O delay diplomático de Serra

Ao tentarem bloquear a transferência da presidência do Mercosul para a Venezuela, Serra e FHC pareceram com os chefes da ditadura no final dos anos 70, quando se impôs a abertura democrática após Jimmy Carter tirar o apoio ao regime em nome da sua nova política de direitos humanos

Bras�lia - O vice-presidente Michel Temer recebe em audi�ncia o ex-governador de SP, Jos� Serra
Bras�lia - O vice-presidente Michel Temer recebe em audi�ncia o ex-governador de SP, Jos� Serra (Foto: Leopoldo Vieira)

Ao tentarem bloquear a transferência da presidência do Mercosul para a Venezuela, Serra e FHC pareceram com os chefes da ditadura no final dos anos 70, quando se impôs a abertura democrática após Jimmy Carter tirar o apoio ao regime em nome da sua nova política de direitos humanos (que salvou a vida de Leonel Brizola) e, em aliança com a Internacional Socialista na América do Sul e via Brizola no Brasil, estimulou a redemocratização no continente.

Além do desgaste por assumirem um golpe dentro do Mercosul e receberem um "É preciso respeitar as regras" do presidente uruguaio Tabaré Vazquez, não enxergam que a Venezuela e os EUA, via Thomas Shannon, conselheiro do Departamento de Estado americano, abriram um diálogo direto de temas para repactuar relações. Provavelmente, Shannon fazia parte da vontade de Luis Almagro, dirigente da Organização dos Estados Americanos (OEA), de usar a cláusula democrática da entidade contra o Brasil.

Os EUA, com a atual liderança dos Democratas à frente, indicam que não desejam uma relação com o continente baseado na submissão aos falcões da burocracia militar e diplomático-Republicana, mas uma relação mais soft.

Parece haver um trabalho para que Argentina, Colômbia e Peru sejam pontas-de-lança de um modelo econômico liberal, mas com cunho social e temas progressistas na área de direitos civis, à la o governo Lula 2003-2006, inclusive baseado na experiência brasileira da política econômica "palocciana" articulada com o Bolsa-Família, por exemplo.

Já na Venezuela, pode ser o laboratório para um modelo de contra-partidas de investimentos americanos para firmar parcerias, na linha do déficit histórico dos EUA quanto a um "Plano Marshall" para esta banda do planeta.

Em 27 de março de 2015, o Valor Econômico publicou uma entrevista com Shannon - "EUA tem aposta de longo prazo no Brasil, diz ex-embaixador americano". Um trecho é visionário:

- '(...) Shannon também analisou os protestos realizados pelos brasileiros em junho de 2013 e neste mês. Na sua visão, o que ocorre agora é uma democracia tentando se modernizar. "Isso é um evento profundamento positivo", avaliou ele, afirmando estar confiante de que a estrutura política brasileira vai encontrar um modo de acomodar essas demandas. Ele lembou que, depois que as manifestações de 2013 foram finalmente digeridas e entendidas, a resposta de Dilma foi oferecer um referendo sobre a reforma política, sugerindo que os brasileiros precisavam ter uma voz sobre o assunto. "Essa iniciativa morreu no Congresso, morta por partidos que não tinham nenhum interesse na reforma política", disse Shannon Para ele, porém, esse esforço para bloquear e limitar a reforma é temporário. "É evidente, pelo que vemos na paisagem eleitoral e nas ruas, que os brasileiros estão determinados a redesenhar o seu sistema político e a democracia, para serem bem sucedidos no século XXI e ter representação mais ampla (...) O conselheiro do Departamento de Estado também falou rapidamente sobre a Cúpula das Américas, que ocorrerá em 10 e 11 de abril na Cidade do Panamá. Shannon classificou o evento como histórico, porque, pela primeira vez em décadas, contará com a presença de todos os países do continente – Cuba estará presente, num momento em que há uma reaproximação com os EUA (...)'.

Serra, FHC representam as forças que fizeram morrer a reforma política em 2013 e, em 2016, proferiram um golpe branco em defesa do atual sistema político. Os que se pagaram insurreições com o slogan "Vai para Cuba!", os que só agora percebem que a diplomacia brasileira não era nada de ideológica, descobrindo a importância das parcerias comerciais e em outras áreas estabelecidas. Os que vão ser motivo de indignação (e não mais piada) na Casa Branca se resolverem tirar os sapatos num aeroporto americano.

Eles estão perdidos no tiroteio do tempo.

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