O inevitável fim da “revolução do eu”

A era da “revolução individual” tem um fim inevitável. Não há como avançar sem uma reeducação da sociedade para o enfrentamento coletivo às adversidades encontradas, um novo programa político capaz de fazer eco entre as mais diversas camadas da população, que traga em sua gênese o enfrentamento ao privilégio do 1% mais rico da sociedade

São Paulo - Manifestação Ni Una a Menos se concentrou no vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, e seguiram em passeata pela Rua Augusta até a Praça Roosevelt (Rovena Rosa/Agência Brasil)
São Paulo - Manifestação Ni Una a Menos se concentrou no vão-livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, e seguiram em passeata pela Rua Augusta até a Praça Roosevelt (Rovena Rosa/Agência Brasil) (Foto: Maister F. da Silva)

No país que todas as grandes mudanças no modus operandi do estado foram grandes acórdãos, e todos os ensaios de mudança popular e participativa foram ceifadas pelas elites, não é surpresa o momento que vivemos, ele apenas veio mais rápido do que imaginávamos. A Proclamação da República, a Abolição da Escravatura, A Revolução de 30, o fim da Ditadura Civil-Militar, todas foram rupturas em certa medida mentirosas, visto que não mexeram nos privilégios das oligarquias dominantes, que perduram até hoje, regozijando-se da sua permanência nas entranhas das estruturas de poder para manobrar a política econômica e a legislação a seu bel prazer.

Concentrando-se do final do Século XIX ao final do Século XX, foram ciclos agudos de concentração de riqueza, exploração desenfreada de nossos recursos naturais, novos atores estrangeiros ocupando nossas terras e também a política (especialmente o império Norte-Americano) enquanto que as organizações de trabalhadores sofreram forte repressão e as políticas sociais inclusivas andavam a passo de tartaruga.  As duas únicas experiências que fizeram menção de alterar o rumo da história encontraram forte oposição das elites controladoras da máquina estatal e aliada ao capital internacional, enfim, fracassaram e o final é conhecido de todos.

Décadas de 1980 e 1990, inicia-se um novo ciclo, fruto do último grande acórdão que levou ao fim da Ditadura Civil-Militar: nenhum militar julgado, nenhum colaborador civil corrupto identificado e escrachado perante à sociedade, a Rede Globo artífice e apoiadora do golpe de 1964 comemora o fim do regime que ajudou a criar, vêm as Diretas Já, e... bola pra frente. Continuamos na mesma, a promessa de salvação é um presidente fraudado, criado pela mesma algoz – Rede Globo –, que logo é deposto. Ainda não é a vez do povo. A década de 1990 foi a década das privatizações, do desemprego, de continuação do saudosismo aos EUA e, à título de memória, patacoadas como a homenagem prestada ao ditador peruano Alberto Fujimori, que FHC condecorou com a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul, o principal título honorário brasileiro – condecoração anulada pelo Senado, por sugestão de Roberto Requião. Fujimori, acabaria fugindo do Peru em 2000, posteriormente preso no Chile, deportado, julgado e condenado pelo assassinato de 25 pessoas, violação de direitos humanos e corrupção, entre outros crimes.

Século XXI, o mundo não terminou! Chegou a nossa vez: em 2002 o povo brasileiro através das urnas eleva a Presidente pela primeira vez na história, um político vindo do seio da classe trabalhadora, retirante, sindicalista e sem curso superior. As entranhas do poder no estado não sofrem alterações, no entanto a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora é elevada ao patamar de prioridade, ao passo que não se interfira na manutenção da estrutura econômica e dos privilégios do 1% mais rico da população.

Foram os 13 anos da meritocracia, do eu. Por minha capacidade de pagamento eu fui ao banco e obtive crédito para a compra de automóvel, trator, caminhão, casa própria. Por minha capacidade sai da escola pública, passei no ENEM e cursei uma faculdade. Foi por minha capacidade e inteligência que tive acesso a um curso técnico e conquistei um posto de trabalho bem remunerado. A demonização do estado levou a população a acreditar que todas as suas conquistas individuais foram processos naturais, sem a interferência do estado e que as criações dos programas sociais, foram apêndices para sustentar “vagabundos” que não queriam trabalhar.

 Em nome dessa capacidade do “eu”, a população brasileira se deixou levar para um caminho muito custoso de dar a volta. Como gado, caminhou para o matadouro apoiando um judiciário pífio, cumpridor de ordens externas, um executivo sem confiança e comprometido com um programa econômico avesso às necessidades da população e um congresso conservador que funciona como o mais caro balcão de negócios do país.

A era da “revolução individual” tem um fim inevitável. Não há como avançar sem uma reeducação da sociedade para o enfrentamento coletivo às adversidades encontradas, um novo programa político capaz de fazer eco entre as mais diversas camadas da população, que traga em sua gênese o enfrentamento ao privilégio do 1% mais rico da sociedade, à estrutura econômica excludente e que eleve as pessoas à qualidade de ativo número um do estado. Um programa que traga nítido o compromisso com uma revolução transformadora, social e coletiva.

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