O fantasma da "Ponte para o Futuro"

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(Foto: Ricardo Stuckert | ABR)
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Por Bepe Damasco

Antes de tudo, quero me posicionar no debate sobre a política de alianças a nortear a formação da chapa de Lula. Se já foi decisivo entregar a vice-presidência para representantes de segmentos políticos e sociais de fora da esquerda, mais especificamente do centro, nas eleições em que o PT saiu vitorioso, imagina agora quando o desafio que se coloca é derrotar o fascismo?

A conjuntura, portanto, grita pela constituição de uma frente, a mais ampla quanto possível, como passo fundamental para tirar o país das trevas bolsonaristas. Tanto melhor que a volta de Lula, mais afiado e preparado do que nunca, registre-se, ao jogo político-eleitoral assegure à esquerda a porção hegemônica desta frente democrática e republicana. Isso faz toda a diferença para, como diz Lula com genial poder de síntese, colocar o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda.

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Um rápido passeio pelo passado recente em torno das alianças feitas pelo PT para composição de suas chapas presidenciais revela que a dose de incerteza embutida em toda decisão política produziu situações diversas. De uma parte, um vice como José de Alencar, representante do setor produtivo do capitalismo, que se manteve durante dois mandatos fiel, participativo e integrado ao programa de Lula e do PT, e de outra, um político como Temer, que assegurou seu lugar no lixo da história ao aderir ao golpe de estado, depois de conspirar, trair e apunhalar sua companheira de chapa.

Contudo, tanto no caso de Alencar como de Temer, o conceito de fazer as alianças necessárias à garantia da governabilidade estava correto. O erro estratégico grave do PT foi não investir na politização da sociedade e na organização popular, tornando seus governos presa fácil para a vilania golpista. Mas esse é outro assunto.

Depois deste enorme nariz de cera, desembarcamos no assunto do momento nos meios políticos no momento e na mídia, que é a possibilidade da formação da chapa Lula-Alckmin.

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Na esquerda, leio e ouço argumentos respeitáveis de ambos os lados. No entanto, entre os contrários à aliança com Alckmin, muitos aproveitam a condenação à tratativas com um tucano de alta plumagem para expressar sua aversão à política de alianças. 

Partem de uma visão torta, segunda a qual a esquerda puro sangue é capaz de vencer eleição presidencial no Brasil. Deixam de lado em suas análises a correlação de forças e não levam em conta a existência de uma direita com poder de fogo nada desprezível, reunindo os grupos de mídia, os militares, as polícias, o agronegócio, grande parcela do neopentecostalismo e o mercado financeiro.

O centro da querela em torno da questão Alckmin, para mim, é outro. Esbanjando saúde física e mental, Lula dá todos os sinais de que terá vida longa e produtiva. Mas, não podemos esquecer que tem 76 anos de idade. Qual a garantia que temos que, no caso de um eventual problema de saúde com Lula, Alckmin não dará um cavalo de pau no programa da chapa, reeditando algo semelhante à Ponte para o Futuro de Temer?

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Penso que os negociadores petistas e aliados têm essa preocupação em mente e esse ponto certamente será, ou está sendo, objeto das conversas. Mas como confiar em uma solução de compromisso com um quadro veterano na militância conservadora, cuja carreira se fez levantando bandeiras diametralmente opostas às do PT e da esquerda.

Trocando em miúdos, é possível confiar na palavra de quem apoia as privatizações selvagens, defendeu a reforma trabalhista e a reforma da previdência, o teto de gastos, o esquartejamento da Petrobras, fechou com o golpe contra Dilma e jamais se solidarizou com Lula pela pela caçada sofrida?

Longe de mim ser ave de mau agouro, toc, toc, toc. Mas, em política é preciso pensar em tudo. A aliança com Alckmin parte de um pressuposto acertado, mas torná-lo o substituto constitucional do presidente da República é uma hipótese assustadora.

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Por fim, modestamente tento contribuir com o debate, com a seguinte sugestão: não seria mais prudente escolher como vice de Lula alguém vinculado ao centro político, mas não de forma tão orgânica como Alckmin?

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