O discurso anti-isolamento está colando. Estamos à beira do precipício

Fica mais claro que o discurso anti-isolamento colou. O avanço, lento, do número de casos da doença em todo território nacional reforça, para estes, que não passa de uma “histeria”. Não há o entendimento, por vontade de defender o presidente, falta de informação ou mau-caratismo, que as políticas adotadas pelos governadores e prefeitos têm funcionado

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Olá, companheiros e companheiras. Tudo bem? Chegamos a mais uma semana em que o novo coronavírus se espalha pelo país. O número de mortes, nesta terça-feira (07) chegou a quase 700, segundo balanço publicado pelo Ministério da Saúde. Mais de 13 mil pessoas estão infectadas pela doença. Em alguns estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, hospitais de campanha estão sendo montados para ajudar no tratamento dos pacientes, uma vez que a rede pública está prestes a colapsar. 

Entretanto, outra coisa que está se espalhando é o discurso presidencial anti-isolamento e pró-abertura dos comércios. Neste último final de semana, jornais mostraram diversas cidades com movimento normal: pessoas nas praias, andando de bicicleta e fazendo caminhadas. Desde o início das políticas de isolamento social, foi o momento de maior movimento de pessoas pelo país. 

Não só nos finais de semana, mas nos dias úteis, o número de pessoas e veículos na rua tem aumentado. Aqui na Grande Vitória, é comum encontrar idosos nas praças, principalmente de Cariacica. Em alguns momentos do dia são registrados congestionamentos nas principais avenidas da capital do estado. Os ônibus têm estado cada vez mais cheios, mesmo com a orientação para que ninguém viaje em pé. 

Este cenário tem se repetido em outras cidades. Basta ligar o noticiário nacional para ver filas e mais filas em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo. Ao mesmo tempo que cresce o número de pessoas nas ruas, há também movimentos coordenados pedindo a reabertura do comércio e o chamado “isolamento vertical”, onde apenas os idosos e pessoas dos grupos de risco devem ficar em casa. 

Credito toda essa mudança no comportamento do brasileiro pelas falas e pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro contrárias ao isolamento social, onde aproveita para menosprezar o impacto da Covid-19 na saúde das pessoas. Inclusive, algumas pesquisas feitas já mostram que as pessoas têm ficado menos tempo dentro de casa. Creio que você já deve ter ouvido alguém utilizar as expressões do presidente para justificar uma flexibilização nos cuidados à saúde.

De toda maneira, fica cada dia mais claro que o discurso anti-isolamento colou. O avanço, lento, do número de casos da doença em todo território nacional reforça, para estes, que não passa de uma “histeria”. Não há o entendimento, por vontade de defender o presidente, falta de informação ou mau-caratismo, que as políticas adotadas pelos governadores e prefeitos têm funcionado. Entretanto, este cenário, pode representar uma grande armadilha. 

Como tem sido noticiado e explicado por diversos especialistas, o vírus que causa da Covid-19 demora entre uma e duas semanas para poder manifestar os sintomas. Ou seja, se fui infectado hoje, só devo saber que tenho a doença a partir do dia 15. Se sigo uma vida “normal”, sem restrições ou isolamento, posso contaminar dezenas de pessoas. Então, se hoje o número de casos confirmados ao meu redor está baixo, a partir do dia 15 pode dar um salto exponencial. 

E se isso acontecer em várias partes do país, leva o Sistema Único de Saúde ao colapso. Isso aconteceu em países como Itália, Espanha e Estados Unidos. Coincidentemente, ou não, os lugares que registraram mais mortes e casos confirmados da doença. 

Em uma conversa que tive com o Secretário Estadual de Saúde do Espírito Santo, Nésio Fernandes, antes de entrevistá-lo ao vivo para a emissora que trabalho, disse que estava preocupado com o possível surto da doença no município da Serra – o mais populoso do Espírito Santo. Segundo dados do estado, é a cidade com maior número de casos em investigação. Entretanto, para minha surpresa, o secretário disse que está preocupado com municípios que apresentaram poucos casos. E a justificativa é óbvia: como não estamos testando toda a população, de uma hora para outra as pessoas podem apresentar os sintomas e correrem para os hospitais, gerando uma grande procura em pouco tempo. E isso pode causar problemas para o SUS conseguir tratar e cuidar de todos os pacientes. 

Então, mais do que nunca, é o momento de reforçar o isolamento, para que no pico da doença, como tem sido chamado este período que vai de agora até o início de maio, o número de casos não suba abruptamente, trazendo sérias consequências, inclusive econômicas, para todos nós. A possibilidade de flexibilizar o isolamento em lugares que a ocupação dos leitos da rede pública de saúde é menor que 50%, como comentado pelo Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, não é recomendável. Pode gerar ainda mais dúvidas na população. 

Com uma variável tão flexível – número de leitos ocupados – imaginemos um cenário, hipotético, que serve para fins didáticos. Se uma cidade tem 10 leitos do SUS e apenas três estão sendo usados, o isolamento poderá ser flexibilizado. Mas, pode ser que uma semana depois, o número de pacientes suba para seis. Então, na estratégia do ministro, teria que voltar a isolar os moradores. Não faz sentido! Vai trazer ainda mais confusão em um momento tão complicado. 

É necessário que as prefeituras, os estados, os órgãos de imprensa e as demais instituições fortaleçam o discurso da importância do isolamento social. E que as medidas sejam tomadas, mesmo que causem um desgaste político. Se as políticas anti-isolamento foram adotadas, seguindo o discurso presidencial, poderemos virar o novo epicentro mundial da doença. 

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