O luto e a saudade, gêmeos bivitelinos, são o porto do nômade

"Quando, em algum momento de 2020, eu vi a foto de um jovem palestino sentado no parapeito da janela de um hospital na Cisjordânia para tentar se despedir da mãe, que sucumbia ao coronavírus, sem poder abraçá-la e beijá-la uma última vez, senti seu luto como um punho apertado bem dentro do meu peito", escreve Flávio Ricardo Vassoler

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(Foto: Luanna Falcão)
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Quando, em algum momento de 2020, eu vi a foto de um jovem palestino sentado no parapeito da janela de um hospital na Cisjordânia para tentar se despedir da mãe, que sucumbia ao coronavírus, sem poder abraçá-la e beijá-la uma última vez, senti seu luto como um punho apertado bem dentro do meu peito. O filho podia ver a vida abandonando o corpo de sua mãe (o vidro é translúcido), mas não tinha como afagar seu cocuruto em busca de uns galos pequeninos e irregulares que, sob o hijab e os vastos cabelos grisalhos, como que mimetizavam as ondulações das dunas do Saara, aonde a mãe sempre prometera levar o filho. 

- Só se for de tapete voador, mamãe, só se for de tapete voador! 

O vidro da janela do hospital, translúcido à visão, é impermeável ao adeus. 

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Pude velar minha vó, meu pai e minha mãe. Aos 14 anos, eu ainda acreditava que minhas lágrimas conseguiriam acalentar a pele fria e amarelecida da vó Nena. Aos 20, eu me perguntava como meu pai Nhanho conseguiria respirar com aqueles chumaços de algodão nas narinas. Aos 30, procurei convencer minha mãe Neuzinha (e a mim mesmo) de que não faria frio dentro do caixão (minha mãe queria que a enterrassem com meias). 

Antessala do luto mais amargo e solitário que ainda viria, o velório, como derradeira despedida, é a partida do sal com aqueles e aquelas, que, como você e eu, ainda estamos aqui. Mesmo assim, a partilha do luto nos ajuda a acreditar que o até breve é um ovo a ser chocado no ninho do adeus, como as fotos de pássaros migratórios que vinham junto com o finado chocolate Surpresa ou como o mais lúdicos dos brinquedinhos que nasciam do ventre do Kinder Ovo. 

São vários os lutos (são muitas as orfandades sem orfanato), e, como o jovem palestino, nem sempre podemos nos despedir. Ainda mais rascante é o luto que nos faz conviver com a carcaça de nós mesmos (o passado é como um fruto podre e querido, o passado é como um charco repleto de folhas podres, de cujas águas turvas o luto, gêmeo bivitelino da saudade, ainda acredita poder resgatar o outono). 

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Em novembro de 2020, estive, pela última vez, em São Bernardo do Campo, minha verdadeira cidade natal para além do corpo nascido em Ribeirão Pires 39 anos antes. As avenidas mais largas; os prédios comerciais outrora inexistentes; a escola em que eu estudei fechada por causa da pandemia; o clube que frequentei durante toda a adolescência sem uma alma viva - “Sabe como é, né, Ricardo? A rapaziada hoje em dia pega piscina e joga bola no condomínio” -, tudo nessa outra São Bernardo do Campo (nesse outro eu) me machucava. 

Quando eu me sentei num café do shopping que já tinha exilado meus fliperamas favoritos há muito tempo, transbordei num choro doído e caudaloso, daqueles em que os suspiros, os soluços e as lágrimas não encontram porto para atracar a dor. 

Em São Bernardo do Campo, eu me vi órfão dos meus ancestrais.

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Em São Bernardo do Campo, eu me vi órfão da minha cidade natal (eu já não morava em São Paulo desde 2004?).

Em São Bernardo do Campo, eu me vi órfão do Brasil (eu não viria aqui para Portugal 2 meses depois?).

Descobri em mim, no musgo da minha dor, a despedida de um nômade, que, a bordo de um navio, lança um aceno para o porto que vai sendo paulatinamente engolfado pelo horizonte. 

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Eu estou no navio. (Eu sou o navio.)

Eu estou no porto. (Eu já não tenho um porto.)

Sentado no parapeito da janela de um hospital em Belém, na Cisjordânia (cidade onde estive nos Natais de 2017 e 2018), eu vejo meu coma através do vidro insensível e não consigo me resgatar. 

Será que eu me tornei nômade, fiel como os pássaros migratórios, para, a cada novo porto, a cada nova cidade, driblar os escombros do passado criança hipnotizada pelo presente surpresa do Kinder Ovo?

 Será que eu não tenho raízes imaginando que minhas asas voam por sobre as nuvens da saudade?

Quer algodão doce, meu filho?

Só se o algodão doce for filho das nuvens, mamãe… 

Sim, Ricardinho: o algodão doce acabou de sair do forno do céu.

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