O Lobo e o Cordeiro: uma parábola para Juliana Paes

Os nossos lobos, sem causa ou razão, estão matando o pobre e lhe sugando o sangue, só por ódio ou má inclinação

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“Estava o corvo – pássaro desgracioso, cuja voz é um grasnido – no alto de uma árvore; trazia no bico um queijo, tão grande quanto pudesse ali caber. Passando pelo caminho, disse-lhe a raposa: - Mestre corvo, que sorte a minha contemplar uma ave tão majestosa. Se for a vossa voz tão bela quanto vossa plumagem, sereis sem dúvida a rainha das aves, a fênix da floresta. Envaidecido, o corvo abriu o bico para cantar, e a raposa seguiu seu caminho com o apetitoso queijo.” Esopo

 

Cara Juliana,

Não sei você, mas eu adoro fábulas. Elas revelam certos comportamentos humanos e não importa qual idade tenham, podem ser facilmente entendidas e adaptadas para novos tempos. Além da “A Raposa e o Corvo” acima, uma das minhas prediletas é “O Lobo e o Cordeiro”, do poeta e fabulista francês Jean de la Fontaine, conhece? Ela diz assim:“Um cordeiro estava bebendo água num riacho. O terreno era inclinado e por isso havia uma correnteza forte. Quando ele levantou a cabeça, avistou um lobo, também bebendo da água.

- Como é que você tem a coragem de sujar a água que eu bebo - disse o lobo, que estava alguns dias sem comer e procurava algum animal apetitoso para matar a fome.

- Senhor - respondeu o cordeiro - não precisa ficar com raiva porque eu não estou sujando nada. Bebo aqui, uns vinte passos mais abaixo, é impossível acontecer o que o senhor está falando.

- Você agita a água - continuou o lobo ameaçador - e sei que você andou falando mal de mim no ano passado.

- Não pode ser - respondeu o cordeiro - no ano passado eu ainda não tinha nascido. O lobo pensou um pouco e disse:

- Se não foi você foi seu irmão, o que dá no mesmo.

- Eu não tenho irmão - disse o cordeiro - sou filho único.

- Alguém que você conhece, algum outro cordeiro, um pastor ou um dos cães que cuidam do rebanho, e é preciso que eu me vingue.

Então ali, dentro do riacho, no fundo da floresta, o lobo saltou sobre o cordeiro, agarrou-o com os dentes e o levou para comer num lugar mais sossegado.” 

 

Nessa fábula, o lobo e cordeiro são personagens antagônicos. Um é malicioso e cruel e aparece simbolizando a força e o poder, o outro é inocente e humilde, representando a fragilidade e a pureza de vida e coração. Apesar desse antagonismo, eles possuem um ponto em comum: ambos têm sede e vêm ao mesmo rio. Eu gosto de pensar que aqui o autor nos convida a refletir que não obstante possuamos diversas formas e diferentes comportamentos, temos idênticas necessidades e nos nutrimos de uma mesma fonte. Na essência nada nos diferencia e a nossa verdadeira natureza é uma só. Entretanto, veja só, o autor segue descrevendo a cena posicionando o lobo mais acima e o cordeiro mais abaixo do rio, nos trazendo a percepção de superioridade e inferioridade. Assim, podemos compreender que é a partir dessa condição de superioridade que o poderoso lobo vai oprimir o cordeiro, primeiro por meio de palavras mentirosas e depois dilacerando-o de forma violenta e com uma morte injusta. (MRibeiro e MSantos)

O nosso Monteiro Lobato, encerrando a sua versão da mesma fábula, conclui: “contra a força não há argumentos”. Eu também vejo essa singela fábula como uma descrição da lógica dos senhores, que é a lógica da dominação, onde a razão do mais forte sempre prevalece. O lobo, representando os poderosos, há sempre de encontrar uma maneira para que sua razão seja melhor. E não importa o comportamento do cordeiro — se ele se defende argumentando, se ele responde todas as perguntas e/ou se mostra inocente — o lobo já está decidido sobre saciar sua fome com o pobre cordeiro e assim o fará. Trocando em miúdos: quando alguém já tiver pensado em colocar em ação um plano injusto, mesmo que o outro apresente bons argumentos, o primeiro faz prevalecer a sua vontade e nenhuma defesa justa poderá se manter.

Como você sabe, em muitas partes do mundo tem sido assim, Juliana, principalmente aqui e bem nesse exato momento debaixo dos nossos olhos. Os nossos lobos, sem causa ou razão, estão matando o pobre e lhe sugando o sangue, só por ódio ou má inclinação. Essa é a lógica da dominação, lembra? E não adiantam argumentos irrefutáveis porque os lobos intencionam somente justificar o que terminarão sempre fazendo: devorar as suas presas. 

Mas há algo ainda que me intriga e pergunto: se o lobo tem poder, é o mais forte, está com fome e já está convencido de que almoçará o cordeiro, então porque ele puxa conversa com o cordeiro?

Atenta, sento aos pés de meu pai, jurista, filósofo e poeta que no alto da sabedoria de seus 85 anos, pacientemente me responde: “O discurso carrega, em si, a necessidade de justificação. Esse é o laço em que se enredou o lobo, antes de comer o cordeiro; não esperava que este lhe respondesse de modo irretorquível; assim, recorreu primeiro ao cinismo: - se não foi você, agora, foi teu irmão, que a sujou antes; e como o cordeiro retrucou que não tinha irmão, apelou para a força bruta. 

O mais forte, se deseja prevalecer, deve refugar o diálogo com o mais fraco, pois a razão igualiza. Foi ingênuo o lobo – alguém diria – ao tentar justificar seu atentado. O cínico busca desvalorizar o poder da palavra, como fez Pilatos ao perguntar: - o que é a verdade?” 

Essa explicação me faz lembrar da expressão lobo em pele de cordeiro e pensar no país em que estamos vivendo, onde ao menos 6.375 pessoas foram mortas por policiais ano passado, sendo que 79,1% das vítimas eram pretas ou pardas, onde em média ocorrem 180 estupros por dia e só em 2018 foram 66 mil vítimas, sendo a maioria meninas de até 13 anos, onde quatro meninas até essa idade são estupradas por hora nesse nosso país, onde no ano passado 1.338 mulheres foram assassinadas por sua condição de gênero, onde desde o início da pandemia temos em média três feminicídios por dia, onde ontem uma mulher jovem negra de 24 anos, grávida, foi assassinada com um tiro na cabeça quando ia visitar a sua avó, onde em 2020 o Brasil assegurou para si o 1º lugar no ranking dos assassinatos de pessoas trans no mundo, onde até hoje tivemos mais de 16 milhões de casos de Covid 19, onde mais de 470 mil pessoas morreram e muitas outras morrerão sem vacina de uma doença que já existe vacina, onde desde o ano passado a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura já havia alertado que o nosso país poderia voltar a ser incluído no Mapa da Fome, onde ano passado o Banco Mundial estimou que cerca de 5,4 milhões de brasileiros atingiriam a extrema pobreza e onde, mesmo assim, o atual governo decidiu não construir políticas de segurança alimentar e extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional em uma só violenta abocanhada.

“Outra forma de desvalorizar a verdade consiste em relativizá-la", segue meu pai. "Alguém poderia dizer que existe uma verdade do lobo e uma verdade do cordeiro, e, com isso, desqualificar o conceito de verdade. Admitamos que lobo e cordeiro têm perspectivas distintas, mas é inevitável, para ambos, que o riacho corre para baixo, e não para cima.

Analisando esses fatos e recorrendo ao discernimento, poderemos observar e aprender que, assim como o lobo de nossa parábola, os lobos que habitam o meu e o seu quintal e que foram entronados em algum momento por vários e várias de nós, agora alimentados com sangue dos pobres e vestidos com a pele dos cordeiros que acabaram de devorar, também mentem, criam histórias, invertem valores, manipulam e distorcem a realidade. Meu pai continua: “na sociedade humana – como se sabe – ninguém é suficientemente forte para prevalecer durante todo o tempo. Logo, não há poder durável que se estabeleça sem a conveniente justificativa. Se basta a força para coroar o rei dos animais, para que isso aconteça na sociedade humana faz-se necessário um acréscimo: a persuasão, o convencimento, a crença.” 

Podemos então entender porque os lobos do Brasil de hoje construíram e constroem diariamente fraudes retóricas com falsas notícias, criando Power Points vazios de acusação, negando a ditadura militar, pervertendo o sentido das palavras comunismo e socialismo, inventando termos como "ideologia de gênero” com seus “kit gays” e anunciando que a extrema esquerda quer fazer do Brasil uma Venezuela. 

Estrategicamente para a manutenção do poder, eles atuam gerando uma espécie de pânico moral, arrebanhando parte do apoio da sociedade que, iludida, pensa estar em defesa de valores fundamentados na ideia do bem e/ou da “família tradicional”. “O domínio pela força é caro e frequentemente colhe insucessos”, nos diz o historiador Fernando Horta. “O domínio pelo consentimento é barato e duradouro”. E finaliza nos dando um alerta cirúrgico: atualmente “estamos em um perigoso jogo político do qual fazemos parte sem saber”

E é aí que a porca começa a torcer o rabo, Juliana! Porque a palavra “política” está ligada aos cidadãos que vivem na “pólis” (cidade) e tem a ver com o viver em comunidade, com o ato de existir em conjunto. Tem a ver com as liberdades fundamentais como condições de sua existência. Com direitos políticos e públicos, com funções e atividades de governos. Com o morador de rua, comigo, com você e com a Beyoncé. Com o que acontece no Congresso Nacional e entre as quatro paredes da sua casa. Tem a ver com as regras de convivência e os limites de ação que você estabelece e/ou negocia diariamente com o seu marido e filhos, com seus amigos e fãs, no seu trabalho, nas ruas e no seu Instagram. E a não ser que você seja uma monja e viva sozinha em uma caverna no Tibet, não conseguirá escapar da política.

Aristóteles dizia que os homens são animais políticos pois tendem à vida em sociedade. Que a sociedade precede o indivíduo, o todo precede a parte e o fim do homem é a felicidade. Entretanto, dependemos uns dos outros para nos realizamos através da pólis e somente nela nos tornamos plenamente humanos. Ou seja, para alcançarmos a felicidade, não basta satisfazermos os nossos desejos e necessidades como indivíduos e tão somente no seio de nossas famílias. Sendo a coletividade superior ao indivíduo, o bem comum superior ao bem particular, é necessário que o meu vizinho, sua família e todos na nossa comunidade também possam dar vazão às suas potencialidades. Assim sendo, ampliamos nosso olhar ao outro e aprendemos a calçar seus sapatos. Arregaçamos as nossas mangas e nos tornamos sujeitos de luta, colocando o nosso amor em ação para a construção de um bem viver comum, onde todos possam ter garantido comida, moradia digna, educação pública de qualidade, vacina e saúde gratuita, trabalho, transporte seguro, acesso à cultura e a arte. Uma vida com liberdade, justiça e direitos humanos respeitados, conforme nossa colega Cristina Pereira me escreveu outro dia. Direitos esses e liberdades fundamentais para a garantia de condições mínimas de vida e desenvolvimento de todo ser humano para uma existência digna. A quem interessaria uma vida em sociedade sem esses preceitos humanos fundamentais?

E aqui a porca torce mais ainda o rabo, Juliana. Porque quando nos abstraímos desse exercício de construção coletiva, quando dizemos que não gostamos de política, que somos independentes e “neutras e neutros”, que ninguém nos representa, que não apoiamos o atual governo e nem nos identificamos com outras alternativas, ainda assim estamos fazendo política, entretanto, de joelhos e de olhos fechados, nos sujeitando a: 1. mandarmos todo o rebanho para ser devorado ao lobo no rio salvando temporariamente a nossa própria pele, 2. termos os queijos de nossas bocas roubados pela raposa ou 3. sermos manipuladas pelo lobo para, logo em seguida, termos a nossa vida perdida e a daqueles que amamos.

A grande mestra indiana chamada Amma, conhecida como a santa dos abraços e considerada pela ONU a maior líder humanitária e espiritual do mundo, diz: “Não é possível acordar alguém que finge estar dormindo”. Acreditando que esse não é o seu caso, Juliana, te escrevi essa longa carta e a termino deixando aqui uma outra opção de posicionamento, a partir de uma versão da mesma fábula contada por Millôr Fernandes:

Estava o cordeirinho bebendo água, quando viu refletida no rio a sombra do lobo. Estremeceu, ao mesmo tempo que ouvia a voz cavernosa: "Vais pagar com a vida o teu miserável crime". "Que crime?" - perguntou o cordeirinho tentando ganhar tempo, pois já sabia que com o lobo não adianta argumentar. "O crime de sujar a água que bebo". "Mas como sujar a água que bebes se sou lavado diariamente pelas máquinas automáticas da fazenda?" - indagou o cordeirinho. "Por mais limpo que esteja um cordeiro é sempre sujo para um lobo" - retrucou dialeticamente o lobo. "E vice-versa" - pensou o cordeirinho, mas disse apenas: "Como posso sujar a sua água se estou abaixo da corrente?”. ”Pois se não foi você foi seu pai, foi sua mãe ou qualquer outro ancestral e vou comê-lo de qualquer maneira, pois como rezam os livros de lobologia, eu só me alimento de carne de cordeiro" - finalizou o lobo preparando-se para devorar o cordeirinho. "Ein moment! Ein moment! - gritou o cordeirinho traçando o seu alemão kantiano. "Dou-lhe toda razão, mas faço-lhe uma proposta: se me deixar livre atrairei pra cá todo o rebanho". "Chega de conversa" - disse o lobo - "Vou comê-lo, e está acabado”. "Espera aí" - falou firme o cordeiro - isto não é ético. Eu tenho, pelo menos, direito a três perguntas". "Está bem" - cedeu o lobo irritado com a lembrança do código milenar da jungle. "Qual é o animal mais estúpido do mundo?”. "O homem casado" - respondeu prontamente o cordeiro. "Muito bem, muito bem!" - disse logo o lobo, logo refreando, envergonhado, o súbito entusiasmo. "Outra: a zebra é um animal branco de listas pretas ou um animal preto de listas brancas?”. "Um animal sem cor pintado de preto e branco para não passar por burro.” - respondeu o cordeirinho. "Perfeito!" - disse o lobo engolindo a seco. "Agora, por último, diga uma frase de Bernard Shaw. "Vai haver eleições em 66." - respondeu logo o cordeirinho mal podendo conter o riso. "Muito bem, muito certo, você escapou!" - deu-se o lobo por vencido. E já ia se preparando para devorar o cordeiro quando apareceu o caçador e o esquartejou. 

Moral da história: Como acabamos de ver na versão de Millôr, o cordeiro, por sua bravura e lucidez, consegue refrear os impulsos devoradores do lobo. Mas não é ele quem vai aniquilar o predador, que lhe supera em força e arrogância. É preciso que uma nova força apareça. Em um Brasil triste e obscuro dominado pelo impulso fascista que nos devora, apelemos para a bravura de nossa natureza de cordeiro — como resistência — mesmo sabendo que ela não derrotará a ameaça. E muito além: sejamos os caçadores. Para que a bravura dos cordeiros ao nosso redor possa resultar. Sejamos os caçadores, protagonistas da ruína do lobo que oprime, massacra e assassina tantas brasileiras e brasileiros/cordeiros que apenas querem seguir bebendo a água do rio, enquanto ainda há água que corre nele, enquanto somos humanos e há sangue que corre em nós.

Abraço fraterno,

Luciana

*Agradecimentos ao meu pai Sérgio Sérvulo da Cunha pela inspiração a partir de seu livro “Uma deusa chamada Justiça” e ao Ciro Sales pela revisão e colaboração.

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