O novo radicalismo em 8 traços

O radical não se assume. A pessoa radical se sente ofendida em ser rotulada – ou será reconhecida?- como radical, ainda que possa não compreender muito bem o que seja o rótulo

Protestos a favor: capitão assustado, direita rachada e país em ponto morto
Protestos a favor: capitão assustado, direita rachada e país em ponto morto

Há um novo radicalismo no Brasil com a eleição do novo presidente. Não é o único. O fundamentalismo religioso, por exemplo, que se assiste no país com igrejas comprometidas com um descarado financeirismo da fé, é outro. A história do mundo é repleta de ondas sociais idiotizantes e truculentas.

1. Radicais têm traços idênticos. O radicalismo atual difere, um pouco, do seu radicalismo irmão, o do PT. Sim, os radicalismos têm muitas coisas em comum. Aqui o primeiro traço de identificação. Ainda que radicais de esquerda não queiram ser ‘colegas’ de radicalismo de radicais de direita e vice-versa. Berrarão, ambos, que seus radicalismos são ‘coisa completamente diferente’, frase vazia que não explica nada. Como pessoas radicais são antropologicamente crédulas, é perfeitamente natural que continuem ‘crendo’ na diferença. Sem problema.

2. Isso não é radicalismo. A tentativa de os radicais dizerem que, no caso, ‘não se trata de radicalismo’ é a segunda característica na questão. Sim, a negação. Os ‘grávidos’ de qualquer seita são previsíveis. Mas o pior, a maioria não tem grandes personalidades para assumir que sua seita de plantão é um radicalismo, um extremismo. Para estes, a prenhez ideológica não é radicalismo, É razão.

3. O radical não se assume. A pessoa radical se sente ofendida em ser rotulada – ou será reconhecida?- como radical, ainda que possa não compreender muito bem o que seja o rótulo. Compreender não é lá o forte dessa gente intelectualmente com dificuldades. Jura de pé junto que radical não é. Mas se a pior mentira é para si próprio, o radical que não se assume já denota este terceiro traço da coisa, a burrice da negação além da negação da burrice. Se você insistir na classificação será xingado, sem qualquer fundamento. Algo meio Schopenhauer nas famosas formas de vencer numa discussão.

4. O radicalismo não é inteligência. No quarto traço do radicalismo há que se considerar que ele jamais é um superproduto da inteligência, da genialidade ou da beleza humana em forma de arte. É, inquestionavelmente, um subproduto da burrice. À criatura radical faltam o equilíbrio, a dialética cadenciada que aceita o próprio equívoco e que não teme ‘reconhecer’ – esta ‘fraqueza’ tão temível e nunca vivenciada pelos radicais. Mas também faltam a sutileza e o estado da arte. Faltam diversas coisas para que este nosso mamífero radicaloide, babando mantras e ideários repetidos sem grandes reflexões mais acuradas, se perceba como ele próprio é. Mas também falta conhecimento, de História, Ciência Política, Sociologia e outras maravilhas salvadoras sociais bondosas que ensinam, didaticamente, como os estertores da idiotice humana fizeram e desfizeram com a humanidade.

5. O ser radical não aceita o outro. O quinto traço do radicalismo é não aceitar o outro com suas divergências. Este outro precisa ser simplesmente derrotado. Simples assim. Não se convive, disputa-se. Não se interage, oprime-se. Não se aprende, nem com o maior gênio, ‘lacra-se’ – agora esta neoidiotice pseudonocauteante própria de quem intelectualmente rumina. Não aceitar o outro divergente é não ter o mínimo de percepção, a ponto de negar a condição humana. Radicais não têm dúvidas, pulam este estágio tão necessário à compreensão e vão direto à ‘certeza’, esta suma tosca própria do ser idiota.

6. Radicais não reconhecem a dimensão da grandeza. No sexto traço do radicalismo, inverte-se o caminho do reconhecimento humano. Não se parte da densidade do fundamento teórico ou intelectual para o reconhecimento da sabedoria. Em vez disso, checa-se a linha ideológica de quem fala para, apenas por isso, reconhecer uma genialidade customizada ao radicalismo portátil que se quer legitimar. Aí, jogam-se no lixo entidades reconhecidas e mundiais de ciência e de produção de conhecimento para se achar em algum confim de um país qualquer, uma criatura personalista e totalmente desviante do pensamento razoável, do pensamento confirmado para se considerar, então, como o paradigma da genialidade. Jürgen Habermas, na obra O Futuro da Natureza Humana, ensina que qualquer comunidade religiosa só merece o predicado de ‘razoável’, dentre outras coisas, se ‘se adaptar à autoridade das ciências, que detêm o monopólio social do saber sobre o mundo’. Reconhecer esta grandeza, beleza e dedicação das ciências em prol da humanidade é um traço de humildade intelectual, coisa que qualquer radical, por seu próprio vício de visão não consegue nutrir. E se encantar.

6. A violência. Os radicais têm traços de violência e agressividade. É uma gente que requer cuidado. Assim, rompem amizades, parentescos e relações na defesa de sua forma de vida. Como o pensar é curto e as soluções vêm espasmódicas no sentido de sua fabricação instantânea e irrefletida, ao primeiro sinal de detecção do ‘inimigo’ se tornam intelectualmente agressivos.

A tristeza sociológica. O último traço do radicalismo, aqui, é a tristeza sociológica que representa o atraso para um país ou comunidade, de toda uma gente comungando pensamentos primários, apressados, efetivamente supérfluos, mas, sobretudo, espumosos em certezas. Em pleno século 21, com todo o conhecimento histórico que a humanidade já produziu; com todas as frustrações que políticos salvadores, milagreiros, heróis, pregadores, e outros charlatães já causaram, ver-se nascer um radicalismo é matéria para mais estudo. E a certeza que esses movimentos não cessarão. O homem é infinito em maldade e idiotice.

Continua a existir quem aprenda com livros, agências de ciência e universidades, com bondosos da sabedoria que não se furtam a dividir o reinado do conhecimento. E há, como o mesmo Habermas, no mesmo livro citado mostra, os que se entregam a especulações ferozes, ‘um punhado de intelectuais alienados tentando ler o futuro a partir da borra de café’. O mundo é uma grande democracia natural e pensante. Sinta-se livre para escolher o seu ‘lado’. Mesmo que ele seja um triste lado.

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