O destino do Mercosul

No dia 5 de outubro começará um ano pleno de definições fundamentais para o bloco. Nesse dia o Brasil votará. Dia 26, o Uruguai irá às urnas. E em outubro de 2015 será a vez de a Argentina fechar o círculo

Tudo o que se diga sobre o Brasil nas próximas semanas girará obsessivamente ao redor da Copa do Mundo, mas mal termine, no dia 13 de julho, o país encarará uma corrida eleitoral frenética e transcendente.

Transcendente para o próprio Brasil, desde já, que determinará se prolonga ou conclui a extensa era de doze anos no poder (Partido dos Trabalhadores), mas também para a região. Nada menos que o futuro do Mercosul estará em jogo.

No dia 5 de outubro começará um ano cheio de definições de base para o bloco. Nesse dia o Brasil irá às urnas. Dia 26, além de ser a data de uma possível segunda volta, o Uruguai também irá às urnas. E em outubro de 2015 a Argentina fechará o círculo.

As últimas pesquisas de opinião seguem colocando Dilma Rousseff na frente das preferências, contudo, nenhum consultor se anima a descartar um segundo turno. E eventualmente, dada a queda recente da presidente e o crescimento de Aécio Neves e Eduardo Campos, qualquer coisa poderia acontecer.

O social democrata Aécio Neves já se declarou partidário de um Mercosul que dê aos seus países membros a possibilidade de negociar acordos de livre comércio com terceiros países ou blocos. Isto implicaria que deixe de ser o que é, uma união alfandegária (embora imperfeita), para retroceder no tempo e constituir um simples TLC.

O ex-governador de Minas Gerais foi claro há algumas semanas em Porto Alegre: "O Mercosul é uma coisa anacrônica que não está servindo a nenhum interesse dos brasileiros", disparou. Assim, representa fielmente um pensamento compartilhado entre o empresariado industrial de São Paulo, cuja escala o faz sentir-se em condições de competir nas grandes ligas, algo que um Mercosul demasiadamente "protecionista" só parece atrapalhar.

Sem embargo, que classe de Mercosul seria esse? Um ainda mais "perfurado", possivelmente vazio de conteúdo. Dar preferências arancelárias equivalentes a, digamos, Estados Unidos, China ou a União Europeia, substituiria a produção regional que busca justamente ganhar espaço com base à integração.

Mesmo que menores, o Paraguai de Horacio Cartes e o Uruguai também somariam pressão em favor de um Mercosul bonsái. Todos os candidatos orientais, desde Tabaré Vázquez, do movimento popular Frente Ampla, até o nacionalista Luis Lacalle Pou, passando por Pedro Bordaberry, Partido Colorado, são partidários dessa mesma saída.

E a Argentina, para onde irá? Se se consulta aos principais referentes econômicos dos pré-candidatos presidenciais que estão em melhores situações, de acordo com pesquisas de opinião, se encontrará uma resposta invariável: o Brasil é um aliado estratégico para um país que todavia necessita reconstruir um tecido industrial e, com ele, suster níveis de emprego dignos de um mercado de 40 milhões de pessoas.

Isto faz com que grande parte da classe política local entenda o Mercosul como uma união alfandegária, que, contudo, deve superar os problemas que a própria Argentina exportou com sua crise, feita de inflação, atraso cambiário e queda de reservas internacionais.

A exceção a isto se encontra no macrismo, cujos referentes econômicos celebram a ideia de retrair gradualmente o Mercosul a uma área de livre comércio, mas que, dada a dificuldade de "vendê-la" internamente, se conformariam com que o bloco entregue concessões aos seus membros para a realização de negociações pontuais a título individual.

Sem embargo, inclusive os candidatos que defendem com maior entusiasmo um Mercosul forte também apresentam ambiguidades. Que representa, por exemplo, Martín Redrado dentro da equipe econômica de Sergio Massa, dominado por uma maioria de heterodoxos como Ricardo Delgado, Roberto Lavagna e Miguel Peirano? Está totalmente claro que Daniel Scioli não se inclinaria por uma política de maior abertura comercial? E a UCR, que exibe seu papel de fundadora do Mercosul, co-governaria com o progressismo do UNEN ou poderia inclinar-se por fechar uma aliança com Mauricio Macri?

Estamos diante de uma história apaixonante, que determinará em 365 dias um rumo profundo. O caminho que empreenda o Brasil, o irmão maior, será chave para seu desenlace.

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