

Em primeiro lugar, temos que entender que opinião é opinião. Ora, não posso querer mudar a opinião de alguém. Mas posso discordar e dizer por que discordo, sem ficar fazendo ilações sobre os motivos do detentor daquela opinião, sobre seu caráter, sobre sua capacidade etc. Fazer isso é fascismo. Opinião, a gente respeita a do outro e expõe a nossa.

Mas como concordar que protesto, por definição, seja bom a ponto de uma discordância ser tratada na base do “A que ponto chegamos”. Será que Igor, um membro do MST, diria que não se pode condenar um protesto de ruralistas contra a reforma agrária que depreda acampamentos de sem-terra? Claro que não. Eis a prova de que protestos podem ser bons ou ruins.

Aliás, para me poupar de escrever recorro a comentário de um leitor postado em meu mural no Facebook a propósito do texto de Igor. O que esse leitor escreveu exprime, ipsis litteris, meu ponto de vista. O texto é do leitor Anderson Brasil.

 

Anderson Brasil

Alguns pontos [do texto de Igor Felippe] que merecem destaque:

1) fazer um documento contra os protestos é tão democrático quanto o protesto em si. Nenhum dos acadêmicos está propondo que os protestos sejam proibidos, apenas estão criticando;

2) o termo “ditadura da minoria” se aplica perfeitamente. Um protesto é uma manifestação legítima, mas não é um indicativo infalível de vontade da maioria. Se (digamos) cem mil pessoas forem protestar contra a Copa na Av. Paulista, isto apenas significa que cem mil pessoas apoiam a causa. Não significa que a imensa maioria das pessoas que não compareceram ao evento concorde.

Aliás, eu diria que qualquer minoria bem organizada consegue juntar muita gente num protesto, e está na hora de as pessoas pararem de achar que se houve um protesto contra ou a favor de algo AUTOMATICAMENTE a grande maioria da população está com essa causa.

Tem muita gente aí querendo IMPOR sua opinião de que #NÃOVAITERCOPA aos outros, querendo impedir às pessoas de chegar aos estádios na força bruta. E isso não é democracia, isso é ditadura da minoria.

Está perfeito. Assino embaixo. Protesto não é um fim em si mesmo e não é correto por definição. Protesto é a expressão de um ponto de vista. E não, não julgo que alguém é criminoso por protestar, mas julgo que é criminoso quem protesta de forma criminosa.

Veja, leitor, o caso da greve dos motoristas de ônibus em São Paulo ou o protesto que levou à morte o cinegrafista da TV Bandeirantes ou os protestos que depredam carros estacionados, bancas de jornais etc. Quantas centenas de milhares de pessoas sofreram em São Paulo por conta dos protestos dos motoristas? Trabalhadores humildes dormiram em terminais de ônibus, pessoas doentes que precisavam ir ao médico ou voltar padeceram pelas ruas da cidade…

O Brasil não suporta mais esse tipo de protesto. Não sou eu quem digo, há provas disso. As pessoas estão cada vez mais revoltadas porque estão sofrendo. E esse não é um espírito da maioria, como sugere o jornalista Azenha; é obra de uma minoria que tem motivações políticas claras, inegáveis.

Ok, pode-se não gostar do PT, pode-se apoiar o PSOL ou o PSTU – ou o PSDB, que, agora, apoia protestos desde criancinha porque acha que o ajudarão a derrotar Dilma. Mas não se pode torturar a população com nossas idiossincrasias políticas.

O manifesto dos intelectuais não deu desculpa nenhuma para a PM cometer arbitrariedades. Está dizendo que os manifestantes não podem praticar arbitrariedades que podem levar a PM a ser arbitrária, truculenta etc.

Não tenho ódio de ninguém. Não odeio porque o ódio é uma doença. Quem odeia está definhando sem saber. Aliás, como odiar pessoas que não se conhece? Insurjo-me contra um movimento que se vale da violência e até da mentira, como no caso de afirmar que dinheiro público que iria para saúde e educação está sendo investido na Copa. É mentira.

Não podemos transformar protestos em um “deus” que todos são obrigados a cultuar. Protestar é um direito, de acordo com a Constituição, mas é um direito que só pode ser exercido contanto que não infrinja outros direitos, como estão fazendo, por exemplo, esses grupos que querem impor ao Brasil suas opiniões sobre a Copa. Os intelectuais têm toda razão.

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