O etéreo e o fugaz na candidatura Marina

A candidata da despudorada autointitulada "nova política", cercada pelas más companhias da velha política, parece se desmanchar, como a luz do dia diante do negrume da noite, com o inexorável passar do tempo

A candidata da despudorada autointitulada "nova política", cercada pelas más companhias da velha política, parece se desmanchar, como a luz do dia diante do negrume da noite, com o inexorável passar do tempo
A candidata da despudorada autointitulada "nova política", cercada pelas más companhias da velha política, parece se desmanchar, como a luz do dia diante do negrume da noite, com o inexorável passar do tempo (Foto: Lula Miranda)

Alguns se apressaram em enxergar um tsunami, uma suposta "onda Marina", que iria varrer o Brasil de costa a costa e eleger a candidata de fé evangélica à Presidência da República. Mas por que jornalistas de renome, "analistas" e "especialistas", todos muito bem qualificados e remunerados (a peso de ouro, diga-se), não guardaram o mínimo recato ao fazer tal "profecia"? Por que não foram minimamente previdentes e ponderados? Tudo, na política e na vida, é uma questão de fé? Tudo é uma questão de mero desejo ou vontade?

O que leva dezenas de pessoas a tentar transformar em realidade algo que era, naquele momento, e ainda é, a mera expressão de uma vontade, de um desejo, ou o fruto de uma comoção, de uma espécie de embriaguez, de uma ilusão?

Não caberia a jornalistas e "especialistas" analisarem o cenário de modo mais racional, equidistante?

Não deveriam levar em consideração, em suas análises, as características da candidata; se ela teria, por exemplo, uma mínima sustentação partidária e política que lhe permitiria, num primeiro momento, eleger-se e depois, caso eleita fosse, governar.

Alguém se preocupou em verificar se havia constância e coerência ao longo da trajetória de vida da candidata?

Algum dos jornalistas que se apressaram em alardear a prematura vitória de Marina preocupou-se em verificar se era factível, ou ao menos plausível, as "propostas" de governo da candidata? Havia propostas ou meros "truísmos"?

Alguém parou para avaliar, sinceramente, de modo isento, como, aliás, deveria caber a jornalistas, se Marina Silva tem o preparo necessário para exercer o cargo de presidente da República? Posto que, já se sabe, por dedução lógica, sua concorrente direta teria o devido preparo e qualificação para o posto – uma vez que exerce, já há quase quatro anos, a Presidência, tendo sido antes destacada ministra do então presidente Lula por oito anos. Dilma Rousseff já conhece de cor e salteado as engrenagens da República e os problemas do país.

E a candidata Marina, conhece? Ou terá que fazer um "estágio probatório"? Antes ou durante o exercício do mandato?

Agora, pelo que apontam algumas pesquisas, a candidatura Marina começa a refluir e, quero crer, malograr.

A candidatura de Marina Silva a presidente, assim como a de Celso Russomanno a prefeito de São Paulo em 2012, despertaram inicialmente certo interesse, paixão e comoção do eleitorado, provavelmente como consequência do sebastianismo ou do messianismo que costuma embaçar a nossa visão, digo, a nossa razão. Aquela antiga crença mítica de que um salvador da pátria virá para nos salvar dos infortúnios e nos redimir dos nossos pecados.

Passado o calor da paixão, o eleitorado, inexoravelmente, começa a se dar conta dos defeitos e fragilidades da sua suposta redentora.

Parece não haver redenção para além da razão – e já aprendemos isso a duras penas.

Lembro-me ainda, como se fosse ontem, do dia em que, ainda jovem, assisti comovido em casa, pela TV, as imagens de um jovem, chamado Celso Ubirajara Russomanno, correndo em pânico pelos corredores de um hospital em São Paulo, câmera em punho, filmando, impotente, de modo incontinente, o que viria a ser os últimos momentos da sua jovem e amada esposa – que viria a morrer, naquele mesmo hospital, naquele mesmo dia, supostamente por erro médico ou falha no atendimento.

Porém, o Russomanno de hoje, um homem já maduro, revelado e curtido pelo passar do tempo, que oferece (a que preço?) o seu apoio e espólio político a partidos conservadores, em nada lembra o intrépido jovem daquele fatídico dia no hospital.

Russomanno é hoje outro Russomanno.

Será que o descaso para com o pré-sal significará para Marina o que o despreparo e o desconhecimento sobre a lógica elementar inerente ao bilhete único representou para o então candidato Celso Russomanno?

Será Marina derrubada pelos seus inúmeros calcanhares de Aquiles?

Lembro-me, com saudade, da Marina dos seringais. Aquela que era parceira de Chico Mendes – e de Lula! Aquela que tinha uma ideologia e acreditava que a redenção não se daria tão somente pela fé, ou por um ato de vontade de um indivíduo ou de um Deus, mas pela união e pelas lutas dos trabalhadores no campo e nas cidades.

Marina tinha um partido nessa ocasião: era do PT, o Partido dos Trabalhadores.

Hoje, imbuída de outra fé, Marina, também ela, tal qual Russomanno, certamente é uma outra pessoa.

Como acompanhar e entender uma biografia e uma personalidade cindida em tantos atalhos e descaminhos?

Marina é uma mulher "partida". De muitos e diversos caminhos. De muitas e diversas companhias.

Uma mulher que faz política, embora esconjure os políticos.

Uma política de muitos e diversos partidos.

Uma metamorfose. Ambulante?

Marina é, ressalvo, repito, alerto, uma estranha, uma outra Marina.

Marina parece, desgraçadamente, ter se maquiado – como na singela metáfora da morena da canção que ficou famosa na voz de Gilberto Gil, que, por sua vez, já teria emprestado o seu apoio à candidata.

"Marina, morena, estou de mal com você".

Estou "de mal" com essa Marina que parece ter se rendido ao arrivismo de agora, no lugar do socialismo de outrora.

Essa nova Marina, mera miragem que se esvai, parece-me, sinceramente, apenas imbuída do desejo de conquistar o último cargo que ainda falta em sua biografia e currículo: a de presidenta da República.

Daí essa história, mal contada, mal explicada de ser "contra a reeleição". Como assim?! Só tem projeto de governo para 4 anos?! O que dá para fazer em apenas 4 anos?! Se fizer um bom governo não pode/merecer ser reeleita?

Fugidia, idealizada, essa Marina parece ser apenas éter, fé e fuga. Parece não ser portadora de nenhum bem concreto. Parece apenas recitar ao vento palavras encantatórias, sedutoras.

E, convenhamos, meras palavras é algo por demais etéreo, intangível e fugaz para se oferecer ao povo brasileiro, desde sempre tão carente de sonhos e esperanças.

Sonhos e esperanças que não devem se frustrar num estelionato urdido no calor da comoção e da hora, nas vésperas de uma eleição.

A candidata da despudorada autointitulada "nova política", cercada pelas más companhias da velha política, parece se desmanchar, como a luz do dia diante do negrume da noite, com o inexorável passar do tempo.

Este nos dirá, decerto, brevemente, quem é o senhor da razão.

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