O monólogo de Rosa Weber

"O monólogo de Rosa Weber já é outra história. Está no meio do caminho entre a patologia, a autocomplacência e o medo. É um discurso apavorante, dotado de cifras intensas de imobilismo, sintoma máximo do caráter ora vigente no país: o caráter da ausência de caráter – e a consequente ausência de sentido", diz o colunista Gustavo Conde, que é também linguista

Brasília - Ministra Rosa Weber durante sessão plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) para julgamento sobre imunidade de deputados estaduais do Rio (Carlos Moura/SCO/STF)
Brasília - Ministra Rosa Weber durante sessão plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) para julgamento sobre imunidade de deputados estaduais do Rio (Carlos Moura/SCO/STF) (Foto: Gustavo Conde)

A pressão da imprensa e agregados foi tanta que o STF ficou mais uma vez de joelhos diante da história. O roteiro tem se repetido desde antes do impeachment: judicializa-se a política e leva-se-a ao Supremo que, aparentemente se sente lisonjeado e chancela todo o processo.

Uma corte que tem inclinação para debutar sob holofotes jamais irá ponderar tecnicamente cedendo espaços ao contraditório e a balizas constitucionais. Vê-se claramente um STF dividido: de um lado, ministros em grau máximo de suscetibilidade, presas fáceis das pressões exercidas pelos meios de comunicação e por segmentos conservadores, portadores de prática e discurso violentos.

De outro, vê-se um supremo que teme pela irreversibilidade do descrédito generalizado do instituto da justiça no Brasil. Não à toa, José Roberto Batochio citara, há pouco menos de duas semanas naquele tribunal, um magistrado francês do século 18, Malesherbers, que foi guilhotinado nos estertores da Revolução Francesa. Batochio levou o gravíssimo momento histórico pelo qual atravessa o Brasil ao STF e, num primeiro momento, obteve êxito.

O voto de Gilmar Mendes ontem foi tão impressionante quanto inédito. Jamais este escriba viu um espancamento daquela magnitude dirigido diretamente à imprensa brasileira, nem no mais desvairado perfil extremista de rede social. Foi devastador. Mendes chamou a imprensa de chantagista várias e várias vezes.

Confessou, em nome do próprio STF e não deliberadamente, o que vem ocorrendo ali, naquele tribunal: uma sucessão de votos de cabresto que visa atender a pressões de uma opinião pública que nem existe, mas que é materializada na narrativa fictícia que prende a atenção farseca e novelesca do brasileiro conservador.

Mendes está longe de ser um magistrado exemplar e desinteressado. Por isso mesmo, sua fala assusta. A que ponto chegou no Brasil a conjuntura tão apodrecida das relações promíscuas entre poderes, incluindo o quarto poder? Nem aquele ministro aguenta mais.

Ao lado de Gilmar, há uma ala – também longe de ser santa – que endossa esse esgotamento generalizado das funções próprias de ofício de um tribunal máximo: Marco Aurélio, Celso de Melo e Ricardo Lewandowski. Erros cometidos, vida que segue e que ninguém afirme que o ser humano não tem direito ao arrependimento e à autocrítica. Nem a recaídas ao sabor do vento jornalístico.

Essa “quadra” de ministros parece entender o grau de decrepitude alcançado pelo tribunal. Mendes deixou isso claro em seu voto histórico: em 15 anos de STF, disse jamais ter testemunhado tamanha promiscuidade no assédio que a imprensa exerce dia e noite sobre ministros e convíveres.

Marco Aurélio, talvez o mais inteligente de todos os ministros, dotado de um profundo senso de humor e de ridículo, também se projeta na fileira daqueles que reconhecem o papel subserviente e assessório que o tribunal tem oferecido aos contribuintes brasileiros. Em outras palavras, Aurélio tem autocrítica e tem tentado zelar pelos abusos retóricos que dali germinam, desde Joaquim Barbos…
[06:51, 6/4/2018] Gustavo Conde : O monólogo de Rosa Weber

A pressão da imprensa e agregados foi tanta que o STF ficou mais uma vez de joelhos diante da história. O roteiro tem se repetido desde antes do impeachment: judicializa-se a política e leva-se-a ao Supremo que, aparentemente se sente lisonjeado e chancela todo o processo.

Uma corte que tem inclinação para debutar sob holofotes jamais irá ponderar tecnicamente cedendo espaços ao contraditório e a balizas constitucionais. Vê-se claramente um STF dividido: de um lado, ministros em grau máximo de suscetibilidade, presas fáceis das pressões exercidas pelos meios de comunicação e por segmentos conservadores, portadores de prática e discurso violentos.

De outro, vê-se um supremo que teme pela irreversibilidade do descrédito generalizado do instituto da justiça no Brasil. Não à toa, José Roberto Batochio citara, há pouco menos de duas semanas naquele tribunal, um magistrado francês do século 18, Malesherbers, que foi guilhotinado nos estertores da Revolução Francesa. Batochio levou o gravíssimo momento histórico pelo qual atravessa o Brasil ao STF e, num primeiro momento, obteve êxito.

O voto de Gilmar Mendes ontem foi tão impressionante quanto inédito. Jamais este escriba viu um espancamento daquela magnitude dirigido diretamente à imprensa brasileira, nem no mais desvairado perfil extremista de rede social. Foi devastador. Mendes chamou a imprensa de chantagista várias e várias vezes.

Confessou, em nome do próprio STF e não deliberadamente, o que vem ocorrendo ali, naquele tribunal: uma sucessão de votos de cabresto que visa atender a pressões de uma opinião pública que nem existe, mas que é materializada na narrativa fictícia que prende a atenção farseca e novelesca do brasileiro conservador.

Mendes está longe de ser um magistrado exemplar e desinteressado. Por isso mesmo, sua fala assusta. A que ponto chegou no Brasil a conjuntura tão apodrecida das relações promíscuas entre poderes, incluindo o quarto poder? Nem aquele ministro aguenta mais.

Ao lado de Gilmar, há uma ala – também longe de ser santa – que endossa esse esgotamento generalizado das funções próprias de ofício de um tribunal máximo: Marco Aurélio, Celso de Melo e Ricardo Lewandowski. Erros cometidos, vida que segue e que ninguém afirme que o ser humano não tem direito ao arrependimento e à autocrítica. Nem a recaídas ao sabor do vento jornalístico.

Essa “quadra” de ministros parece entender o grau de decrepitude alcançado pelo tribunal. Mendes deixou isso claro em seu voto histórico: em 15 anos de STF, disse jamais ter testemunhado tamanha promiscuidade no assédio que a imprensa exerce dia e noite sobre ministros e convíveres.

Marco Aurélio, talvez o mais inteligente de todos os ministros, dotado de um profundo senso de humor e de ridículo, também se projeta na fileira daqueles que reconhecem o papel subserviente e assessório que o tribunal tem oferecido aos contribuintes brasileiros. Em outras palavras, Aurélio tem autocrítica e tem tentado zelar pelos abusos retóricos que dali germinam, desde Joaquim Barbosa.

Lewandowski, depois que costurou um impeachment inédito no mundo do presidencialismo – destituição do cargo sem crime e sem pena – deve ter tido um encontro dramático consigo mesmo. Chegou a deixar um bigode suspeitíssimo, que lhe deu um ar de mágico profissional, felizmente logo raspado.

O decano não parece reunir mais forças retóricas para se inflamar como Mendes, nem para ironizar como Mello, mas ainda preserva um certo ar de respeitabilidade. Celso de Melo se omitiu como qualquer outro ministro no gerenciamento da política judicializada, mas os hormônios deletérios agora estão nas cadeiras mais jovens.

Barroso nem vale a tecla pressionada. Ele comprou uma briga pessoal para figurar como destaque abre alas na grife anticorrupção. Inflama-se ao menor cisco em sua visão estereotipada de mundo. Não foi uma mosca azul que o picou, foi uma mosca platinada, reluzente, metálica. Certamente, o próximo prêmio no rateio dos agradecimentos pelo bom comportamento será dele. Ele fez a diferença.

Weber já virou a piada do ano com seu voto bem-me-quer-mal-me-quer. Ela não é uma rosa, é uma margarida despetalada. Sua fala merece uma tese no campo dos estudos da linguagem, tão ambígua contraditória e, em última instância, fraudulenta. Vai encontrar-se consigo mesma em breve e pode-se assegurar que não será fácil.

Lúcia é uma unanimidade entre magistrados Brasil afora: ela não conhece a matéria. Facchin, o coadjuvante útil. Moraes e Fux dispensam o laudo psicológico, tão óbvios que são. O interessante mesmo é Tóffoli, este que um dia foi advogado do PT.

O voto de Tóffoli ontem foi uma espécie de voto-enxaqueca – ainda que ele tenha votado a favor do habeas corpus. Tóffoli quer mostrar tanto serviço que cita a literatura de forma pueril e mecânica. É possível ver, pela TV Justiça, o constrangimento de seus pares apenas pelo olhar e pela respiração.

Um ministro do STF, a essa altura do campeonato, querendo impressionar? Marco Aurélio, solidário e comiserado, tentou prestigiá-lo com 3 leves intervenções. Mas, pergunto: qual a relevência de se agir como um menino esforçado que lê montanhas de livros teóricos mas não tem a menor ideia do que fazer com o substrato intelectual ali subscrito? Cadê a lógica, a humanidade, a verossimilhança, a fala pública, o sentido?

Tóffoli é um fosso entre a teoria abstrata e a realidade jurídica residual que ainda sobrevive na periferia da vida institucional brasileira. O dizer dele não diz nada. É um vácuo, um amontoado de ethos fragmentados e artificiais de alguém que não tem a menor ideia do que está fazendo ali ou do que seja um tribunal superior.

O resultado prático do voto dele me representou enquanto cidadão que paga o seu salário. Mas a forma me estarreceu.

Ontem, portanto, foi mais um dia para se lamentar. Os próprios ministros deixam vazar pelas imagens da TV Justiça seus respectivos enfados com o sucateamento do STF. Não há mais nadadores naquela piscina, todos se afogam, inclusive aqueles que ainda insistem em querer nadar.

Esquecem, talvez, que um ministro que ali figurava até recentemente morreu em um desastre de avião muito mal explicado. A sombra de Teori rondou o STF ontem, porque ela significa o medo que habita a ala suscetível de ministros, aquela ala fragilizada e, por isso mesmo, facilmente seduzida pelos carinhos da imprensa.

Se vivo, Teori seria uma voz contundente contra o simplismo jurídico – fantasiado de literatura - que ignora a gravidade galopante do país. Ele era o relator da Lava Jato, a grande operação que despedaçou o país e o próprio STF. Era o elo que poderia religar o ordenamento jurídico a uma linha mais constitucional e menos impressionista.

Para um linguista, os votos do STF são todos relatos de caso. São todos sintomas das múltiplas fragilidades intelectuais que por ali se encostam. Weber, por exemplo, repetiu o sintagma “no meu entendimento” ad nauseam. Isso está errado. Isso é um desequilíbrio evidente entre a compreensão de um texto e seu respectivo desdobramento interpretativo. Os “entendimentos” não são propriedade privada, eles precisam estar conectados através de procedimentos de codificação minimamente organizados e licenciados pela dimensão empírica da linguagem.

Do ponto de vista linguístico stricto sensu seu voto foi uma aberração verbal e textual. Será, certamente, pesquisado por especialistas em futuro próximo. A arte da retórica tem sua razão de ser e suas vicissitudes, mas não é um oba-oba vulgar em que se pode ir e vir a todo momento.

Poucos romancistas adentraram o campo da retórica contraditória como elemento de persuasão. Aliás, que se diga: se um romancista o faz, é arte. Se um magistrado o faz, é trambique.

James Joyce foi um deles, mal compreendido e estereotipado como hermético e “difícil”. Não era nada disso, era só ousado. Por um instante, Rosa Weber lembrou o monólogo final de Molly Bloom em Ulisses, uma vertigem textual de 80 páginas, um só parágrafo e nenhum tipo de pontuação.

A última palavra do romance – e do monólogo – é “yes”. Um yes orgástico recheado da hipersensibilidade de uma personagem que, talvez, apenas quisesse enunciar em paz e sem compromisso com os sentidos misóginos e históricos que a sufocavam. É arte.

O monólogo de Rosa Weber já é outra história. Está no meio do caminho entre a patologia, a autocomplacência e o medo. É um discurso apavorante, dotado de cifras intensas de imobilismo, sintoma máximo do caráter ora vigente no país: o caráter da ausência de caráter – e a consequente ausência de sentido.

No entendimento dos brasileiros, esse tipo de fraude verbo-textual-jurídica está por demais saturada. Batochio foi solidário a seus colegas e avisou que séculos atrás, o desenlace para este tipo de entropia social foi algo um tanto mais radical do que imagina a vã crença nas instituições. Seria bom que dessem ouvidos a ele, que falou com paixão, que falou com a história, que falou com a alma.

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